RESPEITEM MEUS CABELOS BRANCOS…

Porquê… Porquê sim!

Recentemente eu escrevi e publiquei um texto que me trouxe uma velha e desagradável lembrança sobre algo que aconteceu na minha vida e que eu sei não ser um caso isolado e particular. Sabendo que a minha conduta em relação ao ocorrido não é a mesma atribuída à outros tantos casos similares, tal lembrança me fez pensar sobre como a sociedade se impõe sobre o assunto.

O que fazer quando o epicentro de um problema é um idoso?

É comum o pensamento de que o erro não envelhece. As pessoas se espantam de um jeito diferente quando o “infrator” de qualquer princípio social é alguém de idade avançada, como se fosse inevitável que o tempo pudesse curar uma personalidade “desvirtuosa”. Como se cabelos brancos reagissem divina ou quimicamente sobre uma pessoa.

É também comum, quase como uma regra básica, que os pais eduquem seus filhos sob o princípio de que deve-se respeitar um idoso acima de tudo. Não existem maiores definições sobre quando e como deve ser esse respeito, tudo se resume ao conceito rígido de que assim deve ser e ponto.

Talvez esta seja uma característica social que vêm através das gerações desde um tempo em que os idosos eram portadores de maior sabedoria por conta do maior número de experiências que tiveram. É certo que a vida se repete em ciclos e que esses ciclos podem conter algumas gerações inteiras. Logo, é óbvio o conceito de que aqueles que estão presentes na conexão de uma geração e outra, possam transmitir o que viram, sentiram e aprenderam com as experiências que sofreram. Mas os tempos mudaram, a sociedade sabe como ter acesso a muita informação sobre o que ocorreu ontem e muito mais atrás. Isso não torna o idoso uma fonte obsoleta de informação, contudo, a não exclusividade elimina o valor absoluto. Os idosos deixaram de sentir a responsabilidade de serem os portadores da experiência e para não serem apenas seres cansados que vivem simplesmente como laços entre as gerações, voltaram a ocupar espaços dentro de uma sociedade cada vez menos acessível à eles.

Estudando o passado nos deparamos com os anciãos, hoje só existem velhos!

Nós somos seres que vivem em sociedade e por isso, precisamos fazer parte, precisamos sempre ter alguma necessidade dentro do meio. Ao realizar uma função, temos a oportunidade de conquistar o reconhecimento alheio e em consequência o respeito daqueles que vivem ao redor. O idoso têm esse respeito, não pelo que realiza, mas por conta daquela regra básica, que juntamente com a “desvalorização” do idoso como fonte de conhecimento, tem gerado a falta de comprovação do que torna a própria regra em uma “obrigação social”.

No tempo dos anciãos, as pessoas os respeitavam e entendiam tal respeito por terem acesso aos resultados das ações de quem ocupava um lugar de tanto prestígio. Mesmo que ainda sejamos educados de modo a considerar os idosos em melhor estima, não temos exemplos que reforcem esse respeito. Ainda nos falta uma postura em relação ao assunto, mas observando o modo como tratamos nossos idosos, podemos comprovar isso. Sem serem considerados como fonte de conhecimento, e, não conseguindo acompanhar a velocidade da sociedade, os idosos quase sempre são tratados como peso morto. Ainda assim, sempre que um idoso é apontado como ladrão ou pedófilo, por exemplo, a sociedade reage como fosse impossível ser verdade. Talvez pelo apego ao conceito de que o idoso é um indivíduo respeitável, ou quem sabe, pela pobreza de espírito que é viver uma vida inteira sem aprender lições importantes, necessárias e (que deveriam ser) inevitáveis.

Sim, é um raciocínio absurdo, mas só não vê isso quem não quer!

Numa cidade como São Paulo, se generalizarmos, temos três tipos de idosos;

⁃ aqueles cansados, que passaram uma vida inteira de miséria e que não conquistaram nada. Que vivem na mediocridade oferecida por um sistema totalmente ultrapassado, sustendando-se com uma aposentadoria vergonhosa.

⁃ aqueles que conquistaram qualquer tipo de sucesso social e que agora se sentem perdidos por não saberem conviver com a anestesia da velhice que os impede de continuar com o que sempre fizeram.

⁃ aqueles que simplesmente não aceitam os reflexos da passagem do tempo e que insistem em fugir para uma fantasia onde são “modernos” o suficiente para serem vistos como alguém fora de seu tempo.

Esses três tipos de pessoa têm uma única coisa em comum: frustração.

Como você se sente quando frustrado? Agora pense em como deve ser ter duas ou três vezes mais tempo sentindo a mesma coisa, sem a disposição de correr atrás de mudanças.

Eu tenho o prazer de me considerar uma pessoa esclarecida o suficiente para não ser só mais uma ovelha recebendo comandos, mas no momento em que eu tive de decidir agir ou não diante de uma situação que envolvia um indivíduo que eu cresci sendo condicionado a respeitar, confesso que na balança dos meus princípios houve demora para decisão. E o que me fez decidir não foi o adestramento que recebi, mas um pensamento que me acompanha desde então; não me importa como alguém chegou onde está, mas sim o que faz nesse lugar.

Não existem justificativas para o erro, mas uma pessoa de idade fazendo algo que seria imperdoável até mesmo na imaturidade e irresponsabilidade de um jovem, torna o erro ainda mais inaceitável!

Eu não pretendo educar meus filhos com aquela regra básica. Não quero que ofereçam respeito simplesmente por conta de rugas e cabelos brancos. Meus pais me ensinaram: respeite os mais velhos. Eu ensinarei: respeite as pessoas que se fazem respeitar.

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