Desculpe, eu não sirvo para falar de preconceito!

Você conhece algum racista cego?

(Na minha opinião o brasileiro é um povo ignorante que adora modismo. Tanto que basta se tornar público um caso de racismo numa rede social para que outros tantos sejam cometidos em sequência.)


Me restringindo ao preconceito racial, digo que no Brasil o racismo se apresenta de duas formas;

Primeira: o racismo é uma “conduta/prática/comportamento” ensinado como algo que é o que que é mesmo que não haja explicação. E não existe explicação para o racismo! Uma explicação se respalda na lógica, trata-se de um raciocínio que contém suporte em experiências e dados. O que existe é argumentação. Nenhum racista é capaz de apresentar qualquer explicação em defesa do preconceito que possui/sente.

Segunda: é um discurso justificativo inspirado em estáticas, vitimismo e em um tipo de cultura social tendenciosa e oportunista que potencializa os resultados de sua própria apresentação dos fatos. Esse discurso é repetido pelas pessoas (racistas e vítimas) e pela mídia.

Agora começa a parte que me desqualifica para falar de preconceito.

O que a palavra preconceito significa todos nós sabemos, mas como se define O preconceito?

Sabemos que o preconceito não é uma característica genética; nenhum bebê nasce racista. Sabemos que não é um produto que se compra e usa. Também não é um efeito colateral resultante de algum tipo de doença. O racismo é uma escolha!

Penso que as pessoas escolhem serem preconceituosas, mas não de uma forma consciente como escolher uma cor de roupa ou um tipo de música. O racismo é uma escolha fragmentada que só é aceita no momento em que é reconhecida. E para cada uma das duas formas de racismo que existe no Brasil, existe também um caminho para que esses fragmentos venham morar na mentalidade ignorante de algumas pessoas; influência e manipulação.

A primeira forma de racismo é cultural (eu não tenho palavras para dizer como isso é patético). E como tudo que é cultural, o racismo “cativa” novos “adeptos” através da influência de pessoas racistas sobre pessoas em fase de desenvolvimento. Um pai ou mãe racista influi o racismo em seus filhos. Esses filhos iniciam um comportamento racista nas escolas ou nas rodas de amigos e por ser um “detalhe produtor de piada” o racismo se inicia como uma brincadeira. Uma criança que comete racismo é tão incapaz de explicar seu comportamento quanto seus pais, mas continua depreciando outras crianças de cor diferente simplesmente por considerar isso engraçado. Eis que então se inicia um processo que vou chamar de “consequência natural de resposta”, mas que vou explicar mais abaixo.

A segunda forma de racismo é uma propaganda. E como toda propaganda, existe um “público alvo” não direcionado, mas passível de interesse e aceitação que absorve seu conteúdo e faz uma interpretação manipulada pelo modo tendencioso com que tal propaganda é apresentada.

Quando foi que você viu notícias de um jornal dizendo: “um homem negro foi preso…” ou “uma mulher negra foi flagrada…” ou ainda “uma quadrilha de negros invadiu…”?

Vou responder para você; na mesma quantidade que você viu uma propaganda dizendo “venha gastar todo seu dinheiro com besteiras sem qualidade na nossa loja oportunista”.

Como dito antes, a segunda forma de racismo é “um discurso defensivo” que funciona exatamente como uma propaganda que oferece o que você não precisa, mas que te convence. Você aceita o racismo não por que te dizem para ser racista, mas justamente por que dizem para você não ser ao mesmo tempo em que afirmam que você já é.

Você, que não é racista, como fala sobre o assunto? E os comentaristas de jornais, falam diferente de você? Por que é sempre na defensiva? Por que você sempre crítica um racista quando diz alguma coisa a seu próprio respeito dizendo que você não é racista? Quando foi que você leu ou ouviu algo do tipo “parabéns povo brasileiro por finalmente seguir um caminho de menos preconceito”? Quando você recebeu qualquer informação sobre a diminuição do racismo no Brasil? Quando você ouviu um comentário de qualquer especialista dizendo que o brasileiro está sendo aos tolerante?

Eu sou capaz de apostar que suas respostas serão iguais as minhas!

Pois bem, agora responda; quando você viu ou ficou sabendo de alguma ação, movimento, criação de sistemas e centros de apoio com o discurso de que eram ações para se combater o racismo ou para defender as vítimas de racismo? Já reparou que nesses casos o discurso também é sempre na defensiva?

Sabe qual é o maior problema desse tipo de defensiva? Qualquer opinião contrária será vista como agressão!

Por exemplo, existe um órgão vinculado à prefeitura de São Paulo chamado CONE — Coordenadoria dos Assuntos da População Negra. Órgão este que “tem como finalidade e competência formular, coordenar, acompanhar, sugerir e implementar políticas públicas focadas na população negra, visando a prevenção e o combate à discriminação racial e a defesa dos direitos, bem como a promoção e o apoio à integração cultural, econômica e política desta população.”.

Usando apenas este exemplo, me responda o seguinte; a existência deste órgão não é por si só uma demonstração de segregação? Qual seria o impacto social caso houvesse órgão semelhante voltado aos assuntos da população branca?

Eis que novamente surge a “consequência natural de resposta”!

Consequência natural de resposta.

Pense naquela criança filha de pais racistas fazendo piada de um colega de escola negro. Em algum momento esse colega vai se sentir tão afetado que o conflito vai surgir inevitavelmente. O resultado será que ambos irão ficar com raiva da situação.

Se o garoto branco sair perdendo, ele não vai pensar na força do outro, ele só vai pensar no fator que deu origem ao conflito. Logo, a “culpa” será da cor de pele do outro garoto e em consequência virão outras piadas cada vez piores. Se ele sair ganhando, tudo fica ainda pior, pois haverá também a sensação de poder.

Se o garoto negro sair perdendo, ele se sentirá oprimido não apenas pelo efeito da “derrota”, mas também pela continuidade das piadas depreciativas que ou o deixarão com mais raiva ou com a sensação de pequenez que leva ao isolamento. Se ele sair ganhando, surgirá um senso de “justiça” justificativo que aos poucos vai alimentar um tipo de orgulho prejudicial capaz de fazê-lo entender que qualquer menção a sua cor será uma afronta passível de defesa.

Essa situação irá se repetir por muitos anos passando pelo período em que essas crianças irão estudar sobre a escravidão e o apartheid. Ambos irão nutrir sentimentos agressivos relacionados ao tema e como uma consequência natural irão se tornar racistas.

Sim, ambos se tornarão racistas!

Talvez este seja o ponto mais “infeliz” sobre o racismo; brancos e negros são igualmente racistas. Não existe nenhuma diferença entre chamar alguém de “negrinho” ou de “branquelo”. A única diferença que existe é que para os casos em que uma pessoa negra age com racismo contra uma pessoa branca, uma espécie de hipocrisia ressentida torna a ação menos agressiva na expectativa de que diminuindo a seriedade da situação, evite-se ser racista contra a pessoa negra que ofendeu a pessoa branca. E esse é o ponto chave do discurso defensivo dentro desse tipo de preconceito; ponderar não por respeito, mas por receio. Isso acontece porque a sociedade insiste no erro de considerar que os erros do passado justificam os erros do presente. Não podemos aliviar os efeitos do racismo contra pessoas brancas apenas porque na nossa história houve um longo período de barbárie contra as pessoas negras.

Agora pense que essas crianças cresceram e se juntaram ao resto da população para assistir um telejornal que não dirá a cor da pele dos responsáveis por toda ação negativa dentro da nossa sociedade, mas que ao mesmo tempo irá falar sobre cotas em universidades; uma iniciativa que na defensiva nos faz pensar na tentativa de se garantir a igualdade, mas que na verdade é uma subliminar dizendo que a pessoa negra talvez não tenha as mesmas capacidades de conseguir estudar e aprender tanto quanto a pessoa branca. Nesse telejornal alguém irá dizer que “infelizmente no Brasil o negro pobre favelado será sempre tratado como bandido”; como se o preconceito existisse apenas contra o negro pobre. No intervalo talvez passe alguma propaganda sobre produtos voltados apenas a população negra tentando supervalorizar um tipo de cabelo que já foi muito criticado, por exemplo. E assim por diante.

É lamentável, mas a grande verdade é que apesar de toda hipocrisia que narra as tentativas de acabar com o preconceito fazendo valer a igualdade entre as pessoas, o racismo se alimenta principalmente do discurso defensivo mal elaborado que não visa colocar todas as pessoas, independentemente da cor de sua pele, no mesmo patamar. Esse discurso está sempre tentando se redimir dos erros cometidos elevando a pessoa negra sem necessariamente diminuir a pessoa branca, mas permitindo a interpretação silenciosa que lentamente faz valer as diferenças de forma negativa.

O respeito e a igualdade não são consequências que surgem do desequilíbrio. Mesmo que desequilíbrio de hoje seja para compensar o desequilíbrio de ontem.

Separar é preconceito:

  • É preconceito uma camiseta estampada “100% Black” (e se traduzir fica ainda pior)
  • É preconceito uma coordenadoria que só trata de assuntos da população negra
  • É preconceito a cota em uma universidade
  • É preconceito um canal de tv somente para negro (Tv da Gente)
  • É preconceito defender uma pessoa por conta da cor de sua pele independente de suas ações
  • É preconceito tudo aquilo que se realizado ao contrário seria chamado de racismo.

Eu não sirvo para falar de racismo porque eu não acho correto usar a cor da pele de uma pessoa nem para criticar, nem para defender. Penso que quanto mais falarmos sobre o assunto, mais ele ocupará espaço dentro da nossa sociedade. Até hoje eu não tomei conhecimento de nenhuma política pública, social ou até mesmo campanha de conscientização que fosse absolutamente imparcial oferecendo de fato um discurso de igualdade. O preconceito existe e somos todos capazes de reconhecê-lo, mas não acredito que a solução seja criar caminhos, mas mudar quem está caminhando. O que nos falta é maturidade e consciência para compreender que somos todos Pessoas. Somos todos de uma mesma espécie.

Somos e seremos todos racistas enquanto citarmos a diferença como motivo de alguma coisa; positiva ou negativa.

Não existe nada mais patético do que considerar que a cor da pele de uma pessoa é suficiente para dizer quem ela é, o que ela pode e do que é capaz.
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