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Começamos bem. Acreditei, fielmente, que você poderia ser um amor. Pensei que a Paixão finalmente havia me deixado, que ela seguiu o caminho dela. Foi um engano, novamente, como tola que sempre fui, cai em suas amarras.

Te conheci de forma incomum, não mais tão incomum; mas para mim, sim. Foi em um aplicativo de encontros “casuais”, já deveria saber, ia dar merda. E deu. A primeira vez que te vi, já estava alterada pela cerveja barata do bar ao lado de casa. Naturalmente, para passar o nervosismo, bebi uma garrafa. Você ligou, e como um caminho já certo, corri pra te encontrar. Te abracei como se já te conhecesse há anos. Você sugeriu bebermos no bar do outro lado da praça, e eu pedi pra irmos no bar do seu Jura. Você aceitou, porque ali começaria o seu fetiche por uma garota que vivia uma realidade diferente da sua. Eu fui, chegando no bar, logo de cara te disse: agora só falta você ser ruim de cama. Disse isso de maneira tão inocente, pois acreditava que você era o amor da minha vida. Sentamos no balcão, você ainda pensando que estávamos num encontro casual, como desses que leva a garota pra tomar um café no Fran’s. Pedi para sentarmos no balcão, meu lugar favorito de um bar. Coloquei minhas mãos na sua cocha, você disse que iria aproveitar a oportunidade para me beijar. E beijou. Agora analiso a situação, que forma mais mecânica de se beijar uma garota, não é? Depois de bebermos, e tirarmos a foto, que segundo você, recordaria eternamente esse nosso primeiro encontro, seguimos para minha casa. Lá bebemos muito vivo, e fumamos muita maconha. Naquele momento decidi te contar sobre minha vida; você de olhos bem atentos, ouvi tudo com muito interesse. Deitamos e dormimos. Confesso que achei estranho não termos transado, porém continuei achando que você era o amor da minha vida, e seguimos. Não tinha te dito, mas no banheiro do bar, meu celular caiu na privada, e no dia seguinte ele não ligava. Inventei uma história qualquer, e sugeri de irmos no mercado municipal comprar um adaptador de chip, para poder colocar em outro celular, você aceitou. Lá decidimos comer um pastel, e tomar uma coca-cola ks. Naquele momento, percebi que tudo estava mais que perfeito, ainda sim achava que algum defeito deveria existir. Deveria ter seguido a minha intuição. Você foi embora, mais cedo ou mais tarde, para sempre. Insistimos em continuarmos nos vendo, mesmo sabendo que você mudaria em breve para outro Estado.

Na semana seguinte combinamos de ir em uma balada gay. Te esperei, como sempre, no portão de casa; encostada nele, fiquei te observando atravessar a rua, em suas mãos, novamente, estavam duas sacolas com os vinhos orgânicos que tanto amei. Entramos, abrimos a garrafa, sentei no seu colo, e finalmente você apertou minha bunda. Ali percebi que você poderia não ser gay. Claro que não preciso registrar aqui que não tenho nada contra, mas acredito que tenho que dizer, para não causar más impressões. Bebemos e fomos para a casa noturna, minha amigas foram juntas, você precisou fazer com que elas gostassem de você, e como sempre, você foi a pessoa mais amável e atenciosa que já conheci. Dançamos e nos beijamos a noite inteira, você com seu cigarro, patético, eletrônico, e eu com meu sorriso nos lábios. Estava quente, mas não ligamos, continuamos dançando. Passamos uma música inteira sem desgrudar parar de nos beijar, quem via, e com razão, achava aquilo piedoso. Acabou a festa, finalmente transarianos. Foi perfeito, tirando a parte do sexo oral, porque obviamente o seu egoismo já seria transpassado ali; mas claro que eu acreditei que isso poderia mudar, afinal, todo o resto era perfeito.

No próximo encontro eu te alertaria que meu filho estaria em casa. Fui clara e objetiva. Disse que se você conhecesse ele, era porque estávamos caminhando para algo mais sério, e que se não fosse isso, tudo bem, eu entenderia e marcaríamos outro dia. Você disse que relacionamentos eram complicados, e aceitou de ir em casa quando ele estivesse lá. Não satisfeito, planejou passarmos o carnaval inteiro na casa dos seus pais, com ele. Bom, nesse momento percebi que eu poderia ter uma vida, que eu julgava ser perfeita. O pesadelo já havia começado e eu nem me dava conta.

Tiro daqui o episodio que passamos com meu filho juntos. Apenas digo que me senti completa, um doce sonho.

Passado o carnaval, você mudou para sua nova cidade. Eu já não aguentando de saudade, comprei uma passagem pra ir te ver. Perdi o voo, insistente como sou, comprei outra passagem. Foi estranho, foi completamente estranho. Mal tinha dormido, passei aquele final de semana com você meio fora de mim. Chegando no aeroporto, você me recebeu com um belo sorriso no rosto, me abraçou, e me contou sobre a enorme euforia de estar novamente ao meu lado. Foi tudo lindo como sempre, meu caro. Você me levou para seu apartamento improvisado. Disse que havia limpado ele; trocado os lençóis da cama; comprado café; cerveja; comidas tipicas; enfim, tudo para me agradar. Mas para que afinal? Quando entrei, achei que você me agarraria loucamente, e mataríamos nossa vontade de estar juntos, mas não, você quis me levar para conhecer os parques da cidade. Eu fui, sentamos na grama, com um lençol recém comprado, bebemos uma cerveja, e conversamos horas sobre os mais variados filósofos. Depois, decidimos ir para algum bar, estava um dia lindo, um sol quente, contudo ventava bastante. Perfeito. Cansados, voltamos para seu apartamento, deitamos e dormimos. Acabamos transando mais tarde, como sempre, achava estranho o fato do seu egoismo ser tão evidente, mas não tocávamos no assunto. Ficamos horas deitados ali na cama. Conversando sobre tudo. Eu sabia, eu tinha tanta certeza, que você e eu eramos perfeitos um para o outro. Você gostava do meu drama, você achava lindo. No dia seguinte, logo que amanheceu, saímos para conhecer mais alguns lugares da sua nova cidade. Você me apresentava ela todo orgulhoso, como se estivesse fazendo propaganda, e a todo momento pedindo minha aprovação. Eu fui caindo, fluindo, derramando meus sonhos pelas ruas por onde passávamos. De noite, antes da minha partida, resolvemos ir em um bar. Pedi duas tequilas, rimos, discutimos, perguntei o que tínhamos, você começou a ficar arredio; disse não ter certeza, que não sabia o que queria. Comecei a ficar furiosa. Sentados no balcão do bar, você virou minha banqueta, me olhou, e disse que me amava. Vomitei essas palavras para você também, há tanto tempo desejava te falar isso. Mas não, isso não queria dizer nada. Decidimos ir embora, no carro, discutimos, você ficou furioso dessa vez. E muito preocupado com a sua reputação, me disse que assim que eu chegasse em casa, e contasse toda a história para minhas amigas, você seria então o filha da puta da história. Tola, pratiquei empatia com você, e disse que não, que você jamais sairia como o filho da puta da história. Mas era tão obvio que você era, o que eu estava tentando fazer?

Quando cheguei em casa, após arrastar, e me arrastar pelo aeroporto, escutando todas aquelas músicas da minha playlist, percebi que tudo tinha acabado. Claro, antes de tudo acabar eu precisava me declarar, e fiz. Escrevi, exorcizei tudo que sentia por você, e egoísta como você é, alimentou um pouco mais os meus sentimentos. Sempre em dúvida, me dizia que a música ainda não tinha acabado e que ainda estávamos dançando. Segue o poema:

Dança celestial até a morte

Não raro,
 mas incomum
 Como vermelhos estágios finais,
 estamos dançando serenamente
 a dança da morte
 A temperatura aumenta
 transbordamos e
 colorimos o céu.
 Singularmente, ofuscamos a beleza dos demais
 Os estágios finais da dança se aproximam
 minhas mãos estão tremendo
 a respiração está impaciente
 Respiro fundo.
 Logo compreendo
 que como duas estrelas massivas,
 iremos numa explosão estrondosa nos fundir.
 Mais brilhantes do que Vênus
 Não somos visíveis a olho nu
 Somos um grande mistério
 Como uma supernova Ia
 somos guias
 Iluminamos as outras galáxias,
 Pois, dependemos acima de tudo,
 da distância.

Decidida a te esquecer, passei a me forçar em não lembrar de você, depois mudei de tática; pensava, mas não me permitia lembrar dos momentos que passamos juntos. Fiquei assim durante semanas, trabalhando duro. Consegui. Voltei a encontrar meu antigo amor, foi difícil; sobrevivi. Mas ainda precisava te dizer, precisava falar que você foi sim um filho da puta de um egoísta.

Antes de você sumir, depois da minha volta, eu tinha comprado outra passagem, que por coincidência seria justamente no dia do seu aniversário. Você disse que não sabia se seus pais iriam até sua cidade, ou se você iria visita-los, e que me avisaria. Não avisou, não deu uma satisfação sequer. Passei então a querer jogar um pouco com você, me permiti ser egoísta. Te disse que estava a caminho, mandei uma mensagem falando que estaria dentro de algumas horas na sua cidade. Você demorou pra responder, mas respondeu. Disse que depois da nossa última conversa, achou que eu não iria mais, me pediu por favor para não odiá-lo, pois sabia o quão intenso e lindo foi tudo que a gente viveu. Quase mandei você se fuder. Disse outras coisas, entre elas, que você tinha seus inúmeros privilégios, e que nunca abriria mão deles, e era os que eu tanto criticava. Disse que sim, que você foi egoísta, e que por isso não te desejava nada. E não desejo. Você ficou bem puto com minha resposta, eu adorei, porque finalmente você sentiu um pouco do que eu senti.

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