Orgulhe-se das suas cores

A importância da representatividade LGBT no ambiente universitário

O colorido não vai desbotar!

As multidões queer ou “anormais” representam as minorias sexuais (homo, trans e bi) que se convergem em grandes aglomerações de massa. Como muito bem exposto por Paul Preciado, filósofo espanhol feminista, autor do artigo “Multidões Queer — Notas para uma política dos ‘anormais’”: muito mais do que apenas um lugar de luta e resistência, a sexopolítica é sobretudo um espaço de “desterritorialização” da heterossexualidade. Segundo ele, esse império sexual é uma tentativa do próprio sistema capitalista de controlar e intervir nos órgãos sexuais e reprodutores, definindo suas funções “práticas” e segregando todo e qualquer corpo que fuja a tal padronização.

A UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) é uma das instituições mais antigas e respeitadas do país, reconhecida como espaço de excelência no ensino e no campo de pesquisas científicas. Seu legado acadêmico conta com ilustres representantes da intelectualidade brasileira, como Sérgio Buarque de Holanda, Oscar Niemeyer, Olavo Bilac, Vinicius de Moraes, Ana Maria Machado, entre outros. Portanto, é compreensível que o ingresso nesta instituição seja o sonho de muitos jovens, afinal a universidade, muito mais do que um espaço de construção do saber, é também local de transformação social e reivindicações, muito bem representadas por seus famosos ex-alunos.

No período mais obscuro da Ditadura Militar, muitos alunos e professores resistiram bravamente à repressão dos generais, pagando com a própria vida o preço de não se adequarem aos padrões impostos pelo regime. Hoje, no atual período democrático, percebemos a atuação de muitos grupos minoritários, como negros, mulheres, LGBTs e indígenas, que tem conquistado cada vez mais espaço, dada a sua representatividade. Entretanto, será que tal conquista realmente inclui todas as minorias nos diversos ambientes ditos como verdadeiramente democráticos?

É a minha vez de falar!

O depoimento de P.R, 20 anos, estudante da Faculdade Nacional de Direito, nos faz perceber que a realidade ainda está longe do ideal. Segundo ele, ainda há muito preconceito disfarçado pelos estudantes. Embora informe que exista um movimento pró LGBT, este ainda se encontra “às ocultas”. O curso de Administração também é outro que não possui grupos de debates que representem e discutam a favor dos direitos e reinvindicações da mesma comunidade, como relatado por outro entrevistado. Já na faculdade de Letras dificilmente há casos de preconceito sexual, pois há uma representatividade visível e participativa dos alunos. De acordo com F.D, 19 anos, estudante de Literatura, o perfil dos discentes é de respeito a liberdade individual e às diferenças. Ainda segundo ele, que diz sentir-se representado na faculdade de Letras, a homofobia deve ser combatida “através do diálogo, porque só assim dá para desconstruir o preconceito”.

Cena do longa metragem brasileiro “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”. A trama se desenvolve a partir da paixão entre dois meninos.

Yuri Costa, 20 anos, estudante de Comunicação Social, disse que o campus da Praia Vermelha sempre foi um lugar seguro para ele. “Isso sempre foi algo muito mais psicológico do que concreto, porque ao me assumir, no início de 2015, eu não me sentia seguro em nenhum lugar. Demorei até me sentir seguro na PV, para falar a verdade. Não conheço bem outros campi, mas vejo muitos LGBTs na PV com uma liberdade que eu, morador da Baixada Fluminense, região que mais mata LGBTs no Rio de Janeiro, não conhecia até então. Entretanto, falta uma unidade de luta e resistência para nós. Já houve vários casos de agressões verbais ou constrangimentos em todos os cursos do campus, e há muito tempo temos um projeto de um coletivo da PV que não se concretiza. É uma necessidade urgente. Jamais enfrentei nenhum tipo de opressão por parte dos funcionários ou dos professores. Agora, por parte dos estudantes posso enumerar vários casos, desde “brincadeirinhas inofensivas” até agressões verbais. Para qualquer um que queira ter uma prova concreta, basta dar uma olhada no banheiro masculino do palácio: há várias ofensas LGBTfóbicas, sexistas e machistas pichadas na porta. Não vejo nem nunca vi problema em dar pinta no campus. Como disse, é meu lugar seguro. É um dos poucos lugares em que sinto segurança de me expressar livremente”.

Rafael de Oliveira da Silva, 25 anos, estudante de Ciências Biológicas,acredita que a representatividade é boa na UFRJ como um todo. Nunca foi vítima de homofobia por parte de nenhum funcionário ou estudante. Atua como militante em seu diretório acadêmico e suas ações de luta são no geral voltadas para uma conscientização baseada na conversa com outros graduandos e no auxílio da confecção do mural sobre Gênero e Sexualidade.

Também aluna de Biologia, Júlia Pagani Margarido, 23 anos, defende que alunos LGBTs deveriam ter uma forma menos burocrática de acesso à bolsa auxílio e alojamento caso fossem expulsos de casa por motivos de intolerância sexual. A falta de visibilidade de tal questão na reitoria universitária e a demora quanto à resolução de alguma denúncia é sempre em consequência de processos ditos burocráticos, contribuindo assim para a não punição destes violamentos. A estudante ainda revelou que nunca foi vítima de preconceito dentro do campus, mas conhece casos de homofobia em festas abertas, como a Caninha e a Choppada da FND (Faculdade Nacional de Direito). “Lidar com a homofobia é uma coisa mais pessoal, cada um lida de uma maneira diferente. Eu acho que quando acontece o caso tem que ser denunciado e exposto mesmo. Tem muita gente que acha que homofobia não existe dentro dos muros da universidade, então temos que mostrar que é uma realidade concreta e combatermos esse tipo de intolerância”.

Júlia afirma sentir-se representada em seu curso e defende a não marginalização de LGBTs. “Não sou a favor de nos escondermos em becos, mas é perceptível que os climas das festas são diferentes e que muitas vezes os LGBTs ficam mais desconfortáveis, talvez com medo de sofrerem algum tipo de discriminação. No meu curso tem dois grupos pró LGBT: um geral e outro somente para as mulheres. O motivo para a criação do segundo grupo foi porque percebemos que o primeiro era dominado por homens, e isso começou a ficar um pouco complicado. Nós ainda temos um mural de Gênero e Sexualidade, que é aberto para quem quiser colocar notícias e informações sobre o assunto. Esse quadro fica à mostra no corredor para qualquer um que passar puder ver”.

E na esfera pública, alguma solução?

A homofobia ainda é um percalço a ser superado em diversos ambientes, principalmente dentro da universidade, como relatado por muitos dos entrevistados. Infelizmente, o projeto de criminalização da homofobia (PLC 122/06) ainda não conseguiu seu respaldo em função da má vontade institucional dos parlamentares brasileiros, havendo um déficit significativo de atuação do poder legislativo.

O projeto de criminalização foi exposto num panorama de um “divisor de águas” por parte das autoridades pertinentes. Reconhecendo os prós da proposta estavam o professor adjunto de Direito Penal e Criminologia da Faculdade Nacional de Direito, Salo de Carvalho, com a exposição de seu artigo: “Sobre as Possibilidades da Criminologia Queer”; o deputado pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Jean Wyllys, com o Projeto de Antidiscriminação Homofóbica e o juiz e professor do Mestrado em Direitos Humanos da UniRitter (Porto Alegre), Roger Raupp Rios, caracterizando os opositores da PLC 122/06 de “simplistas e homofóbicos”. As opiniões contrárias tripartiam-se entre o deputado do Partido Progressista, Jair Bolsonaro, com suas definições de “Ditadura Gayzista” e “Mordaça Gay”; a ex-juíza auditora da Justiça Militar Federal, Maria Lúcia Karam, com seu artigo sobre: “A Esquerda Punitiva” e a professora da Faculdade de Sergipe no curso de graduação em Direito, Aline Passos de Jesus Santana, com seu artigo intitulado: “Criminalização das opressões: a que estamos sendo levados a servir?”

Os benefícios e riscos da judicialização destituem a neutralidade dissimulada por grande parte dos membros da Câmara Federal, que insistem na não aceitação de direitos básicos, como a união estável em casamento, direito à adoção, declaração de imposto de renda conjunta, dentre outros, por casais homoafetivos. A questão pautada não é, como muitos defendem, o privilégio de homossexuais em função do restante da sociedade, mas a garantia — constituída pela própria Legislação Brasileira — dos direitos básicos civis de todo e qualquer cidadão. Há ainda a extrema necessidade de que uma grande parcela da população reflita sobre suas concepções ideológicas e perceba que TODOS têm os mesmos direitos, independentemente de crença, etnia ou orientação sexual. A LUTA CONTINUA!

- As letras iniciais em lugar dos nomes de alguns dos entrevistados foram em consequência de pedidos de solicitação de anonimato.

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