Um velho sorriso

Fim de um dia intenso nos corredores do Hospital de Clínicas.

Era o último paciente a quem devia fazer perguntas sobre a evolução de uma doença reumática degenerativa que acometia os doentes que iam àquela zona nas segundas-feiras.

Dei uma rápida olhada no prontuário:

“TBL: homem, 70 anos, eupneico, doença sem atividade”

Nada ali me chamava a atenção. Coletei alguns valores de proteínas, moléculas, e outros dados numéricos. Até então, Sr T. resumia-se a uma frase, um punhado de números — com e sem vírgula — e alguns gráficos. Figurei por alguns minutos o quanto aqueles valores mascaravam. E, com a mania besta que tenho de imaginar como são os pacientes antes de vê-los pela primeira vez, rascunhei para mim mesmo a vida do Sr. T.

Imaginei o Sr. T. indo até o hospital, dias antes, para colher os exames. Com um chapéu preto na cabeça, um terno surrado — ainda que bem passado- e um Diário Gaúcho debaixo do braço. Li em seu prontuário que vinha de Guaíba, município próximo a Porto Alegre. Embarcava no ônibus e assistia à juventude que se apresentava diante dele, reclamando um pouco do que via: “no meu tempo não era assim”. Coisa da idade, vocês sabem. Com um bigode bem penteado, um ralo e grisalho cabelo amontoando-se no topo da cabeça, imaginei que descia do ônibus com receio. Pensei na angústia que deveria sentir ao ter que contar para a mulher — o Sr. T. que imaginava era casado com uma senhora simpática, que tinha um pouco de medo de ir para a cidade grande, coisa de assaltos que aconteciam por lá — o estado de sua doença, assim que soubesse dos resultados.

O Sr. T. das minha cabeça imaginativa tinha medo de agulhas — uma fraqueza que poucos sabiam. Esperava, espiando o jornal e vendo a seção de esportes — era colorado de berço- ser chamado para picarem-lhe o braço, momento que preferia adiar ao máximo, já que lhe subia uma tremedeira desde a espinha só de pensar no futuro breve.

Foi chamado pela enfermeira e resolveu fazer graça, conservando-se o respeito à moça jovem:

“Tão bonita para andar furando os outros!”

Ela riu-se toda, prometendo ser boazinha com o menino da velha-guarda. Fez a assepsia e fincou-lhe a lanceta. Sr. T. comprimia os olhos com força, torcendo para que a jovem não notasse seu trejeito em reagir às agulhadas, mas ela foi ligeira:

“Tão crescido para temer uma agulhazinha!”

O chiste foi o anestésico que o Sr. T. precisava. Por um momento riu-se e quando deu por si, já estava com um bonito curativo cobrindo o pequeno furo. Orgulhou-se.

Sr. T., ainda que tudo se passasse apenas nos caprichos de meus neurônios, voltava para casa, maquinando o que diria para sua esposa se os resultados dos exames — traduzidos pelos apressados homens de jaleco branco — não trouxessem bons prognósticos, quando voltasse dias depois. O Sr. T. que imaginava tinha uma família grande, que vinha visitá-lo semana sim, semana não, trazendo-lhe um mimo vez ou outra — cocada de côco queimado era das que mais gostava.

Perdido em pensamentos, achando ser possível reconstruir toda a vida de Sr. T. naqueles minutos, desfiz o sorriso besta que se desenhava no meu rosto e voltei à consciência. Era minha hora de entrar na sala, enquanto o residente apresentava o caso ao seu preceptor. Voltei à tela do computador e li novamente:

“TBL: homem, 70 anos, eupneico, doença sem atividade”

Relembrei o punhado de números que perseguiam o Sr. T. no prontuário eletrônico. Em duas linhas, voltei ao Sr. T. que tinha antes de imaginá-lo: aquele que se resumia a uma frase e um punhado de números. Levantei e entrei na sala.

A cena que então vi eu não me esqueço tão brevemente. Parecia ter sido tirada das obras de Cândido Portinari, na fase em que criou “Os Retirantes”. À minha frente, uma senhora de boa idade, com o rosto sulcado pelas linhas do tempo, num vestido florido manchado e em calçados de sola gasta, abria um sorriso, como que me acolhendo naquela pequena sala. Ao seu lado, um senhor de braços finos, amarelado, com o rosto mostrando a silhueta dos ossos, acomodava-se em uma cadeira de rodas. Suas vestes revelavam sua simplicidade: um moletom cobria-lhe as pernas e uma camisa do Internacional vestia seu peito, com folga. Assim que me viu, esboçou um sorriso com o sulco do lábios. Não tinha dentes. Estava na minha frente o Sr. T.

Chequei novamente a prancheta que carregava nas mãos e perguntei:

“Sr. T?”

A senhora que o acompanhava afirmou com a cabeça. Nesse momento procurava desesperadamente apagar a imagem que tinha feito desse senhor, evitando adiar qualquer sofrimento que se apoiasse em minha imaginação fértil. Encarei os dois novamente e sorri. Caminhei até eles, estendendo a mão para cumprimentar aquele homem, que parecia não ter carne alguma.

“Boa tarde, Sr.T, meu nome é João, sou estudante de Medicina e…”

“Ele tem as mãos atrofiadas, seus ossos foram comidos pela doença. Perdão, sou a mulher dele.” — retrucou-me a senhora, antes que eu pudesse continuar.

Notei o esforço tremendo que fazia para levantar o braço pouco centímetros do colo, sem desmanchar aquele sorriso encantador em nenhum momento. Segurei suas mãos nas conchas das minhas, abrigando os dedos tortos e finos como vara seca no calor da minha palma. Ele alargou o sorriso. Continuei:

“…e eu vim fazer algumas perguntar para o senhor, importa-se de…”

“Ele também não fala.” — interrompeu-me novamente a senhora que portava-se imóvel ao lado dele. Engoli suas palavras em seco. Percebendo minha curiosidade, continuou.

“Ele teve dois derrames não faz muito tempo. O primeiro imobilizou suas pernas, o último levou dele a capacidade de falar. Eu ainda entendo seus resmungos, mas para quem não o conhece, é duro.”

O nó na garganta apertava, mas aprendi a dissimular muito bem qualquer início de tristeza durante as consultas. Sorri, com o peito choroso por dentro. O que me impressionou foi a forma como ela, a esposa de Sr. T., contava isso sem desfazer o sorriso em nenhum momento, como se fossem fatos de pequena relevância, “detalhes” de cada pessoa. Ou era o casal mais simpático que já vira, ou eram apenas pessoas que fizeram da desgraça uma rotina, encontrando caminhos alternativos para seguirem adiante com alegria. Nas palavras de Clarice Lispector: “gente que se acostuma para poupar a vida.”

“Pode fazer as perguntas para mim, ele adora quando vocês vêm conversar com a gente.” — disse-me.

Apoiei-me sobre os calcanhares e prossegui a entrevista, alternando olhares entre ela e seu marido, que movia a cabeça para cima e para baixo, mudando o diâmetro do sorriso a cada pergunta e emitindo sons guturais, que não compreendia. As perguntas referiam-se à capacidade do doente em realizar as tarefas do dia-a-dia, como amarrar os sapatos, usar uma tesoura ou tomar um banho. Fi-las porque mandava o protocolo e porque percebia que ele gostava quando perguntava olhando em seus olhos. Devia sentir um certo ar de importância. Sua esposa, com uma habilidade notável de simplificar o que lhe era perguntado, disse:

“Não. Não. Também não. Nada disso. Sou eu quem faço tudo por ele. Alimento, mimo, cuido, dou banho… Ele estaria perdido sem mim — fitou-o — meu bebezão.”

Ele riu-se como uma criança, apertando ainda mais o nó da minha garganta que já quase me afogava. As perguntas terminavam ali, cumprindo a função que me havia sido destinada. Em outras condições, teria me despedido e encerrado o expediente. Não fui.

Segurei as mãos do Sr. T. enquanto brincava com ele, fazendo alusão aos cuidados que recebia.

“Ah, mas essa folga toda até eu queria ter, Sr. T! Imagina só, ter alguém para cuidar da gente assim pertinho!”

Enquanto ele ria, sua esposa, num tom de voz baixo, dirigiu-se a mim, como que desabafando:

“Sabe, ele fica doido, doido quando vem pra cá. Quando digo que estamos vindo, ele aponta para a camiseta que ganhou do filho mais novo, do Internacional, time que não larga nem com reza brava e pede para que eu coloque. É sua camiseta favorita. Faz questão de pôr perfume e fica todo faceiro.

Essa semana ele está ainda mais alegrinho. Meus filhos pediram para que eu tirasse ele da cama que eu punha na sala e que o pusesse no quarto, para dormir junto comigo. Eu gostei da ideia, ainda mais quando o vi se remexer todo de felicidade ao largar os braços sobre mim na cama. Dormimos agarradinhos, num aconchego que fazia seus olhos brilharem quando o dia amanhecia e ele se via ao meu lado.

Sabe, ainda acho que ele está muito bem. Semana passada foi seu aniversário, botamos a mesma camiseta do Internacional e parte da família foi visitá-lo. Precisava ser sua felicidade. Era de dar cãibra na boca banguela. Uma pena não ter podido comer nada. Para ele, só se for batido no liquidificador.

Ele podia ter nos deixado antes. Não são todos que chegam nessa idade com um sorriso como o dele. Apaixono-me dia-a-dia pelo meu meninão de setenta anos. Somos muito felizes.”

O garoto sacudia-se na cadeira, pelo pouco que pôde ouvir da conversa. Fitou-me com um olhar de ternura. Ele abraçava com os olhos.

Eu não poderia ficar nem um segundo mais naquela sala, ainda que um sorriso dominasse minha expressão. Para minha sorte, o residente retornava. Boas notícias: o Sr. T. havia recebido alta do ambulatório. Não precisaria mais retornar. Despedi-me e voltei à primeira sala.

A alta era simbólica. A doença já o havia consumido por inteiro: roeu-lhe os ossos, comeu-lhe a carne e drenou-lhe os líquidos. Havia terminado seu trabalho.

O Sr. T. que imaginei antes de conhecê-lo em nada se parecia com o que deixava aquela sala em cadeira de rodas. O Sr. T. da minha mente imaginativa tinha uma saúde melhor que a do real Sr. T.; era mais independente que o verdadeiro; andava para lá e para cá e falava até pelos cotovelos.

O Sr. T. de carne — talvez nem tanta — e osso, porém, tinha algo que o outro jamais teve (nem mesmo no mundo das ideias da minha cachola) e que nem uma doença que dele levou tudo pôde consumir: o sorriso mais esperançoso, verdadeiro e afetuoso que eu jamais vira. Era aquele sorriso que alimentava a sua vontade de viver.

Entrei em casa sem tatear o interruptor para acender uma lâmpada.

Procurei um canto no sofá e só me vinha à mente aquele rosto banguela.

Não sabia que eu guardava tanta água nos olhos. Transbordei-me em silêncio.

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