A Reinvenção da Vida: documentário "Elena" é uma busca por auto identidade através da perda

Entre sonhos, dor, poesia e delicadas memórias que garantem a experiência de um profundo mergulho de sensibilidade, a cineasta Petra Costa constrói uma obra que supera as fronteiras de tudo o que já foi produzido pelo cinema brasileiro. Elena é um desses documentários que te fazem refletir por horas e horas a fio, que temos vontade de recomendar para todos que conhecemos. O longa foi exibido em diversos festivais nacionais e internacionais, recebendo diversos prêmios como o de melhor filme no Arlington International Film Festival (AIFF) nos Estados Unidos, melhor documentário no Los Angeles Brazilian Film Festival e no Films de Femmes 2013.

Toda forma de expressão artística tenta revelar uma maneira única de se entender o mundo. Porém, existem obras que atingem tal grau de profundidade emocional que conseguem adquirir um caráter universal. Elena é um grande exemplo de uma obra prima que atravessará gerações, pois nada é mais humano do que a tentativa de atribuir sentido à vida e consequentemente, à morte.

Em 82 minutos de grande força poética, três mulheres se apresentam como protagonistas de uma história que vai muito além dos meros laços sanguíneos, em uma verdadeira conexão de almas. Lian (mãe), Petra e Elena (irmã) parecem ter em comum um desejo que atravessou gerações da família: a vontade de ser atriz. Essa informação não é encarada de forma desproposital, pelo contrário, acaba por tecer um elo de ligação entre as personagens. Além disso, em muitas passagens Petra parece assumir um papel duplo como atriz: dela mesma e de Elena.

Na trama, somos guiados pelas impressões e vozes de Petra e Lian, em uma espécie de câmera olho que conta a trajetória de Elena Andrade, uma moça brasileira de 20 anos que viaja para Nova York e tem como maior sonho ser uma atriz de cinema. Além dos vídeos caseiros, temos contato com o diário de Elena e depoimentos emocionantes de familiares e amigos da jovem, que servem não apenas para a composição do roteiro, mas para a construção de um enredo não cronológico, que mistura realidade com cenas que se assemelham a flashes de memórias.

As passagens submersas que retratam diversas Ofélias, em alusão a personagem da peça Hamlet, de Shakespeare, que ao sofrer de uma desilusão amorosa acaba cometendo suicídio, funcionam como belíssimas metáforas sobre o que é ser mulher na sociedade contemporânea, como muito bem exposto pela escritora Eliane Brum: “São muitas as Ofélias que andam por aí. Meninas que submergem no rio de desejos e sensações, nesse feminino perturbador, sem jamais voltar a superfície”.

Os borrões de luzes e cores também criam uma atmosfera de poesia cinematográfica. Petra Costa traduz os movimentos das cenas de forma pouco revelada, seguindo um ritmo que se assemelha ao da correnteza das águas. O documentário não se limita a uma homenagem à memória da irmã mais velha, mas traz à tona um tema ainda considerado tabu na nossa sociedade: o suicídio. A força e coragem da diretora em transportar para tela o relato da morte de sua irmã parecem se bem justificar por uma passagem de Clarice Lispector: “Eis o rosto agora nu, maduro, sensível quando já não era mais para ser. E ele chora em silêncio para não morrer. A menos que renasça até que dele se possa dizer ‘esta é uma pessoa’”.

Elena é a forma como Petra pode reconstruir seu passado e assumir as rédeas de seu futuro. A cineasta realiza uma documentação poética partindo da interrogação: o que há de Elena em mim, que não me permite esquecê-la? Ela é a confirmação artística de Petra e sua mais pessoal recordação. Elena é uma história real e como as batidas de um coração que pulsa, é destinada aos bravos e sensíveis que estejam dispostos a escutá-la.

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