O que separa o menino que procura Pokémon do que procura comida?
É o muro invisível da desigualdade…
São Paulo, sábado, 06 de agosto
De um lado, no parque arborizado, limpo e bem cuidado, caminha o menino.
Com os olhos atentos ao smartphone de última geração e os dedos apreçados, ele se empenha na captura por mais um Pokémon, e se delicia com cada conquista junto com os amigos.
Do outro lado, embaixo de um viaduto que corta a avenida, o menino está sozinho.
Encostado em uma barraca, em meio ao lixo, pombas e sujeira, ele observa o movimento, com os olhos distantes e sem expressão.
De um lado, é o mundo dos carros de luxo, das mansões que valem milhões, das ruas planas e limpas e dos guardas particulares.
Do outro lado, luta-se diariamente pela sobrevivência, pelo alimento, por enfrentar o frio da madrugada e ainda sim ter ânimo para continuar na busca.
Mas, afinal, o que separa essas duas realidades? O que torna as vidas desses dois garotos, que estão tão próximos fisicamente, tão distantes?
O que divide esses dois mundos é um muro. Um muro que não nos impede de transitar de um lado para o outro. Um muro invisível que não causa um choque físico quando passamos por ele, mas que choca, e muito.
Esse é o muro da desigualdade.
Será que esses dois meninos terão as mesmas oportunidades?
Terão o mesmo futuro?
Cursarão a mesma universidade?
Serão tratados da mesma maneira?
Serão julgados por conta da pele branca ou negra?
O garoto do parque será chamado de vagabundo ou de trombadinha?
O garoto do viaduto será chamado de doutor?
Será mesmo que essa tal meritocracia é a responsável por chegar aonde quer que cheguemos? Será que ela vai fazer o mundo desses dois garotos convergirem ou irá segrega-los definitivamente?
Será que os políticos corruptos e sem escrúpulos não param para pensar nos garotos como o do viaduto?
E se os milhões roubados por esses mesmos corruptos fossem investidos no futuro deles?
É preciso tirar a venda que nos impede de enxergar o outro, que nos faz querer sempre mais e que nos faz passar despercebidos por esse muro, que é tão triste, tão revoltante e tão doloroso.
É preciso parar de reclamar pela alta do dólar, pelo adiamento da viagem para Nova York, pelo carro que não poderá ser trocado, pelo Iphone que não será comprado.
É preciso pensar nos meninos como o do viaduto, defende-los e lutar para que suas condições de vida sejam dignas e que o muro seja derrubado. São por eles que devemos brigar.
Eles são os heróis. Eles são dignos de respeito.