Papel & caneta não tem ctrl+z

Logo no início da pré-adolescência comecei a co-relacionar, de uma forma tanto quanto estranha, a vida real com a digital. Nas intermináveis equações matemáticas, não era difícil me deparar com um erro, e pensar “dá um ctrl+z aí pra apagar”. Ao não encontrar as chaves antes de sair, me vinha na mente “liga pra elas”. Ao não lembrar do nome de algum conhecido, surgia o rápido raciocínio de “dá um Google” na memória.

Com o tempo, essa sensação bizarra que me vinha à mente começou a fazer parte de uma rotina em que nada mais disso me surpreendia ou era engraçado. Passou, simplesmente, a ser normal. Cheguei ao planeta terra nos anos 90 e fiz parte da última geração de pessoas a nascerem num ambiente não digitalmente globalizado, talvez por isso nessa transição, fazer essa conexão com on e off fosse algo esquisito pra mim.

Por falar em esquisito, há poucos dias me peguei em um outro dilema interno: “por que eu, a mina do digital, gosto de criar planos no papel?”

Diante das reflexões, cheguei em uma possível resposta: porque papel e caneta não tem ctrl+z. Por mais que você faça um rabisco que outro por cima daquela frase mal escrita ou daquela possível ideia de jerico, no papel tudo fica armazenado — sem ter um bode expiatório do Facebook ou Google — pra você ler e reler quando quiser.

Mas, afinal, o que eu quero dizer com tudo isso? Que papel & caneta não tem ctrl+z parece óbvio, né não?! Pois bem, colocar meus planos, rabiscos e desenhos no papel é como criar uma analogia da minha vida. Entre um erro e outro, vou desenhando e criando minhas próprias grafias. Os estilos de escrita vão mudando ao longo do tempo, mas o traço permanece o mesmo de quando aprendi a escrever.

No on, é simples digitar, apagar, dar ctrl+z, recortar, salvar… No digital, apagar o erro é tão fácil que você até esquece que errou.

No papel, dá mais trabalho. Você perde tempo. Você gasta folhas. Você começa a tomar cuidado pra errar com menos frequência. Como consequência, você valoriza e aprende com seus erros. Deixo a reflexão: sua vida, você escreve ou digita?