O poder da adoção de crianças negras no mundo do show business

Eu sou apaixonada pela história da Titi, a amada filha do casal Gagliasso e eu acredito verdadeiramente que foi um caso de amor a primeira vista como a doce Giovana conta nas suas entrevistas.

Esse texto não tem como premissa julgar o amor das pessoas pelos seus filhos adotivos, ao contrário, na minha visão, práticas de adoção merecem ser ampliadas cada vez mais num mundo onde o crescimento da população se dá de forma acelerada e os privilégios herdados ou alcançados por alguns não conseguem abraçar a todos.

A minha intenção nesse texto não é questionadora de amor e sim uma forma muito minha de observar o comportamento humano no tempo através do marketing. Sendo que para mim, marketing nada mais é do que uma forma de comunicação das nossas crenças, valores e sentimentos mais profundos mesmo quando somos atores e estamos cumprindo um papel de dizer que usamos um shampoo que não usamos no dia a dia.

Marketing é comunicação e comunicação é uma forma de expressar valores de uma sociedade que ao mesmo tempo avança em termos de alcance de mensagem e ainda está parada no tempo em termos de entendimento e compreensão dessa mensagem.

Eu sinto fortemente que as adoções de crianças negras por atores empreendedores são autênticas e repletas do mais puro amor mas não podemos ser ingênuos ao deixar de enxergar que esse estilo de ação também é uma excelente campanha de marketing de longuíssimo prazo.

Até nisso o fato de ser negro privilegia o branco mesmo quando é o branco que está abraçando a causa negra.

Ou você pensa que se Thais Araujo e Lazaro Ramos adotassem uma criança branca pelo sentimento de amor pleno que sabemos que transcende a cor da pele, será que se acontecesse com a Thais o que aconteceu com a Giovana, sendo que os protagonistas dessa história fossem de cores invertidas, o resultado para o casal Araujo-Ramos seria o mesmo que foi para o casal Ewbank-Gagliasso?

Pode ser que sim mas também pode ser que não.

Provavelmente, ao contrário do que aconteceu com o casal Ewbank-Gagliasso, o casal Araujo-Ramos não teria recebido tantos convites de campanhas publicitárias e talvez não teria aumentado tanto a sua visibilidade como o que aconteceu nos últimos dois anos com o casal Cagliasso caso se apaixonasse e resolvesse adotar uma criança branca.

Talvez eles fossem até chamados de racistas.

Vejam bem, eu penso que é importante esclarecer, eu não estou dizendo que a ação da adoção foi estrategicamente premedita e pensada para se tornar um máquina de visibilidade.

Não, provavelmente a máquina de visibilidade é fruto da adoção e não o grande motivador que eu acredito mesmo que tenha sido o amor.

Mas é inegável pensar que para um casal de atores empreendedores, ter uma máquina de visibilidade como é a Titi traz vantagens comerciais inesgotáveis.

O privilégio branco no Brasil é tão amplo e irrestrito que até mesmo quando abraçamos as causas negras os grandes beneficiados somos nós.

Eu sou uma branca de origem negra, a família da minha mãe é negra e a do meu pai branca.

Até os 7 anos de idade eu era a menina loira que ao ser carregada no colo pelo tio negro ouvia sem entender: onde você raptou essa garota?

E com uma irmã com o cabelo mais ‘crespo’ que o meu, ouvíamos a todo momento: nossa, vocês são tão diferentes.

Minha irmã ouvia: quem é o negro dessa história? seu pai ou sua mãe.

Naquela época nós não entendíamos o racismo presente nessas perguntas, éramos crianças assim como a doce Titi também não entende o racismo que recebe como ataque, o que também funciona como um jogo de marketing.

Adotar e atacar crianças negras são formas de aumentar a visibilidade.

O escravo negreiro era uma forma de comércio, o negro era a uma moeda, da mesma forma que você hoje troca sua nota de 50 por um prato de comida num restaurante self-service, um negro era trocado por um punhado de sal, por sacos de milho ou pedaços de uma terra.

Moeda de troca. O comércio negreiro era muito mais do que as novelas da Globo nos ensinaram, era uma forma de comércio vista como muito natural naquela época e ainda hoje em alguns países.

A História não é uma Ciência que já está fechada, em muitos lugares do planeta Terra, algumas práticas comerciais e culturais que já foram exterminadas e se encontram ultrapassadas em alguns países, em outros estão ainda funcionando em plena atividade com força e naturalidade , vide a escravidão na Líbia e a pedofilia no Iemen.

E essas práticas impactam no inconsciente coletivo mundial quer saibamos disso ou não. E o inconsciente coletivo impulsiona os seres a tomarem decisões.

Em termos de marketing, pode ser duro para os mais românticos, observar mas a adoção de crianças negras pelos artistas empreendedores, mesmo que eles não sejam motivados por isso, é uma nova forma de ROI, uma nova maneira de potencializar um negócio que tem como base a visibilidade.

Adotar uma criança negra no Brasil, e essa adoção vinda de um casal loiro, de olhos azuis e com veia empreendedora é sim grande negócio.

E por que grandes negócios não podem ser embasados por atitudes autênticas de amor incondicional?

Por que a palavra negócio precisa ser antagônica da palavra amor?

O amor é o grande negócio nesse e em tantos outros casos.

Fica a reflexão.