Contrariando Cartola, as rosas não só falam, como cantam

Grupo de samba formado só por mulheres agita a cena musical carioca

As sete integrantes do Grupo Moça Prosa | Reprodução/Internet

A roda se forma lá pela tardinha. A mesa é colocada ao lado da calçada e os primeiros fregueses começam a chegar. Com o cavaquinho já afinado e o pandeiro apostos, as primeiras notas enchem o ar com aquela alegria tipicamente brasileira. A cerveja gelada não pode faltar e os pés parecem ganhar vida própria quando são enfeitiçados pelas primeiras palavras de grandes mestres como Paulinho da Viola e Cartola. Não seria surpresa se ao imaginar essa cena você visse os homens tocando os instrumentos e as mulheres sambando em volta. O grupo Moça Prosa, porém, está aí para provar o contrário, mostrando que o talento feminino é protagonista quando o assunto é samba de raiz.

Vivemos em uma sociedade na qual a mulher é posta de lado em todo meio em que se encontra, tendo suas palavras muitas vezes silenciadas. São poucas as sambistas que têm seu nome reconhecido, mas se engana quem acredita que é porque não existem muitas delas. Dona Ivone Lara, Clara Nunes, Mart’nália e Beth Carvalho, assim como tantas outras, sempre estarão aí para não somente lembrar, como também, provar o quanto a cultura do samba deve as suas talentosas artistas.

Desde abril de 2012, as sete mulheres do Moça Prosa, Ana Beatriz, Karina, Fabíola, Jaque, Priscila, Luana e Tainá, cantam e encantam as noites de domingo na Pedra do Sal. Frequentadoras das rodas de samba que aconteciam naquele local, as meninas contam que um dos músicos que ali se apresentava, Vagner Silveira, resolveu começar a dar oficinas musicais para mulheres. “Ficamos cerca de um ano aqui ensaiando e aprendendo a tocar, até que decidimos fazer a primeira roda e daí em diante não paramos mais”, relembra Fabíola. Vagner Silveira, o Vaguinho, não apenas ensinou as moças a tocar como também foi quem deu a sugestão do nome do grupo. Na opinião de Fabíola, ele quis ressaltar a imagem da formosura feminina enquanto toca e o grande diferencial que é a presença da mulher no samba.

Historicamente, a roda de samba é um espaço majoritariamente dominado por homens, e o Moça Prosa afirma já ter sido vítima de muito preconceito, mas que por conta disso o grupo está muito mais forte e resistente atualmente. “É uma luta diária em toda a roda que a gente faz. Hoje, homens comparecem à nossa roda e admiram o nosso trabalho, mas tem ainda aquela resistência por parte de alguns e tudo mais. Fazemos questão de virmos muito bonitas mesmo, de passar aquele batom vermelho e tocar com muito mais garra”, confessa Karina, rindo. Fabíola complementa a fala da amiga: “É como se eles quisessem encontrar o nosso erro. Às vezes você ouve um cara desafinado ao cantar e ninguém fala, mas se é mulher, logo eles reparam se ela canta mal ou está mal vestida. Ou seja, além de tocar muito você tem que estar sempre muito bem. Todo dia é uma luta”, comenta.

O Moça Prosa representa muito a força feminina e passou a ser mais do que um grupo de samba, tornando-se também referência para diversas mulheres. “Nós tocamos por prazer. Todo mundo aqui tem uma profissão. É um trabalho, um compromisso, mas é um lazer para nós também. A nossa roda é alegre, brincamos a todo o momento. Eu acho que é um grande diferencial que acabamos passando para o nosso público”, qualifica Karina.

Quanto à dinâmica dos shows, as meninas ainda estão procurando por patrocínio, pois até agora todas as atividades ficam por conta do grupo e também da Rede Carioca de Rodas de Samba, organização composta por sambistas e produtores culturais do Rio de Janeiro, que tem por objetivo favorecer as rodas de samba de sustentabilidade econômica e garantir melhores condições de realização dos eventos para os artistas e para o público. “De outubro até dezembro de 2016 tivemos o auxílio da Rede Carioca que hoje nós fazemos parte. Eles ganharam um valor específico para movimentação do samba na cidade e, como nós fazemos parte do coletivo, também fomos agraciadas. Mas estamos há cinco anos fazendo na cara e na coragem, dando certo ou dando errado”, declara Fabíola.

O repertório do grupo é formado em grande parte por compositoras como Jovelina, Clara Nunes e Clementina de Jesus. As meninas acreditam possuir grande responsabilidade na composição musical, tendo sempre o cuidado de montar o repertório das apresentações a partir de músicas que exaltem o feminino. Além disso, elas não cantam nenhuma música que faça referências à cultura machista ou que desvalorize a imagem da mulher, tratando-a como objeto.

Com o potencial de servir como exemplo para outras musicistas, o sucesso do grupo Moça Prosa é capaz de incentivar muitas mulheres a seguirem seus sonhos, não somente no mundo na música, mas também em suas vidas pessoais. Isso sim é empoderamento feminino!

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