A violência que amamos.

A violência não é uma característica, nem uma qualidade, ou um defeito humano. A violência é um comportamento!

Não se engane, a violência está aí dentro desde o momento em que você quase partiu sua mãe ao meio para sair de dentro dela!

Se hoje a violência é tratada como um comportamento adverso aos parâmetros adequados para a vida em sociedade, por muito tempo ela foi aplicada com a mesma naturalidade que a gentileza ou a cordialidade. O que faz da violência algo que repudiamos nos tempos atuais é a hipocrisia nascida de toda poesia que usamos para disfarçar nossos comportamentos violentos enquanto nos vangloriamos por nossa racionalidade que nos diferencia de todos os outros animais deste mundo. A razão poderia sim nos fazer seres capazes de agir sem violência, mas já que não chegamos a esse nível de evolução, usamos termos mais polidos para narrar e/ou justificar nossa violência cotidiana. No entanto, quando nos colocamos como vítimas, os termos serão sempre violentos.

Por exemplo, se alguém te agride fisicamente, verbalmente, socialmente, ou de qualquer outra forma, o vitimismo vai transformar a ação alheia em algo muito maior do que realmente é e a agressão será chamada de violência. Se em resposta você retribuir, também com violência, suas ações recebem uma espécie de absolvição social que transforma sua agressão em defesa. Você se defende da violência com violência, mas suas ações serão interpretadas como justas e necessárias.

Pois bem, não se pode dizer que um homem é violento apenas por observá-lo parado e em silêncio. A violência só existe quando existe ação. Mas uma ação violenta só é tratada como tal se for privada de motivos que possam justificá-la. Ainda assim, mesmo que justificada, uma ação violenta não deixa de ser o que é e todos nós podemos sentir o desconforto ao presenciar a violência em curso. Isso porque ao poetizar a violência nos tornamos sensíveis a ela.

No passado as pessoas se reuniam em praça pública para assistir a execução de um criminoso. Havia um senso de justiça bem diferente do que existe hoje e naquele tempo somente uma vida honrada e correta era valorizada. Hoje, por outro lado, fazemos uma super valorização da vida humana como se o homem fosse a criatura mais importante que existe, e, por motivos sem explicação, preferimos preservar a vida de pessoas que se esforçam o tempo todo para transformar a sociedade em um abismo de horrores, enquanto as pessoas que se esforçam numa vida correta têm seus direitos diminuídos e sua segurança comprometida. Nos tornamos uma sociedade extremamente eficaz em proteger os piores indivíduos; criamos desculpas para comportamentos delinquentes, defesas para atitudes imorais e justificativas para todo tipo de transgressão. E fazemos isso ao mesmo tempo em que repetimos o discurso hipócrita da falta de justiça.

Você ficaria esperando para assistir a execução de uma pessoa? E se essa pessoa fosse um criminoso, você iria querer assistir? Quantos vídeos de execução você já viu e compartilhou nos últimos tempos? Percebe a contradição?!

Nós adoramos a violência!

Basta deixar de lado o romantismo do discurso pacifista que nos serve apenas como desculpa, para assumir esta realidade.

Preferimos noticias sobre crimes, agressões, destruição… Por isso damos mais audiência aos jornais que tem em sua pauta 90% de notícias violentas.

Ficamos acordados até de madrugada para assistir lutas entrem pessoas que se agridem por dinheiro e tratamos os vencedores como heróis.

Nos vangloriamos de nossa capacidade de opressão sempre que temos a oportunidade de narrar nossas ações “vitoriosas” a qualquer um que não se enquadre no perfil de quem oprimimos.

Preferimos debater sobre temas violentos, compartilhar vídeos de extermínio, fotos de acidentes…

E fazemos do horror que ajudamos a construir, uma oportunidade para expressar nossa falsidade na expectativa de sermos vistos como pessoas melhores.

Nós adoramos e motivamos a violência!

Que música faz mais sucesso; uma que fale de flores e arco-íris ou uma que fale sobre matança de polícias e estupro? Quem é mais respeitado; o bonzinho ou o brigão? Recebe mais queixas por barulho; a igreja ou o baile funk? Filme de romance ou ação? Poodle ou pit bull? Diálogo ou vandalismo?

Outro dia eu li numa pichação “vandalismo é democracia”. Que tipo de mundo é esse onde um pensamento assim pode existir, ser compartilhado e considerado como uma resposta para a insatisfação da sociedade?

Nós vivemos num país onde a violência é tão grande e há tantas mortes que se pode comparar a um estado de guerra, mas já estamos tão acostumados com esse absurdo que sequer nos preocupamos em sair de casa. Todos nós sabemos de alguma história de gente que morreu por causa de um celular que chamou a atenção de um ladrão, mesmo assim fazemos de nossos aparelhos uma extensão de nossas mãos e esquecemos do mundo quando nossa atenção é absorvida por alguma banalidade, fofoca ou nude. E o que acontece quando somos roubados? Fazemos um depoimento melindroso e dramático numa rede social, reclamamos da sociedade insegura que está além de nós (o que sempre rende muitos comentários de apoio e concordância sobre o absurdo que está o mundo de hoje) e depois de alguns segundos, somos tomados pela frustração de sermos ovelhas indefesas e com mais hipocrisia ainda inventamos coragem para dizer que dá próxima vez vamos nos defender de alguma forma. Como se já não fosse suficiente tanta mentira, adotamos o pensamento de que ao compartilhar nossas violência sofridas estamos prevenindo outros, quando na verdade tudo é apenas um cartaz que diz nas entrelinhas “me vejam e tenham pena da minha infelicidade”. A lamentação, o suposto trauma, o medo… São apenas costumes que servem de alicerce para a produção de drama. O que você acha que disseram para a primeira pessoa que teve o que hoje chamamos de síndrome do pânico?

Em pleno tiroteio, o que você faz; se esconde para se proteger ou filma para se promover?

Se a TV está ligada e no jornal está passando algo sobre cultura, você não se impede de usar o celular, mas se é uma notícia sobre briga de torcidas num estádio de futebol você oferece toda a atenção e logo em seguida faz algum comentário cretino ou condenando o ocorrido, ou criticando quem estava envolvido.

Ao ver uma pessoa sendo agredida somos todos cegos. Somos todos surdos diante da fome alheia, ocupados demais diante da necessidade do outro, apressados demais, comprometidos demais… Somos sempre demais, mas tão “demenos”. No entanto, tudo que não vemos, ouvimos, podemos e temos tempo, é sempre material de propaganda. Existem centenas, milhares de depoimentos cheios de boas intenções e pensamentos sobre mudanças, mas nenhuma ação.

Opa, mas estamos agindo, estamos protestando, não estamos?!

Não. O que estamos fazendo é violência! Além de adorar e motivar a violência, nós também a praticamos quando do saímos de casa respaldados pela ilusão de que temos que lutar por direitos que não compreendemos simplesmente por sermos imaturos o suficiente para acreditar que ter acesso a informação é o mesmo que ser informado. Estamos praticando violência quando descontamos as frustrações paridas dessa ilusão nos patrimônios públicos e privados. E estamos sendo violentos em ser contra a todo um sistema falho e injusto agindo com falhas e injustiça.

Já parou pra pensar que pela impossibilidade de se fazer uma manifestação pacífica um número enorme de policiais que poderiam estar trabalhando em outras necessidades ficam passeando com os insatisfeitos e suas bandeiras? E já pensou que alguém pode ter morrido dentro de uma ambulância que não conseguiu chegar até o hospital das clínicas numa sexta feira de ruas tomadas por manifestantes que adoram a região da Paulista? Que um pai ou uma mãe não conseguiu chegar em casa para ficar com o filho pequeno que dorme cedo?

Ah não, nada disso importa. O importante é a comoção por conta de um “jovem indefeso” golpeado por um policial. Ou o spray de pimenta no rosto de uma “moça delicada”, o vidro do óculos de quem “só estava passando”… Só importa o que rende debate contra o sistema.

Nós realmente adoramos a violência!

Então não me venha com esse papinho de miss mundo clamando a paz mundial. Entenda o seguinte; nos dias de hoje nenhuma violência será corrigida com carinho e beijinho. E já que você não vai oferecer a outra face, pare de fingir que esse é o caminho. Pare de ficar defendendo “menor de idade” bandido, de ficar passando a mão na cabeça de ladrão pobre, de sequestrador favelado…

Existe sim um meio para vivermos uma sociedade livre de violência, mas para tal é preciso um grande saneamento de costumes, uma compreensão bem mais ampla sobre cultura, a volta da educação familiar, o interesse geral pela melhoria da qualidade de vida de toda a sociedade, responsabilidade, caráter, consciência, tato… Enfim, tudo aquilo que todos nós sabemos ser necessário, mas que desprezamos pela insistente “maneira” de deixar de fazer o que os “outros” não fazem.

A violência já não é mais como antigamente, mas nós nunca fomos tão patéticos em relação a ela!

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