O TEOREMA DO FANTOCHE (parte 2).

Fantoche: s.m. Boneco movido com fios. / Fig. Pessoa que fala e procede conforme vontade alheia; autômato, títere.

PARTE 1

PARTE 3

Já assistiu um teatro de fantoches?

É divertido e criativo, mas é fácil perceber o controle. No entanto, assistir uma apresentação considerando a verdade absoluta por trás de cada ato priva nossos sentidos de absorver o que realmente interessa; a ideia.

Se ao assistir um teatro de fantoches você ficar incomodado com os fios, os movimentos e a voz que você sabe não pertencer ao boneco, a magia da apresentação irá se perder. Mas e quanto ao boneco? O que pensa o fantoche?

Trata-se de um objeto inanimado, é verdade. Mas assim como outros tantos objetos de importância na sua vida, aquele boneco representa uma idéia, suas ações são a transmissão de uma história e é através dele que você pode absorver o que tudo significa. Ações produzidas por um artista que deixa de existir durante a apresentação.


Nós vivemos um teatro. Cada um com seu papel, cada um com seu momento de atuar, cada um com um figurino estrategicamente preparado para revelar os detalhes subliminares de nossa personalidade. Não importa o que você é, mas o que você representa, afinal todos nós queremos ser aceitos! Já que somos seres que vivem em sociedade, fazer parte de um grupo é fundamental para o nosso desenvolvimento pessoal. Por conta dessa necessidade, adotamos posturas que nos sirvam de entrada para o grupo do qual desejamos fazer parte. As pessoas se organizam e se reúnem por características em comum; se você não se conecta, você se isola.

Pois bem, assim como o boneco serve apenas como objeto de referência para uma ideia, você tem sido um fantoche para o sistema que te controla com fios invisíveis.

O seu comportamento e suas ações, suas escolhas e objetivos, seus pensamentos e preferências, as coisas que você compra, a roupa que você usa, os livros que lê, as músicas que ouve… Tudo que. você pensa serem definições e características suas, na verdade são impostas a você. E você, encantado com toda propaganda e brilho que te oferecem, entrega-se ao controle sem questionar, sem resistir. Mas a culpa não é sua!


A sociedade não surgiu ontem, nem ano passado, nem mesmo no dia em que você nasceu. A sociedade existe desde que o homem deixou de andar sozinho. Não pretendo usar o termo ‘sociedade’ com seu significado mais usual. Quando alguém diz “as pessoas não sabem escolher seus governantes”, o que significa “as pessoas”? Esse “as pessoas” é a sociedade da qual esse alguém que diz também faz parte. Usamos os termos “as pessoas”, “o povo” “eles”… Para falar sobre nós mesmos e todos os outros indivíduos da nosso próprio meio. É um tipo de defesa covarde e hipócrita para nós livrar do peso da culpa. Ao invés de dizer que “o povo é ignorante”, deveríamos dizer “nós somos um povo ignorante”.

Enfim, uso aqui o termo sociedade como um sistema que existe dentro da reunião de indivíduos. Trata-se de um sistema natural que tem como principal objetivo garantir a coexistência dos mais variados tipos de pessoas que constituem os muitos grupos de uma sociedade. Essa variação, inclusive, é ponto crucial para o desenvolvimento da sociedade como um todo. O sistema sociedade é o senso coletivo, aquele sistema que os apaixonados por teorias conspiratórias julgam ser um grupo que controla o mundo, quando na verdade, o controle do mundo não está nas mãos de alguns, mas frequentemente escapando dos dedos de todos nós.

A sociedade como sistema não apenas se desenvolve em paralelo com o desenvolvimento do homem, como também articula projeções que possam ser melhor adaptadas para que o próprio sistema permaneça funcional. Quando surge alguma discrepância, ou falha no sistema, surgem os confrontos sociais e algo acontece como expectativa de mudança. Você com certeza já ouviu falar sobre esse tipo de acontecimento. Houveram muitos na história, (mas por favor, não considere as recentes manifestações como algo do tipo).

Sempre que um grupo não concordava com alguma coisa, rebeliões estouravam, as pessoas defendiam seus interesses como julgavam ser necessário e através das justificativas e exemplos que cada lado oferecia, opiniões eram moldadas, remodeladas e recicladas. Por muito tempo houve uma grande variação de ideias dentro da sociedade e durante esse período, as pessoas tinham mais controle sobre suas vidas, pois compreendiam que somente o movimento gera a estabilidade.

Contraditório? Bem, como seria sua vida se você simplesmente se tornasse um refém da inércia? Imagine o marasmo, a preguiça, a falta de ação. Seria tedioso!

Pois bem, a sociedade é um sistema que se reorganiza considerando as ações do passado, adaptando as necessidades do presente e projetando um futuro que seja livre das variações negativas e do desconforto de seus integrantes. Isso garante que a cada geração, a sociedade esteja preparada para oferecer “mudanças” antecipadamente, evitando assim os confrontos que poderiam dar fim ao controle.

E não pense que este é o motivo daquele velho e repetitivo pensamento das gerações passadas de que no passado o mundo era melhor.

Não, isso tem a ver com a forma como acessamos nossas memórias. Apesar de termos tudo gravado, lembramos apenas do que nos é conveniente e agradável, o resto é preenchido com qualquer outra informação que mantenha uma linha de lembrança confortável. E mesmo que isso pareça não ter conexão com o assunto em questão, entenda que por conta dessa característica, as informações que recebemos de pessoas de outros tempos não são devidamente precisas e sim adaptadas.

Continuando; qual é o referencial da sociedade? Deixa eu melhorar essa pergunta. Qual é o sistema operacional da sociedade?

Resposta: o Normal.

Normal:

adj. De acordo com a norma, com a regra; comum.

O normal é um conjunto de regras variáveis amplamente aceito e compartilhado entre os indivíduos que constituem uma sociedade. Ninguém questiona o normal. Tudo que é normal é bem quisto. Mas se em 1930 era normal as mulheres usarem quilos de roupa e os homens cartola, por que hoje não é? Se hoje é normal usar sunga e biquíni, por que em 1930 não era?

Porquê o normal são normas mutáveis!

O normal é a configuração compreensível do sistema que é a sociedade. Todas as variações que se propagam em amplitude podem ser entendidas individualmente por cada um dos integrantes da sociedade que buscam estar sempre em conformidade com o meio, evitando assim que sejam considerados inaceitáveis. Grande parte dessas variações são estabelecidas no comportamento dos indivíduos, em suas definições e preferências. São modificações no sistema que não geram contradições e que dificilmente são colocadas à prova, pois essas “novidades” não são apenas sugeridas e sim inseridas na sociedade.

Funciona assim: surge uma idéia, um grupo de pessoas influentes adota essa idéia, os mais interessados absorvem e propagam a mesma ideia com um tipo de conceito falsamente seletivo e por fim, a sociedade como um todo passa a considerar aquela ideia como algo normal.

Um exemplo bem simples é a aceitação por tatuagens. Veja que hoje é normal ver pessoas tatuadas transitando por todos os lugares. No entanto, por muito tempo no passado, apenas os piratas e índios tinham tatuagens afim de anunciar alguma capacidade, origem ou crime.

Dependendo da sua idade, você provavelmente viu um momento da história em que fazer uma tatuagem era quase uma agressão contra os bons costumes da sociedade. Então as pessoas começaram a ficar cada vez mais interessadas em assumir qualquer tipo de postura que pudesse defini-las e as tatuagens ganharam espaço e aprovação. Você provavelmente conhece pessoas que se arrependeram de tatuagens que fizeram e pessoas que fizeram tatuagens que simplesmente não dizem nada ou que não representam absolutamente nada sobre a pessoa em questão. Isso acontece quando algum novo conceito é absorvido sem definições. A tatuagem não é mais um modo de acentuar as características de uma pessoa ou de revelar detalhes pessoais, a tatuagem se tornou um item de decoração do ego e as pessoas se tatuam para fazerem parte de um grupo.

E como é que o sistema avalia se uma inserção será positiva ou não?

É aí que entram as “tendências”. As tendências são como a “amostra grátis” de alguma novidade em fase de testes. Dependendo da repercussão, essa novidade pode ou não ser adequada ao normal. Muitas vezes uma novidade não resiste sequer ao período de teste e como você deve ser capaz de apontar, muitas coisas surgem e desaparecem do nada. (Se você fizer uma pesquisa na internet procurando por “coisas que não deram certo”, você no mínimo vai se divertir bastante.). As vezes acontece de uma tendência ser confundida com algo já aprovado, ou ser adotada por um grupo influente e acabar se tornando alvo de críticas por serem consideradas bizarras. É o exemplo da “calça saruel”.

Mas as tendências não servem apenas para oferecer modificações simples como usar ou não uma calça ridícula. Existem também as tendências de opinião e de comportamento social. Essas tendências são responsáveis pela aceitação banal dos indivíduos sobre algo significativo dentro da sociedade. São elas que transformam situações absurdas ou inaceitáveis em casos “normais”.

Por exemplo, qual deve ser a sua reação durante um assalto? Não reagir, certo? Você deve cooperar com o bandido, deve entregar tudo que ele quiser, sentir medo e não fazer nada. Essa é a recomendação. E é o que você faz, pois caso contrário, você pode acabar ferido ou morto.

É exatamente nesse momento que você se torna um fantoche. Você se transforma num objeto inanimado que sendo controlado por uma recomendação, representa uma ideia. Você não reage por estar condicionado a um comportamento que foi devidamente inserido nos costumes da sociedade e que de tão eloquente, sobrepõe seu instinto de sobrevivência que naturalmente te faria reagir. Ou seja, o adestramento é mais poderoso do que o natural!

Isso não seria um problema se a falta de reação fosse um modo de proteção que visa evitar o atrito que poderia causar maiores danos, mas você não deixa de reagir por entender os riscos. Você sequer avalia a situação enquanto ela acontece, pois em milésimos de segundo você é tomado por um pânico impossível de ser definido, mas que posteriormente será convertido em fúria e frustração.

Pessoas comuns relatam a experiência de assalto de dois modos; uns potencializam tudo e fazem parecer que sofreram um atentado terrorista. Falam como se uma faca fosse uma granada; outros transformam o ocorrido numa oportunidade não aproveitada de dar uma lição no criminoso. Dizem que por pouco não reagiram e que tiveram inúmeras oportunidades de desarmar o bandido e surrá-lo até a morte.

As pessoas que potencializam são aquelas carentes de atenção e interesse alheio e que sentem-se importantes quando são vistas como vítimas. Já aquelas que poderiam, mas não reagiram por escolha, são pessoas que precisam zelar pela atenção e interesse alheio que já conquistaram.

Nos dois casos, a hipocrisia empregada é perfeitamente compreendida por quem ouve os relatos, no entanto, todos ouvem e participam da mentira, pois em algum momento poderão ter algo para contar e oferecem seu consentimento esperando que o tenham de outras pessoas em um momento qualquer.

Esse tipo de atitude está presente em muitos cenários e situações dentro da sociedade e age como um tipo de política da boa vizinhança. Mas por quê? Ora, de que outra forma as pessoas poderiam se sentir como uma princesa numa torre esperando a salvação ou como um herói num cavalo lutando contra um dragão?!

Essa hipocrisia social é um modo para que os indivíduos possam experimentar sensações que o sistema não permite existir em situações reais. Uma pessoa não desmente a outra por saber que a qualquer momento poderá mentir também.

Infelizmente esse é o modo que a sociedade está evoluindo e como dito anteriormente, a culpa não é sua, mas a responsabilidade sim.

Você é um ser capaz de raciocinar, mas não raciocina. Você é capaz de aprender, mas desiste de qualquer lição depois de ter aprendido a imitar os outros. Você tem o poder de revolucionar o mundo, mas insiste em ser um estúpido acumulador de likes. As gerações passadas não souberam te preparar, mas você com certeza é uma decepção maior do que eles poderiam calcular. Lembra-se de quando você era criança e ouvia os adultos dizerem “as crianças são o futuro do Brasil”? Olhe em volta mais uma vez; esse é o seu melhor? É assim que você corresponde a tantas expectativas? Eu sinto vergonha da minha geração!


Na sua opinião, por que os jovens de hoje não se levantam para um idoso sentar no transporte público?

Minha resposta é: a maioria dos idosos de hoje reconhecem que foram ineficientes no preparo e educação de seus filhos. Esses idosos, pais e avós, se sentem constrangidos e culpados, afinal, eles são capazes de assimilar a realidade. No entanto, como também estão sob a influência do sistema, ao invés de tomarem uma atitude educativa, escolhem a patética conduta de tentarem se redimir com seus netos. Então, quando saem com os netinhos e usam o transporte público e encontram apenas um assento disponível, colocam a criança sentada e viajam de pé. Essa criança se acostuma e cresce achando absolutamente comum estar sentada enquanto alguém mais velho está de pé. Logo, para os jovens de hoje, não existe nenhum tipo de senso social ou de civilidade que os faça levantar.

Mas e você que não é um desses jovens, por que não se levanta? Porquê você vê na mídia de tempos em tempos noticias que falam desse assunto sempre citando os jovens com seus fones, óculos, ou sono fictício, e, por conta de um pensamento medíocre, você considera que ao não se levantar e deixar aquele idoso de pé, em algum momento alguém mais jovem do que você irá ceder o lugar e sem que nada seja dito, você se sentirá como parte de um processo educativo. É a mesma coisa quando você não dá dinheiro para um morador de rua e se justifica internamente dizendo que não vai dar dinheiro para não financiar o uso de drogas daquela pobre criatura. Não importa o método que você usou para concluir que se trata de um viciado, a questão é a necessidade que você sente em justificar para si mesmo algo que você fez por escolha pessoal. E tudo isso é tão ridículo que se você estiver acompanhado por alguém que deseja impressionar, você se levanta e deixa o idoso sentar para demonstrar a civilidade que você sabe não ter; e você da dinheiro para um suposto viciado para demonstrar uma benevolência que você nunca teve. E ainda diz alguma coisa patética do tipo “faço minha parte” como se isso fosse uma bela propaganda da sua índole. E voltamos para aquela hipocrisia social… a propaganda funciona. Quanta mediocridade!


Eu poderia preencher páginas e mais páginas com os mais diversos exemplos de conduta. Poderia ir bem fundo nos apontamentos de como os indivíduos dessa nossa sociedade são como cordeiros apavorados seguindo as orientações de um lobo disfarçado. Mas seguindo pela linha de raciocínio que me trouxe até aqui, sei que de nada valeria empenhar-me em fazer isso, pois você muito provavelmente reagiria da mesma forma como sempre reage diante do que te contradiz. Por mais que você considere possuir conteúdo suficiente sobre muitos assuntos, sua maior ignorância é sobre si mesmo. E você é tão pouco inteligente que se recusa a ao mesmo ponderar que de fato é um tapado. Você não se interessa pela compreensão do seu lugar na sociedade e. o sistema soube como criar essa falta de interesse.


Vejamos; qual a semelhança entre Einstein, Mozart, Beethoven e Michelangelo?

Todos eram gênios de seu tempo.

Esses quatro homens (e existem outros tantos) foram capazes de criar e realizar obras e feitos considerados até mesmo pelo sistema como frutos de genialidade. Tanto é que ainda hoje os quatro são considerados em grande estima e todos nós sabemos que o trabalho deles possui extrema importância para a cultura e ciência mundial. E como definir um gênio?

Penso que um gênio é aquele que consegue perceber a verdade que permeia as ilusões da realidade que ajudamos a construir. Pessoas comuns têm acesso apenas ao que lhes é necessário para continuarem com suas vidas. Os resultados são apreciados, os processos desprezados!

Um gênio é aquele que vê além do figurino cheio de ricos detalhes e consegue transformar o que absorve em algo palpável para quem vê apenas cores e brilho. Michelangelo, por exemplo, quanto questionado sobre os processos de criação da estátua de David, disse que apenas tirou o excesso. É sensacional!

Pense nisso; quanta “camuflagem” existe na sua vida?

Pois bem, hoje não temos mais qualquer criação que esteja propensa a durar por séculos. Tudo o que criamos ocupa um espaço pequeno e nos serve por apenas alguns instantes. Somos efêmeros demais para criamos algo duradouro. Estamos perdendo nossos grandes artistas e não estamos conseguindo repor. A banalidade e a falta de interesse da sociedade não favorece o desenvolvimento de pessoas com capacidades além do óbvio. É por isso que continuamos apreciando sempre as mesmas coisas antigas, pois tudo que é novo fica velho cedo demais e se decompõe sem deixar rastros. Não existe mais legado!

Sabe qual é a grande diferença entre o nosso tempo e o daquele gênios? Sabe por que você não consegue criar mais nada? Você consegue imaginar um motivo forte o suficiente para anular toda sua criatividade?

Bem, é justamente essa a questão de todo este enredo, e, o que eu espero ser capaz de articular na próxima parte para que essa confusão de palavras e pensamentos não seja apenas um conflito de interpretação. O que vem a seguir é sobre a fonte de todo controle que você sofre. É sobre o limite, as linhas invisíveis, o figurino, o teatro, a platéia, a vaia e o aplauso, o sim e o não, o eterno talvez da sua vida. É sobre o que te faz fantoche e te convence que assim é melhor. É a maior ferramenta do sistema. É a criação mais magnífica da sociedade dentro da sociedade.

Meus caros, eu vos apresento; O Discurso.

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