Entrei num site de traição e foi isto que aconteceu…

Ashley Madison: O site destinado à traição online com promessa de sigilo desperta a curiosidade e a revolta.

Faço Jornalismo na Universidade Federal do Rio e tive como desafio em uma das disciplinas, assumir outra personalidade, entrar num site de relacionamentos e produzir uma reportagem e um diário de campo informal sobre a experiência. Aqui, compartilharei o diário que escrevi durante o processo para que vocês tenham a minha perspectiva do site.


Ashley Madison: um site de relacionamentos para aqueles que desejam trair. Não poderia ser pior. Ou melhor para se redigir uma reportagem… Mas o início foi de algumas dificuldades. Pra começar, sou cristã e a ideia de enganar outra pessoa não me parece muito legal. Na verdade, isso independe de religião e está mais associado ao caráter. Contudo, sei que é algo profissional e possuo o desejo de ouvir essas pessoas e ajudá-las de alguma forma. Seja torcendo que caiam na real ou aconselhando. A segunda: a foto! Pegar uma qualquer poderia me gerar um processo legal e talvez um episódio em Catfish. Mas também… quem me emprestaria a foto para um site de traição? Escolhi a primeira opção e estou torcendo para não ser processada.

Tal como nos primórdios do orkut, utilizei uma foto “fake” e nomeei o personagem de Fernando. Ao entrar no site preciso escolher o que estou procurando: Se sou homem ou mulher, comprometido ou solteiro e buscando pessoas do mesmo sexo ou diferente. Após isso, tive que responder a algumas perguntas básicas como meu tipo físico, e as opções contavam de “gostoso” a “gordinho sensual”, e meus limites: “caso rápido”, “longo prazo”, “caso virtual/chat erótico”, “qualquer coisa que me dê tesão”, “topo tudo” ou “não decidi”. Criei um email fictício para ele e escolhi a data de nascimento já pensando no signo, canceriano. Não sei se a linha “fofo e perdido” vai colar num site de traição, espero que sim, pois eu presumo que há muita gente carente ali que não quer só curtição, mas se sentir desejada e amada. Estava pronto meu personagem: um engenheiro ambiental que gosta de literatura e R&B.

ERROR 001 Esqueci completamente o email, login e senha. Respira. Refaz. Deixei de lado Fernando para criar Marcos Paulo. Na descrição, o completo oposto do anterior, mas não menos interessante: um esportista de 32 anos que curte praia, pagode e conversar. Já adianto na descrição que sou casado há três anos, mas pensando em separar. Seduzo (ou acho que seduzo) as mulheres autoconfiantes com um “Se você é interessante, é só chegar…”. Na saudação “Casado. Carente. Compreensivo. Ardente.”

ERROR 002 Como nada nesta vida é de graça, nem dar uns beijinhos virtuais, preciso pagar pra dar prosseguimento à pesquisa de campo. Porém, que renda esperar de uma universitária sem estágio? Sobrou pra professora. Mas no registro do cartão uma coisa boa, os primeiros trinta dias são gratuitos. O que significa que farei o possível pra terminar em 30 dias o meu trabalho ou eu mesma desembolsar o dinheiro. Na mesma página, algo me chama a atenção, o nome do site não vem na fatura do cartão. Sigilo é o lema da casa.

Próxima etapa: preencher meus desejos mais íntimos e obscuros… Do Marcos Paulo, que fique claro. A quantidade de informação me faz rir ao mesmo tempo em que me deixa chocada. Em “desejos e experiências que me interessam” há de cócegas eróticas até ser submisso(a)/escravo(a). Já na seção “O que me dá tesão”: um ninho de amor secreto e menina levada ; Por fim, “O que curto”, tem de motos a encontros ousados.

Pois bem, meu Marcos Paulo se interessa por: viagens, fazer o papel de paizão, música, assistir jogos, karaokê, beber socialmente, fazer cozinhar/churrasco, praticar esportes, academia e ginástica, atividades ao ar livre/natureza, nadar sem roupa e passear de carro.

O que dá tesão no Paulão é: confiança, senso de humor, imaginação, pessoas simples, tranquilas/relax, que sabem se comunicar, que não usam drogas, que não gostam de rotina, que são românticas, boas ouvintes e têm seios naturais.

Já os desejos mais profundos de Marcos e experiências que o interessam são: olhos vendados, massagem sensual, banheira com espuma para os dois, bom uso das mãos, longas preliminares, carinhos e abraços, sexo selvagem, querer aprender e querer ensinar.

Perfil completo, agora é hora de teclar…

Como diria Kelly Key, a noite chega e com ela a depressão… e também muitas mulheres disponíveis para conversar!Pelo menos é o que suponho. Ignoro as mensagens a cobrar de conversas que me fariam perder créditos, e pesquiso algumas mulheres pra conversar. Dentre alguns nomes engraçados, estão “eucarente2013”, “pepecamolhadinha”, “Culta-Tarada” que já avisa logo na descrição “Só me chama se for atraente!”, “negonasexy” entre outros. Recebo duas mensagens, mas quando abro: uma solicitação a cobrar e uma “piscadinha” que, pelo que entendi, significa acesso a galeria dos nudes do usuário. Mas é justamente desse tipo de mulher que quero fugir! Não só pra poupar minha visão, mas porque estou em busca de mulheres mais carentes que safadas pra iniciar uma conversa sobre suas vidas.

Que absurdo! Descubro que o tempo de conversa é contado no chat. Trinta minutos custam 30 créditos e sessenta minutos 50 créditos. Enviar mensagem custa 5 créditos e o meu total é de 200. No final das contas, gastei mais crédito enviando solicitação de conversa que mantendo uma, e das poucas mensagens que recebi o interesse era puramente sexual. Como algumas mulheres insistindo em pedir acesso à minha galeria de fotos privativas, que totalizava zero.

Depois de um tempo eu cheguei à conclusão de que não conseguiria manter uma conversa por ali. O site extorque seus usuários. A pessoa tem de estar muito disposta a trair especificamente nesse site pra gastar tanto dinheiro cobrado. Mas Whats App eu não poderia dar, pois não tinha nenhum chip que pudesse usar o número e depois descartá-lo. Então inventei um facebook para o Marcos Paulo.

Coloquei a bandeira do Flamengo como foto de capa, curti páginas de esporte, de jornais, de humor e de algumas personalidades do samba e do futebol. Nas mensagens do Ashley Madison sugeri que conversassem comigo pelo Facebook ou por email. O único feedback que tive foi de Maria — nome fictício para preservar a pessoa — através da rede social. Nesse momento, agradeci por não ter conseguido manter uma conversa com mais de uma pessoa. Fazendo um breve stalk na página de Maria, fiquei indignada ao ver que sua foto de perfil era com o marido e a foto de capa também com o mesmo e seu filho, sob a legenda que dizia “Família, projeto de Deus”.

Nossa conversa, porém, foi brevíssima. No momento eu estava ocupada e não pude dar a devida atenção e ela a mesma coisa, já que havia me informado que estava fazendo janta. “Provavelmente pro esposo e filho”, imaginei. O balde de água fria “essa conversa, com certeza, não irá para frente” foi quando ela me perguntou porquê eu não tinha fotos no Facebook. Não respondi, pois achei que seria em vão, e fui bloqueado.

Perfil de uma das usuárias do site.

Infelizmente, minha ideia inicial de manter longas conversas com mulheres casadas para descobrir o porquê usam o Ashley Madison foi dificultada pela burocracia de extorsão do site. Ainda tentei entrar em contato com membros do grupo “Ashley Madison Brasil” no Facebook, porém não tive um bom retorno. Dos poucos que me responderam, não entraram em detalhes ou me disseram que não continuaram a usar o site justamente por ele dificultar a comunicação, cobrando muitos créditos para tudo. Ao menos, pude observar em algumas descrições de perfil as respostas que eu teria recebido caso minha ideia inicial se realizasse. Já que não pude convencer, torço para que cada uma delas resolvam suas questões pessoais e escolham um caminho diferente da traição para suas vidas.


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