Os “e se” que o tempo desconsidera

História inspirada na música “If I Knew”, de Bruno Mars. Sugiro ler escutando essa música no modo “repeat”.


imagem do filme “Querido John”

Estados Unidos, década de 40.

O tempo parou quando ela entrou. A banda tocava folk e todos dançavam com êxtase, mas no exato momento em que ela botou os pés para dentro do grande portão de madeira, o grupo de Mark Winston diminuiu o ritmo e começou a tocar “If I Knew”.

A pequena cidade de Madison, do estado de Mississipi, havia proibido a venda de álcool nas redondezas fazia um mês. Alguns diziam que a decisão foi para tirar de circulação uma marca de cervejas do Texas de circulação para, então, ser vendida de uma cervejaria que estaria em construção na Rua Magnolia. E, claro, o prefeito estaria favorecendo a mais nova empresa de seu futuro genro, que não tenho dúvidas que também o agradaria com o faturamento da obra. Se não for isso, é uma baita coincidência as obras terem começado com o consentimento do prefeito logo após a restrição.

O discurso proibitivo era sobre o caráter perversivo que a bebida ocasionava. Mas a moral e os bons costumes nunca foram bem a cara dos cidadãos de Mississipi. Eles são os mesmos que num sábado podem beber até a última gota do barril e, no domingo seguinte, aparecerem engravatados e de cara lavada na igreja.

Então, naquele 04 de julho, dia da independência americana, não foi difícil arranjar amigos de Jackson, cidade vizinha, com alguns engradados de álcool para levar ao celeiro de Rob, onde acontecia a festa com metade da já pequena população de Madison.

Meu coração acelerou em meu peito quando a vi. Ela vestia amarelo, combinando com seu cabelo dourado, o qual eu gostava de afundar os dedos. Seu sorriso deixava à mostra suas covinhas, que eu tanto beijava de supetão quando ela sorria para mim. Seus grandes olhos negros percorriam, curiosos, o local. Tal como costumavam percorrer cada espaço do meu corpo. Até que eles pousaram sobre mim… e seu sorriso, se desfez.

Minhas mãos suaram frio. Desviei o olhar e dei um gole na minha bebida. Quando tornei a obervá-la, ela ainda estava ali parada, com os olhos fixados em mim como se estivesse vendo um fantasma.

Pensei em me levantar para ir ao seu encontro, mas não precisou muito para eu desistir da ideia. Logo atrás de Cécile, estava Thomaz. Ele pôs as mãos sobre a sua cintura e, afastando seu cabelo, lhe beijou o pescoço.

Continuamos a nos encarar. Eu, com decepção. Ela, talvez com o mesmo sentimento. Mas definitivamente, surpresa. Eu não havia avisado ninguém que tinha voltado para a cidade. Não havia por quê. Não era como se alguém estivesse esperando por mim. Cécile, pelo menos, não.

Mas eu não poderia culpá-la. Por mais difícil que seja vê-la nos braços de um outro alguém, ela seguiu em frente. Da mesma forma que eu fiz quando, sem me avisar, fui convocado para o exército dos Estados Unidos e parti.

Me sinto culpado. A única mulher que eu quis amar, era a mulher amada por outro homem. Mas três anos antes, eu achava que a minha maior culpa seria não oferecer à Cécile a vida que ela merecia. E mesmo eu nunca tendo conversado sobre isso com seus pais, ele pareciam concordar comigo.

Nunca fui muito ajustado na vida. E talvez fosse isso que tenha chamado a atenção de Cécile em mim. Além da euforia em viver um amor inconsequente, como nos livros que ela lia e sonhava.

Fiz coisas das quais me arrependo, que me desqualificavam para estar ao seu lado. Então eu achei que poderia ser útil lutando pelo meu país, ainda que eu não acreditasse muito nele. Mas se eu pudesse… Eu desejaria que nós dois tivéssemos 17 anos de novo, para eu dar a Cécile toda a inocência que ela me dava. Eu não teria feito as coisas que fiz se soubesse que um dia ela viria.

Não vou mentir, eu fui aquela festa na esperança de encontrá-la. Quem sabe se nós deixássemos o passado para trás, o amor não nos encontraria novamente?

A encontrando ali depois de tanto tempo, o amor também nos encontrou. Sei porque sinto. Sei porque a vi chorar enquanto dançava com seu par, com a cabeça repousada nos ombros dele e os braços entrelaçados no seu pescoço.

As noites em que fugíamos para nos encontrar só para conversar sobre o nosso dia, o abraço de despedida de quem não queria se despedir quando saíamos juntos, os beijos inesperados, os beijos por muito tempo desejados… Todas as lembranças vieram em peso.

Mas o que quer que sentíssemos não importava mais. Nosso tempo havia passado e cicatrizes ficaram. Vê-la acompanhada foi o suficiente para que eu voltasse à realidade e abandonasse qualquer expectativa cultivada nos dias anteriores à minha vinda. Então peguei minha garrafa, atravessei a multidão e, mais uma vez, saí sem me despedir.

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