Justiça ou vingança?

Não sou do tipo de pessoa que sente pena dos outros. Penso que somos todos responsáveis pelo que nos acontece, seja bom ou ruim. Vivemos uma linha de ações e repercussões, logo, ter pena não me parece justo.

Também não sou do tipo que considera o ser humano um ser sublime. Para mim, somos animais racionais. Só isso.

Também aceito com facilidade o fato de que em alguns momentos, pessoas inocentes são “colocadas” em situações que não merecem para que outras pessoas tenham motivos para mudar de atitude.

Não valorizo a vida do ser humano como superior a vida de uma formiga e não acho que o homem seja realmente a espécie mais evoluída e merecedora de privilégios deste planeta.

Sou a favor da pena de morte e contra a doutrina de não reagir contra quem só pensa em provocar o pânico.


Dito isso, talvez possa parecer absolutamente contraditório, mas em relação às crianças, tudo é diferente.

Para mim, não existe nada mais puro do que um bebê. Penso que nesse estágio, somos puro instinto, somos todos filhotes.

E até que o mundo nos corrompa com todas a banalidades e conceitos egocêntricos e de orgulho, somos todos limpos.

É quando nos tornamos parte do sistema, que deixamos de ser realmente humanos e passamos a ser essa criatura que ocupa e transforma o mundo.


Pois bem, tive o desprazer, a infelicidade de estar diante da TV quando a notícia de uma menina de 7 anos que foi esfaqueada 42 vezes com uma faca de cozinha numa escola do Norte do Brasil, veio fazer doer meus pensamentos.

Ainda não existe suspeito e a reportagem não falou de nenhuma pista. O caso é um completo mistério.

Qual você acha que deve ser a pena atribuída à quem cometeu esse crime?

A família e a população inteira da cidade pedem justiça. Mas que tipo de justiça cabe num caso assim?

Na minha opinião, seja quem for, o responsável pela morte daquela menina merece sofrer uma dor equivalente a dor que causou na criança e que hoje os pais sentem. Eu sugiro retalhar o corpo todo, lavar com gasolina e atear fogo.

Daí você poderia me dizer duas coisas; primeiro que a vingança não traria a criança de volta; segundo que esse tipo de pensamento não me faz diferente de quem cometeu o crime. E quer saber? Eu concordo com os dois pontos!

No entanto, minha concepção sobre vingança e justiça não foi absorvida diretamente pelos conceitos de adestramento que a sociedade impõem fazendo uso de políticas sociais de preservação do ser humano.

Meu pensamento sobre ação e reação não se restringe ao que nos é ensinado desde sempre e que também nos priva da naturalidade que a vida adulta amordaça quando crescemos. No meu entendimento, olho por olho e dente por dente pode ser sim um método pouco racional, mas a defesa alimentada por nosso lado animal me parece mais genuína do que as intervenções desta civilidade pouco eficiente que não só permite, como também favorece o aumento cada vez maior da irracionalidade.

Pense no seguinte: um oleiro manipula o barro e faz tijolos. Depois constrói uma casa e mora nela. O barro e o trabalho for meios para um fim necessário. Agora, se esse mesmo oleiro, derruba a casa para usar os tijolos para fazer barro, qual o sentido?

Um dos meus primeiros textos aqui no Medium foi sobre o retrocesso inevitável pelo qual estamos passando. Com o mesmo peso e a mesma medida, eis o meu ponto de vista sobre a justiça e a vingança.

JUSTIÇA vs. VINGANÇA

Por definição temos;

Justiça: s.f. Particularidade daquilo que se encontra em correspondência (de acordo) com o que é justo; modo de entender e/ou de julgar aquilo que é correto.
Vingança: s.f. Ação de se vingar, de causar dano físico, moral ou prejuízo a alguém para reparar uma ofensa, um dano ou uma afronta causada por essa pessoa.

A ideia é que a justiça seja uma vingança instituída que usa da privação de direitos como resposta justa ao dano causado. Enquanto que a vingança é a justiça consequente e arbitrária que paga com dano o dano causado.

A justiça é um sistema e a vingança é uma ação.

A grande questão está no “julgamento do que é justo”. Como é possível determinar o que é justo fazer para que um homicida pague por seu crime?

Vamos analisar o caso da reportagem; uma criança de 7 anos com saúde, vida familiar saudável, cercada de carinho, bem cuidada, com possibilidade de ser o que quisesse no futuro.

Então alguém enfia uma faca de cozinha 42 vezes no corpo dessa criança. Dessa semente promissora para o futuro. Como é que se calcula uma pena justa? Como é que se pode medir uma consequência equivalente? Como se atribui justiça em algo assim?

É impossível ser justo num caso desse!

Pela justiça sob a qual vivemos, moldada para a vida em sociedade, e, aceita pelos indivíduos como suficiente para determinar o preço de cada crime, o responsável pela morte brutal daquela criança, vai passar por um julgamento, vai ter um defensor, vai ser condenado a uma pena que não irá cumprir por inteiro e enquanto estiver privado apenas do direito de ir e vir, essa criatura vai contar com saúde, alimentação, segurança e nem vai pagar aluguel pelo teto que o protegerá da chuva e do sol. Será mantido pelo dinheiro suado de pessoas que nada tem a ver com o caso e muito provavelmente sairá do confinamento sem qualquer modificação social significativa.

Essa é a justiça que temos. Pode-se dizer que segue a linha de definição no início, considerando que o justo é relacionado aos conceitos sociais de uma sociedade, mas a atuação da justiça e o cumprimento da pena, são extremamente falhos e sem uma justiça de fato justa, o que resta é a impunidade.

Não preciso colocar aqui o significado de impunidade. Basta olhar lá fora para reconhecer o quão impune é o sistema que nos controla e governa.

As leis não são aplicadas com vigor, as regras são condenadas como opressoras, o respeito se tornou um luxo, a educação um lixo e a população não se incomoda com nada. Tudo pode!

E o que é que naturalmente surge quando a impunidade reina por sobre os clamores de justiça? Vingança!

Não é sem motivo que dizemos que aquele que se vinga, deseja fazer justiça com as próprias mãos.

E só condenamos a vingança por sermos totalmente adestrados a conectar a vingança com a violência e condicionados a aceitar e aceitar e aceitar… Não se defenda”, “Não se vingue”, “Não seja um justiceiro”.

Então nada fazemos além de esperar que o sistema seja capaz de encontrar, julgar e condenar aqueles que nos causaram dano.

“A justiça sem força é impotente, a força sem justiça é tirania.” — Blaise Pascal.

Como você se sentiria se fosse pai/mãe daquela criança? O que você consideraria justo para servir de castigo ao homicida? O que você faria com esse monstro se tivesse oportunidade?

Você já viu o funeral de uma criança?

Não existe nada mais triste. Nada!

E quando eu penso que uma princesinha de 7 anos levou 42 facadas, sem qualquer possibilidade de defesa, numa sala tão perto da família… Eu não penso em justiça, nem em perdão, muito menos em condenação, ou castigo divino.

Eu penso em vingança!

Pura, fria, dolorosa e longa.

Mas claro que essa é só minha opinião. Eu não sou tão nobre quanto quem tem o dom do perdão.

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