verão de 2010
Era verão de 2010. O calor era intenso e o sol parecia uma grande gema mole no céu. Você bateu em minha porta, sacolas em uma mão e cigarro na outra. Sua visita não era esperada, mas você era assim, sempre inesperado. Surpreso, abri o portão e o recebi, sorriso no rosto — quer ajuda com as sacolas? disse que não era preciso. Porque fazia muito calor, te ofereci uma água, um suco, talvez — também disse não. Então, foi entrando, tirando os sapatos, apagando o que restava do cigarro e soltando as sacolas no chão. Também inesperado foi o beijo que me deu em seguida: o gosto amargo do cigarro da sua boca se misturou com a de café da minha. Entre um beijo e outro, te dava abraços apertados, não queria te soltar. Assim ficamos alguns longos minutos. Você me soltou e perguntou se tinha algo mais forte que suco. Caminhei até a cozinha e lhe trouxe uma garrafa de whisky que ficara lá desde o nosso último encontro, meses atrás. Pegou um copo e se serviu. Perguntou se eu queria, disse que sim. Copos cheios, um brinde, a nós; aquele encontro. Pediu que eu colocasse algo para tocar e diferente da última vez, não pediu Ângela, queria Nara. Feito. Ficamos em silêncio algum tempo, apreciando, distantes, a melancolia que a voz de Nara tinha. Acendeu outro cigarro e procurou pelo cinzeiro, que estava no mesmo lugar que já era seu conhecido. Me olhou rapidamente, percebendo que tudo permanecia igual. Deu um trago forte no cigarro e pediu mais whisky. Prontamente enchi mais uma vez seu copo e involuntariamente, enchi o meu também. Depois, busquei sua boca, nosso gosto dessa vez era o mesmo: whisky barato; saudade acumulada.
Decidi fumar um cigarro também, pedi que me ascendesse um, o que prontamente foi feito. Enquanto fumava com certo ar de distraído, que só quem fuma tem, fiquei pensando até que horas você ficaria. O disco da Nara acabou, então, foi a minha vez de escolher. Coloquei pra tocar o disco “Amoroso” do João Gilberto. Porque fazia calor, você disse que ficaria só de cueca. Era o calor, mas também era o álcool. Meio tonto, você tirando as suas roupas, uma por uma. Seu corpo magro, pálido, com poucos pelos. Perguntou se eu não queria tirar as minhas também. Disse que não. Ainda não. Ascendeu outro cigarro, deitou no sofá e ficou olhando para o teto durante muito tempo. Mais uma vez o silêncio, que foi cortado pela calma voz de João, que cantava triste é viver na solidão, na dor cruel de uma paixão, triste é saber que ninguém pode viver de ilusão. Me chamou — deita comigo? Ali mesmo no chão da sala nos deitamos. Minha cabeça sobre seu peito magro e pálido, com alguns fios de cabelo. Suas mãos logo procuraram meus cabelos e ali você ficou estacionado, entre um trago e outro de whisky e cigarro.
