Plataforma da linha 11 Coral

Os patrocinadores do caos; parte 1.

Quem patrocina favorece, quem realiza sofre!

A desordem coletiva e o desconfo social são os dínamos que impulsionam a qualidade de vida nesta ladeira de mediocridade popular que estamos sempre tentando atribuir à falta de infraestrutura e cunho social.

No entanto, somente por hipocrisia ou profunda ignorância, alguém se atreveria a se considerar inocente na manutenção desta vida vergonhosa que vivemos no Brasil.

Eu imagino que este não seja um assunto novo pra qualquer pessoa, mas já que não dá pra conversar com alguém sem ser interrompido pelo “tão necessário” Whatsapp, vou escrever meu pensamento sobre o tema.

Nessa primeira parte, vou falar da CPTM — Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, que na minha opinião é a segunda pior empresa de prestação de serviço atuante no momento. Logo, uma patrocinadora do caos.

Por minha própria observação, vejo que a baixa qualidade do serviço não depende exclusivamente da CPTM. Os usuários são também responsáveis pelo desconforto que sofrem todos os dias. O caos surge na soma da incompetência da CPTM e da estupidez dos usuários. Seria justo dizer “excesso de burrice”, mas pra não ser tão agressivo, pense que o resultado é falta de logística.

Usando apenas a estação da luz — histórica e com linhas de integração — como exemplo, observe a situação.

A estação da luz oferece integração entre duas linhas da CPTM: linha 7 Rubi e 11 Coral e duas linhas do metrô: linha 1 Azul e 4 Amarela.

Existem 4 plataformas, sendo que as duas centrais (2 e 3) são apenas para desembarque, salvo quando existe alguma necessidade operacional. Para cada plataforma de embarque (1 e 4) existem duas escadas fixas e duas rolantes. Para o desembarque na plataforma central existem quatro pontos de rolantes cada extremidade; duas rolantes paralelas e uma fixa paralela à uma rolante. A plataforma central serve só para desembarque, mas das 09:00 às 16:00 e das 21:00 ao término das operações, uma das escada rolantes fica subindo.

Por que uma escada subindo para uma plataforma em que todos descem?

Traduzindo; para que os funcionários da estação não fiquem com as pernas cansadas.

Agora pense num trem lotado de pessoas chegando nessa estação. A plataforma e as escadas ficam lotadas em questão de segundos. Mas tudo bem, a estação da luz não foi projetada para um fluxo tão grande de gente. Num trem cabem muitos passageiros. Então pense em dois trens lotados. Eis o caos!

CPTM — existe uma central de controle que coordena a velocidade, tempo de parada e momento de chegada dos trens. As vezes o trem para é os usuários ouvem: “paramos para aguardar a movimentação do trem a frente” ou “estamos aguardando liberação para prosseguir viagem”. E então, dois trens chegam na estação ao mesmo tempo; um na plataforma 2 e outro na plataforma 3, e aquele mar de gente entope as escadas.

USUÁRIOS — se os trens estão lotados, isso significa que todos os assentos estão ocupados e muitos passageiros estão de pé ocupando os corredores. No momento do desembarque, qual seria a ordem correta de saída do trem? Primeiro aqueles que já estão nos corredores e depois os que estão sentados, certo? Mas não é isso que acontece. A pessoa fez o trajeto inteiro sentada e quer descer primeiro.

Na plataforma, todo mundo quer chegar nas escadas rapidamente, vira uma confusão, as pessoas se atropelam, se empurram, se espremem. Já que existe a possibilidade de sair pela esquerda e pela direita, não seria inteligente usar a escada do lado que se pretende sair? Mas não, a pessoa prefere ter de cruzar na frente de quem está descendo pela escada ao lado. Mais confusão.

Os trens vazios saem, trocam de trilho e voltam para o embarque.

Na linha 11 Coral, as coisas funcionam melhor. Os trens saem e chegam com menores intervalos. Já na linha 7 Rubi a coisa é bem diferente.

Na imagem abaixo, lá no fundo existe um farol (bem na seta branca). É um trem aguardando a liberação para próxima viagem.

Nesse meio tempo, a plataforma fica cada vez mais cheia. Afinal, o metrô não é tão lento quanto a CPTM. O trem fica lá, estacionado, até a hora da viagem.

CPTM — por que o trem não aguarda a liberação na plataforma? As pessoas poderiam embarcar conforme chegam do metrô ou da rua e se acomodarem até a hora da partida.

USUÁRIOS — o brasileiro é um povo cansado que adora ficar sentado. A pessoa pode trabalhar o dia inteiro sentada num escritório, mas parece que não é suficiente. Se ela não se sentar no trem, a viagem parece uma tortura.

O caos acontece quando trem chega na plataforma e os usuários lutam para conseguir um assento. Quando as portas são abertas, as pessoas se afunilam brutalmente para conseguir entrar no vagão primeiro. O que poderia ser evitado com a redução do tempo de intervalo, ou com a possibilidade de embarcar aos poucos. Muitos acidentes acontecem nessa hora.

Existem os agentes de plataforma com seus jalecos verdes. São a “segurança contratada”. Geralmente não atuam nos horários de pico, mas transitam pra todo lado no resto do dia tentando representar alguma autoridade, mas só servem mesmo para tirar dúvidas.

São esses “seguranças” que deveriam atuar quando algum usuário denuncia alguma atividade ilegal, mas só tomam alguma atitude quando estão em grupos e contra alguém incapaz de se defender. Leia o texto que escrevi sobre esse assunto AQUI.

Ainda na questão de segurança:

CPTM — favorece o tumulto por permitir o excesso de usuários na plataforma, não oferece um serviço de segurança civil por contratar pessoas despreparadas e não treiná-los para a rotina da estação, são falhos na manutenção de iluminação.

USUÁRIOS — agem como animais, correm sem parar, acumulam-se num mesmo ponto pra poder desembarcar em frente a escada da estação de destino, não respeitam a faixa amarela no chão e mesmo no meio daquela multidão, insistem em focar os olhos apenas no celular.

E esse ponto do vício no celular, ainda gera outro problema que está diretamente conectado a falta de logística da CPTM.

A orientação da estação é ridícula. São inúmeras placas afixadas no teto e uma porção de banners mal feitos pendurados pelas paredes. E se ninguém olha pra frente, imagina pra cima.

Já que a integração pode ser feita em 4 linhas e cada linha é identificada por uma cor, não seria sensatol orientar o fluxo por faixas coloridas no chão?

Do jeito que é, seria eficiente se as pessoas soubessem ler, mas a pessoa está parada na frente de uma placa que tem até seta e não sabe para onde ir.

CPTM — erra por gerar uma poluição visual que mais confunde do que indica.

USUÁRIOS — só sabem olhar para a tela do celular e são todos analfabetos na hora de se orientar pelas placas.

No quesito conforto, tudo fica ainda mais vergonhoso.

A estação está cheia de pernilongos, quase não existem lixeiras e o povo sem educação joga lixo nos trilhos (um dia vi uma contratada para limpeza com vassoura e pá na mão chutar um papel de chocolate para os trilhos), são poucos bancos para esperar o trem, a estação é escura, as plataformas são estreitas demais para o grande número de pessoas, o banheiro está sempre com mau cheiro e aqueles quiosques de comida industrializada que adicionam “aroma artificial” em tudo, deixa a estação fedendo o dia todo.

Nos dias de calor, aquele cheiro de chulé que deveria ser de pão de queijo e o calor dos fornos mistura-se com o cheiro de milhares de corpos suados e gente que desconhece banho e desodorante, então sobe aquela “nuvem” de fedor e calor que não tem por onde sair.

Daí, a CPTM achou que isso era pouco e instalou ventiladores com borrifador nas paredes. Adivinha o que acontece? Chove aquela nuvem fedida! Sem contar na festa que vírus e bactérias fazem num ambiente quente e úmido.

CPTM — não instalou uma estrutura de ventilação eficiente e não percebe que os ventiladores seriam melhores sem borrifar água.

USUÁRIOS — não são higiênicos.

Ainda sobre o conforto, não existe elevador na estação da luz. Ou seja, pessoas com mobilidade reduzida sofrem. Eu já vi um cadeirante ser carregado pelos “seguranças”.

Gastam fortunas para pintar a estrutura e não podem instalar um elevador?

O banheiro — quando funciona — é pior do que de posto de gasolina de beira de estrada. Se você ficar com sede vai morrer de sede. Se você sofrer uma queda, reze, eu nunca vi nenhum bombeiro na estação. As bilheterias são mínimas e recarregar o bilhete é o drama que todo mundo já sabe. Para fazer integração entre a linha Amarela com as linhas Coral e Rubi, você precisa dar a volta pelo acesso da linha Azul. Existem três bloqueios desativados que só servem para “controle de fluxo”. E tem uma goteira lá que deve ser de estimação. Ainda bem que colocam um balde pra recolher a água que cai bem na frente de uma das escadas rolantes de saída.

Sozinha a CPTM é responsável apenas pelo péssimo sistema de manutenção. A linha 7 Rubi, por exemplo, está em obras de “modernização” a pelo menos 5 anos e é frequente os intervalos ainda mais longos, domingos ou feriados sem serviço, falhas e mais falhas técnicas, estações sem atendimento… e se chover… vish

Enfim… A CPTM favorece o comportamento medíocre dos usuários que estão sempre insatisfeitos, e com razão de estarem, sendo então uma patrocinadora do caos.

Todos os dias a estação da Luz torna-se um inferno por tanta desordem. E tudo poderia ser evitado, ou ao menos reduzido, se houvesse uma logística mais eficiente que não só orientasse melhor os usuários, como também fosse motivação para um comportamento mais adequado.

A estação da Sé, por exemplo, que conta com um fluxo semelhante ao da estação da Luz, também está sempre congestionada, mas em virtude da logística eficiente do metrô, tudo acontece e funciona melhor.

É um tanto bizarro, mas uma multidão é sempre ignorante. No entanto, quando dentro de um sistema organizado, essa multidão ignorante passa a ser bem mais civilizada. Ou seja, se a CPTM não permitisse o caos, o povo não o realizaria.

Tudo acontece num efeito dominó, e o povo tem muita culpa, mas se pagam o preço que a empresa determina pela prestação de serviço, me parece bem justo que recebam mais qualidade.

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