Pedi para que meus amigos-leitores-seguidores de todas as minhas redes me perguntassem qualquer coisa que quisessem a respeito do meu livro novo, o “Um buraco com meu nome” e temas relacionados.

O resultado vocês podem ver abaixo. Juntei perguntas que conversam e perguntas repetidas, além de fazer uma área para perguntas extras. Muito obrigada pelas perguntas incríveis, amores! Vamos fazer isso mais vezes. ❤

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  • Por que escolheu esse título para o livro? De onde veio a inspiração para o título “Um buraco com meu nome”?

Jarid: Esse título veio para mim como uma forma de expressar a imagem de alguém que não tem matilha, alguém que está só e que tem muita coisa feia para levar consigo. Coisas feias que carrega e que foram ensinadas pelos outros, coisas feias que carrega e que foram causas pelos outros, coisas feias que carrega e que causa a si próprio. “Um buraco com meu nome” também pode ser um abrigo, uma toca. Também pode ser uma cova. Também pode ser um quarto. Pode ser um lugar que te espera e já está com o seu nome. Também pode ser a única coisa que você tem. De qualquer forma, diante de todos esses significados possíveis, esse título me veio como uma imagem forte que simboliza um animal que está só, mas essa história não está toda contada. Tem mais além disso. E envolve uma coletividade, envolve outros animais, envolve mais gente. O que mais tem aí? É isso que esse título significa pra mim, isso tudo. …


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Conceição Evaristo e Jarid Arraes na Festipoa 2018. (Foto: Gisamara Oliveira)

Meu encontro com Conceição Evaristo

Estava sentada no saguão do hotel quando ela apareceu. A bolsa grande pendurada no ombro, o lenço colorido enfeitando o cabelo. Meus joelhos falharam, não quiseram sustentar o peso. Olhei para o tapete, tentando me convencer de que conseguiria, de que ficaria tudo bem. Conceição, que alegria te encontrar. Eu sou a Jarid, me convidaram para conversar com você. A voz tremida, segurando a vontade de chorar, carregando um peso de 8 anos nas costas.

Eu tinha 19 anos quando descobri Conceição. Todos os meus anos como leitora não foram suficientes para conhecer escritoras negras, elas não estavam disponíveis nas bibliotecas, na escola, na mídia. Uma garota do interior do Ceará, do Cariri, lia o que chegava até suas mãos. Lia muita coisa, muitos poetas, muito cânone, mas nenhuma escritora negra. Com 19 anos, decidi procurá-las. Então entendi que eu também me parecia com elas. Encontrar a mim mesma, me descobrir como uma mulher negra, foi uma dança intensa de encontro com as palavras de autoras negras que me fortaleceram e me deram coragem para me autorizar a escrever.


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Escultura por Alison SaarBareroot

Resgatando um continente inteiro da minha memória

Descobri, pelo Instagram, a poeta Nayyirah Waheed. Na Wikipédia, seu artigo em inglês nos diz que, embora seja uma das poetas mais seguidas da rede social (se não a mais), sabe-se muito pouco sobre sua vida, seus gostos e sua infância. Não há selfies. É difícil encontrar seu rosto por aí. Nayyirah publica suas poesias e é isso.

Fiquei encantada pela “proposta”; curiosa, peguei seus livros disponíveis para Kindle. Comecei por nejma, que me ganhou. Terminei em salt., que me fez chorar profundamente. Como pode uma poesia tão “minimalista” (nessa pegada meio Rupi Kaur, sabe?) dizer tanto? Dizer tão infinito?

A escolha de Nayyirah em permanecer quieta e deixar sua poesia falar por si me deu licença para encontrar minha resposta: Nayyirah fala de uma dor e de uma busca que, para mim, traduz todos os desafios e dores que o mercado editorial, as livrarias e o “mundo literário” representam para uma escritora negra como eu. …

About

Jarid Arraes

Escritora, cordelista, poeta. Curadora do selo Ferina. Fundadora e coordenadora do Clube da Escrita Para Mulheres.

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