Arte & Filosofia.

E a hipocrisia/presunção da interpretação única.

Penso que cada um de nós é perfeitamente capaz de absorver um tipo particular de significado acerca de tudo que temos contato.

Penso que a interpretação é como as digitais; individuais e intransferíveis.

Logo, penso que é de uma hipocrisia/presunção sem tamanho as frequentes tentativas de determinar o teor e o valor de certas coisas, adotando uma interpretação genérica. Principalmente quando se trata do que é absolutamente subjetivo como a arte e a filosofia.

Minha interpretação pessoal sobre estes dois temas é:

ARTE; expressão tangível do que é peculiar ao artista. Exteriorização física do que não pode ser definido, apenas expressado. O que não cabe definição, apenas compreensão.

FILOSOFIA; arte de questionar. Especulação respaldada em argumentos genéricos, fruto de observação e experiência. Processo de formação de pensamentos por vontade e consciência.

Pois bem, na minha opinião, tentar doutrinar — no sentido mais amplo da palavra — os caminhos da Arte e da Filosofia, exclui naturalmente a possibilidade de praticar essas duas “ciências” tão pessoais de forma genuína.

Não penso ser possível “criar” um artista ou um filósofo. Penso que é interessante apresentar a arte e a filosofia e acredito na possibilidade de que o conhecimento possa gerar a capacidade. A inclusão artística e filosófica não se dá por formação e sim por inspiração, pois é isso que alimenta a arte e a filosofia; inspiração.

Na Arte.

Eu entendo que para algumas pessoas os caminhos da expressão são desconhecidos, ou de difícil acesso. Sei que para muitos, os sentimentos parecem segredos impossíveis de serem transportados para fora e expressados com o mesmo teor que são sentidos. No entanto, penso que é justamente esse o problema; desejar traduzir o que se sente.

Não é possível traduzir um sentimento!

Tudo aquilo que recebe uma definição precisa, deixa de ser um sentimento e passa a ser comensurável. Sentimentos são únicos, singulares e absolutamente limitados à um instante. Se uma mesma pessoa não sente a mesma coisa o tempo todo sobre o que quer que seja, como outro alguém pode verificar, calcular ou quantificar um sentimento alheio?

Nem mesmo o “produto” de um artista pode ser resumido a ponto de ser possível determinar. A expressão artística, seja ela como for, carrega em si a síntese do que inspirou e/ou transbordou do artista. Quando questionado sobre sua arte, um artista não diz de forma pontual o que desejou expressar. O próprio artista menciona sua obra como algo que transmite uma coleção de sentimentos, algo como uma “cena” do seu íntimo.

Sendo assim, como alguém pode ser capaz de determinar o significado de uma obra de arte?

Ainda existe algo patético; “obras” encontradas e rascunhos. Se um artista, achando que determinada obra não merecia nem o lixo e resolve enterrá-la de tanta frustração, como ele se sentiria sabendo que alguém foi lá depois de muitos anos, desenterrou a obra e criou uma fantasia enorme e um preço absurdo?

Na Filosofia.

Sentimentos não podem ser definidos, mas podem ser compartilhados. Já o pensamento, mesmo que propagado, jamais será similar de uma mente para outra. Talvez o enredo seja o mesmo, mas diferente da arte que causa uma repercussão, o pensamento compartilhado produz novos pensamentos para futuras repercussões. Ou seja, a arte é o momento em que age, o pensamento é uma semente à ser cultivada.

O modo como um pensamento será processado, está diretamente conectado e sob influência da ponderação de cada um. A classificação de uma informação está sujeita à interpretação do raciocínio formado ao longo do tempo por outros tantos pensamentos e que ao receber uma nova informação, pode se modificar por completo, ser reforçado ou descartado.

Nem mesmo o mais convincente e persuasivo discurso será absorvido em sua totalidade e restrição.

De que cor é o seu vermelho?

Essa é uma questão que transmite bem essa ideia. Apesar de ser uma simples pergunta que para muitos já se faz respondia, ela também pode ser um belo exemplo de como a filosofia carece de pensamento sobre o que não é mencionado. O seu vermelho será sempre diferente do meu vermelho, mas os dois são e serão vermelhos. E é aí que a filosofia e a arte se assemelham; a percepção/ compreensão não pode ser limitada à um padrão único.

Sendo assim, se uma cor pode gerar tanta divergência, como alguém poderia “ensinar” um pensamento?


A hipocrisia de oferecer uma interpretação única destas duas formas de expressão, está na presunção de alguns “entendidos” em transmitir a “verdade” do significado.

Hipócritas se de fato absorveram algo e sabem que é único para cada pessoa. E presunçosos por pensarem ter absorvido a única interpretação possível e correta para todas as pessoas do mundo.

Se Picasso quisesse ser categórico quanto ao uso de um determinado tom de vermelho, ele certamente teria inscrito no verso da tela.

Do mesmo modo, se Kant quisesse que suas críticas fossem mais do que realmente são, ele teria escrito uma enciclopédia inteira para tratar de tanto conteúdo.

Eles fizeram isso? Não!

Então como uma pessoa que pensa ter absorvido algum sentido/significado sobre a obra, pode se colocar como tradutor do que é absolutamente subjetivo?


O mundo está sofrendo de uma enorme carência de artistas capazes de produzir o que possa ir além destes tempos.

Muito disso se deve ao modo medíocre de como tornamos a arte num negócio, transformando o nome do artista em uma marca.

A pessoa não em um quadro na parede, ela tem uma etiqueta.
A pessoa não tem um pensamento por referência, ela tem aspas.

E com isso, a expressão dá lugar ao materialismo e status, enquanto surgem toneladas de lixo e poluição que não representam nada além do que está descrito em suas “placas de definição” ou numa dissertação repetitiva de algum “professor”.

E o que é pior; foi criada uma necessidade de aceitar sem questionar o significado dessas “expressões”.

Se eu não acho um acumulado de recortes digitais, misturados e sem definição, nascido dos devaneios de um qualquer, quem encheu o cérebro de maconha, famosinho pelo uso do photoshop que aprendeu usar em tutoriais no YouTube e deixou os neurônios em slow motion brincando com a opacidade das camadas, uma “arte abstrata”, sou visto como alguém sem senso artístico. E se critico a zona toda, sou um ignorante que não compreende o verdadeiro significado da arte.

Ou se um oportunista qualquer copia parágrafos de três ou quatro livros famosos, troca as palavras e enche 300 páginas que caberiam em 10 linhas, e depois de ler eu julgo inútil, sou um arrogante.

No fim, assim como você, seu vizinho e mais aquele monte de gente que cria filas gigantescas, somente a arte de séculos atrás e a filosofia das caveiras do pensamento é que de fato podem nos oferecer algo mais.

Ou podemos nos entreter com as falas dos entendidos hipócritas e presunçosos que adoram uma platéia.

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