Dos Artistas da Noite: ILUSÃO.

“Venham ver, venham ver! Deixem que seus olhos vasculhem as incertezas à sua frente! Tentem se puder, descobrir os caminhos da verdade! Venham ver, venham ver Ilusão!”

Nenhum outro pronunciamento dava mais satisfação ao empresário do que este. Ele sabia muito bem que desafiava as multidões à serem capazes de encontrar a verdade diante das “mentiras” do mágico Ilusão! Sempre funcionava bem!

Ele já havia visto inúmeras vezes os inúmeros olhares cheios de duvidas diante do engano absoluto. Ele sabia que nada era real, que nada acontecia como parecia acontecer e que tudo eram apenas ilusões oferecidas a baixo custo à quem julgava-se capaz de ver a verdade por detrás da mentira cativante!

Ilusão era um mágico habilidoso, descobriu sozinho numa noite os caminhos de se fazer acreditar, mesmo quando dizia que estava enganando!

“Sorria, sorria, sorria sempre”, repetia sozinho o jovem sentado frente ao espelho de um banheiro sujo! “Um belo sorriso é a chave da crença alheia!”.

“Não quero ser apenas mais um cheio de sonhos irrealizáveis! Não quero ver minha vida escorrendo lentamente barreira a baixo como o lamaçal de meus vizinhos… semelhantes! Não quero ser corrompido pelo medo de nada ser e nem enganado pela ilusão de ser além! Pois então que seja eu a própria ilusão! Que seja eu aquele capaz de causar todas as mentiras diante daqueles que tentam acreditar em tudo que fizer! Que meus atos, declarados, sejam visto como desafios e não como enganos, mesmo que de fato sejam! Que a loucura invista em mim o teu sorriso mais sagaz. Que meus lábios curvem as molduras da razão, mas que os reflexos do meu espelho sejam tão distorcidos como a própria compreensão de quem me assiste… refletido! Que todos os olhos que buscam se esconder de uma verdade dorida, encontrem em mim, o refugio que lhes cause o contentamento de um porto seguro… no fim da praia! E que sob os holofotes do espetáculo, seja eu espetacularmente simples, pois as maiores ilusões assim são! Sorria, sorria, sorria sempre, pois um belo sorriso é a chave da crença alheia. Que acreditem, pois estarei sorrindo em cada mentira que oferecer!”.

Saiu daquele banheiro, daquele espelho e no picadeiro sorriu!

Noite após noite, os espaços são disputados aos empurrões. Homens, mulheres, jovens e idosos, todos dispostos a encontrar a verdade por detrás de cada truque.

Ilusão entra sorrindo, reverencia as arquibancadas transbordadas, apresenta tua cartola, teu paletó, tuas mãos nuas e continua sorrindo!

As lagrimas oferecidas pelo palhaço Solidão se evaporam com o calor da curiosidade de tantos olhos intrigados pelo show de Ilusão.

E ele põem-se a iludir, faz truques inacreditáveis, a plateia vai ao delírio, é preciso uma placa de silêncio para conter os aplausos!

No fundo, o empresário ri!

Na frente, Ilusão Sorri!

Ambos sabem que todos aqueles queixos caídos sob um par de olhos perplexos neste instante já acreditam que Ilusão é dono de poderes mágicos.

Sabem também que nenhum deles jamais reclamará dos 25 centavos pagos para assistir um espetáculo como este!

Ilusão termina seu show, retira a cartola, faz uma reverencia e de braços abertos recebe a chuva de palmas que jorra das arquibancadas.

“Continue sorrindo… sorria, sorria sempre… tens diante de ti um mudo de adoradores da mentira e sorrindo tu mentes melhor!”

Ilusão, o artista da noite nesta noite.

O dono de toda mentira feita verdade.

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