Gentileza.

Sejamos francos; nós nos habituamos ao absurdo. Tornamo-nos tão insensíveis que quase nenhuma atrocidade nos comove, quiçá nos causa espanto. Tudo é possível, seja o melhor do que pudermos, seja o pior que nos condenemos. Usamos a tragédia, a insanidade e o drama como argumentos para justificar nossas falhas e para nos promover dentro da sociedade. Achamos graça do que deveríamos repudiar com todas as forças… É lamentável!

No entanto, é também absolutamente compreensível, afinal, faz parte do desenvolvimento do homem passar por períodos de insensatez para que as necessidades se tornem prioridade.

E por mais que seja evidente que é esse o momento da nossa sociedade mundial, visto que o mundo se encontra como um cesto de maçãs podres, um detalhe comportamental poderia nutrir uma atitude deveras esquecida; a gentileza.

Sim, eu sei que é justamente em tempos como os de agora que ser gentil é o mesmo que desenhar um alvo nas costas. Sei que surgiriam os oportunistas, os autoritários, os injustos e os ingratos… Sei bem que a gentileza é muitas vezes confundida com submissão/medo/insegurança. Mas ao mesmo tempo, esse é o momento em que as contrariedades são o combustível de muitas ações.

Já tentou observar o que acontece quando diante ou em meio a uma grande agitação de ânimos, correria e/ou qualquer um dos mais frequentes cenários atuais, alguém “comete” uma gentileza? É um choque de realidade ao inverso!

Ninguém mais espera esse tipo de comportamento e quando acontece é algo que gera um segundo de pausa na loucura que está nos governando.

Sendo assim, pensando que um dos grandes interesses do momento é causar sensações e emoções por agir de acordo com o inesperado, que tal ser gentil nesta festa de ogros modernos?

Pense bem, seria algo novo para algumas gerações e esses mais jovens diriam “Orra, isso é novo, vou seguir pra ser original” e retrô para outras que diriam “Putz, lembro quando era assim”.

A gentileza não perdeu espaço por deixar de ser instruída. A transformação foi no modo como nos tornamos descrentes das boas condutas humanas e em como nos tornamos estressados o suficiente para respeitarmos apenas o meio metro quadrado que nos cabe.

O individualismo é também um algoz da gentileza, pois quando somos únicos e supremos, ninguém mais merece nossa atenção, nossa gratidão, nossa educação. Somos todos vítimas do vitimismo que impede a gentileza!

Claro que nesse primeiro momento, quando falo de algo que poucos conhecem, ser gentil não parecer ser algo interessante para quem o é, mas acredite; ao agir com gentileza confirma-se um velho sentimento que nos garante a posição de seres racionais/sociais. Há quanto tempo você não recebe um elogio por seu comportamento?

Seu cabelo, sua roupa, seu smartphone, sua bolsa, sua coleção de baladas e bares, seus milhares de amigos virtuais… Nada disso pode fazer você sentir o que é ser elogiado por ser uma pessoa e não só mais um.

E não confunda educação com gentileza. Ser educado é agir conforme padrões de referência que foram ensinados como um tipo de adestramento necessário para a vida em sociedade, já ser gentil consiste em compreender que o mundo é muito grande pra uma pessoa só e que a cordialidade é o melhor modo de se conquistar o respeito, o companheirismo e a aprovação/aceitação alheia.

Se sabemos que gentileza gera gentileza, por que esperar de outro o que cada um de nós pode começar?
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