Teorema do Eu

JAWs
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Nov 2 · 16 min read

Nota: Este teorema tem como único objetivo compartilhar um entendimento que sequer pode ser considerado conclusivo. Serão publicadas três partes seguindo uma linha de complexidade que visa transformar um tema difícil em um discurso de fácil entendimento. Em nenhuma circunstâncias é do meu interesse ditar normas ou ensinar alguma coisa, tudo aqui serve apenas para nos permitir debater e fazer perguntas melhores. Essa é a minha visão e a sua será muito bem vinda se quiser expor. Por fim, saiba que sou responsável pelo que está escrito, não pelo que você irá interpretar.

Primeira parte

No início de tudo não havia unidade, tudo era o todo e o todo estava em tudo.

O surgimento da unidade transformou tudo que havia, causando o conflito eterno resultante do afastamento entre o ser e o todo.

Hoje a unidade nos surge como uma consequência inevitável de uma natureza que só produz itens únicos. Tudo é único, nada é idêntico por mais semelhante que pareça ser. Cada um é um e quando não é, como no caso de gêmeos, mesmo uma genética absolutamente idêntica irá gerar indivíduos ímpares no decorrer de suas vidas.

Nós, seres humanos, somos bilhões de unidades distintas de uma mesma série de criaturas que coexistem umas com as outras através de um sistema chamado sociedade. Esse sistema, criado e mantido por nós mesmos, é o que define o quanto de influência podemos deixar fluir desde nossa natureza individual até meio social. A sociabilidade é a cartilha educacional do indivíduo que faz parte do todo enquanto é único.

No entanto, o afastamento gerado pela identificação da unidade para além do todo, nos fez distantes da harmonia universal que coordena tudo que existe de forma autônoma e equilibrada através de leis fundamentais como a física, o tempo, a gravidade, a causa e o efeito, o caos e a ordem... Ainda que estejamos sujeitos as influências dessas grandezas, os limites e as determinações do sistema universal já não nos controla simplesmente. Ao nos identificarmos como seres independentes da organização geral por conta de nossa capacidade racional, deixamos de ser dependentes de um sistema que visa o equilíbrio acima de qualquer vontade. A vontade é uma característica humana, na natureza o que existe é instinto!

Nós que somos seres dotados de razão, entendemos que tal capacidade nos torna superiores a todos os outros sistemas de vida ao redor. Religiões, filosofias e doutrinas nos colocaram em um patamar de prestígio como se fossemos o produto de um interesse especial de forças celestiais e divinas. Somos a última criação de Deus, feitos a sua semelhança. Mesmo sabendo que fomos nós que criamos o discurso que nos enaltece, seguimos com a vida acreditando que o eco das determinações do passado são como o lembrete de que somos especiais.

Em nome desse fantástico embasamento, muito do que poderia nos fornecer respostas válidas sobre o que somos, se perdeu por sermos incapazes de considerar a razão como uma simples característica da espécie, da mesma forma que toda e qualquer outra espécie possui características únicas. Isso nos fez e faz desprezar quase que em totalidade todo e qualquer tipo de resultado negativo para com o meio que produzimos em nome do nosso progresso.

O ser humano está dia após dia destruindo o mundo em que vive por ser extremamente apaixonado por si mesmo e absolutamente incapaz de compreender que suas ações são profundamente egoístas.

O homem é o câncer do mundo!

Essa verdade, ainda que represente sentido para nós, não nos é suficiente para qualquer tipo de transformação realmente válida. Mesmo que nos seja facilmente perceptivo o modo como vamos avançando contra a natureza consumindo seus recursos e destruindo tudo pelo caminho até que não sobre mais nada, somos incapazes de assumir que somos os mercadores da devastação, que somos totalmente irresponsáveis e que nenhum progresso jamais poderá justificar de fato tudo o que destruímos e iremos destruir.

Todos os processos evolutivos e de transformação que nos trouxeram até aqui, criaram em nós uma ferramenta extremamente eficaz em nos fazer cegos para com os efeitos da nossa absoluta falta de preservação; uma personalidade apaixonada pelo sucesso do sujeito em que vive.

Durante séculos o homem tenta decifrar sua própria existência e comportamento, assumindo assim que apesar da nossa insistente alto-valorização, se deixarmos de nos considerar meros animais com a razão como característica de espécie, não sabemos ainda qual é o nosso papel no espetáculo que é a vida. Mas existe aí, em meio a toda essa tentativa de definição de si mesmo, uma informação importante que é desprezada por sermos constituídos de uma personalidade apaixonada; toda tentativa de definir o homem tem o próprio homem como ponto de partida. E isso implica que apesar do interesse em saber, existem barreiras naturais criadas pela valorização e instinto de preservação de si mesmo. Esse amor disfarçado e reforçado por doutrinas de super apreciação nos impede de considerar que somos algo mais simples e menos interessante do que talvez sejamos. O homem jamais irá considerar que é o resultado de uma série de circunstâncias pouco agradáveis, pois isso lhe tiraria o mérito belíssimo ao qual ele já está acostumado. Se você quiser ler sobre uma teoria que foge dos cenários maravilhosos e cheios de fantasia sobre a origem humana, clique AQUI.

Pois bem, o ser humano sente satisfação em se colocar em um patamar de prestígio por ter uma mente racional, mas sejamos francos; não é bem assim. Nós não somos tão racionais quanto julgamos ser e isso é facilmente comprovado ao se observar o comportamento da espécie. Veja, nesse ponto da existência humana, depois de todas as revoluções e transformações que causamos ao mundo, ainda estamos poluindo as águas e o ar, ainda estamos queimando árvores, levando animais à extinção... Nós mentimos, sentimos inveja, criamos teorias até mesmo contra as vacinas... Nós produzimos e nos divertimos com conteúdos inúteis todos os dias, coisas absolutamente banais e ridículas fazem parte do nosso dia a dia sem nos causar qualquer tipo de espanto. Bem, isso não é comportamento de um ser racional. Mas existe uma característica ainda pior, algo que demonstra que independente de toda evolução, nós ainda somos animais, e um tipo de animal terrível: nós matamos.

E não se engane, a violência faz parte da natureza humana e nós apenas tentamos disfarçar isso. Se você parar para olhar o mundo, verá que desde sempre, não importa o momento da história humana, nós estamos sempre demonstrando nossa violência em guerras, conflitos, genocídios, homicídios, agressões... Nós criamos modalidades esportivas onde pessoas se agridem por dinheiro. Pense nisso; nós consideramos esporte, vibramos, torcemos e nos distraímos com lutas físicas cheias de agressividade entre pessoas que se espancam apenas para ganhar dinheiro, é absurdo! E novamente é nossa personalidade apaixonada que nos faz colocar essa verdade sob panos quentes cheios de mentiras mais confortáveis e agradáveis. E isso não é algo só de você ou de mim, isso é nosso, de toda espécie.

Nós somos escravos de uma série de instintos que tentamos suprimir para continuarmos a viver em sociedade. O nosso grandioso troféu que é a razão, faz de tudo para que deixemos a angústia de nossa pequenez afastada da nossa avaliação pessoal, mas ainda assim, quando sozinhos e contemplativos, o pensamento de insignificância nos surge causando uma série de contestações que nos fazem duvidar sobre o que somos e sobre nosso papel em tudo isso. Quando tais pensamentos te surgem, de onde você extrai os argumentos contrários que te fazem deixar de duvidar sobre si mesmo? De onde vem o discurso enfático que rapidamente te subtrai as dúvidas e te enche de certezas sobre sua própria grandiosidade?

A sua personalidade apaixonada é um produto, um resultado estabelecido por um emaranhado de transformações e repercussões que sempre teve como objetivo principal a sua alto preservação. Você precisa estar bem o tempo todo e para isso é necessário que você não apenas se identifique, mas que se sinta necessário. E acredite, todos nós passamos pelos mesmos processos deterministas para o desenvolvimento dessa personalidade.

Ao nascer, somos caos! Mas distante dos detalhes visíveis que sempre nos encanta ao olhar um bebê, somos uma confusão absoluta de instintos e emoções virgens que reagem de forma desordenada com o meio. Toda essa confusão vai aos poucos se organizando em nosso íntimo de forma absolutamente independente da vontade; é necessidade, é efeito natural de seres que se adaptam.

Através daqueles que nos cuidam, começamos lentamente a absorver indícios de que somos alguma coisa e dentro dessas primeiras percepções, elabora-se em nós uma identificação da possibilidade de representação de si mesmo que mais tarde nos fará iniciar o Eu de cada um de nós.

O Eu, ou ego, é parte fundamental para nossa sobrevivência, pois é através do Eu que somos capazes de nos reconhecer como seres ativos e independentes.

Tudo que nos acontece depois disso, todas as ações, sensações, emoções e experiências irão fazer parte da construção de nossa personalidade e a grande vazão de tal personalidade é justamente o ego.

Nossas opiniões, nossa conduta, nosso comportamento e consequentemente nossas escolhas serão sempre respaldadas pelos filtros que o ego torna ativo em nós e que agem como agentes de interpretação do que nos afeta, seja em que nível for.

O mundo é do indivíduo para fora e por mais que tenhamos acesso às nossas sensações, é sobre o que está fora que somos capazes de chamar de realidade, pois não somos capazes de comprovar em existência física e real o que existe dentro de nós. Isso nos faz reconhecer a nós mesmos através dos efeitos que causamos no mundo. É o feedback de nossas ações que nos transmitem a repercussão esclarecedora sobre o que somos. No entanto, em virtude de inúmeros fatores, toda resposta externa é filtrada de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo nosso ego e é por isso que podemos duvidar, questionar e discordar das informações que nos chegam como resultados do que somos ao agir no que está fora de nós. Ao tentarmos fazer um retrocesso histórico, veremos que todas as maldições criadas, infligidas e sofridas pelo homem possui um único fator comum: o egoísmo.

Mas se o ego é nosso filtro de realidade e maestro de nossas ações, como somos capazes de causar tantos danos por egoísmo?

A verdade é que nossa personalidade apaixonada é apaixonada apenas por si mesma, apenas pelo indivíduo que a transporta!

O homem não ama a espécie humana nem o mundo onde vive, o homem ama apenas seus descendentes e isso é fator comum, pois é em nossos filhos que somos capazes de garantir nossa continuidade e o grande objetivo da vida é perpetuar.

Não é difícil entender que o ego, essa parte tão fundamental do nosso aparelho psíquico, é o ponto inicial de toda a devastação, física e aparente, que causamos. Mas nós não temos acesso ao discurso conflitivo do ego que nos inspira a destruição. A nós surge apenas o argumento caprichoso que nos faz acreditar que todas as nossas ações são justificáveis. A culpa é uma instância hipócrita e silenciosa que nos atinge apenas quando existe benéfico instantâneo ao se resolver uma questão negativa. Você não sente culpa pelo aquecimento global, por exemplo, mas se sente culpado ao dizer coisas fúteis e agressivas em um momento de transtorno. Você pede perdão por um discurso bêbado, mas não se incomoda trocando de celular todos os anos mesmo sabendo dos efeitos que tal consumismo descabido proporciona.

Felizmente existem cenários onde somos colocados em uma posição de confronto contra nosso próprio ego. Esses cenários nos fazem perceber que a grande maioria dos bloqueios do nosso real desenvolvimento como indivíduo está justamente nesse apreço exacerbado que sentimos pela criatura que somos mesmo quando sabemos lá no fundo que não somos grande coisa. E se você está em um desses cenários, entenda que tudo escrito até aqui é apenas a introdução para esse exato assunto; como amenizar os efeitos do ego e permitir a transcendência desejada?

A história humana está repleta de exemplos de pessoas que adotaram comportamentos excepcionais para com o meio e para com a humanidade como se fossem seres extremamente evoluídos ao serem comparados com quem lhes fazia companhia em seu tempo. Essas pessoas são até hoje consideradas donas de condutas animadoras e inspiradoras para o resto de nós que continuamos batendo a cabeça nas paredes das limitações de nossas personalidades apaixonadas. Há quem siga seus exemplos, tentando traduzir suas mensagens e desejando incorporar em suas vidas algum tipo de resquício orientador que tais pessoas nos deixaram, mas a transcendência não é uma coreografia comportamental, nem um discurso a ser decorado e repetido, tão pouco é uma receita a ser seguida na expectativa de um mesmo resultado.

Nossa capacidade de reconhecer as confusões e conflitos provenientes do atrito entre a realidade e nosso ego, nos faz sermos carentes de gurus especialistas em transformação, mas isso é freio. Nenhum guru tem o poder de transformar pessoas!

Observe que as grandes pessoas da humanidade, aquelas que realmente fizeram algo significativo e iluminado, sempre nos dizem que a transformação está em você, que é dentro de você que estão as respostas e que ninguém jamais poderá te dizer as verdades que se escondem no seu próprio interior. As pessoas que de fato alcançaram a transcendência são repetitivas no discurso que nos orienta a não sermos dependentes dos ecos de outrem; a transformação não pode ser ensinada, os efeitos não podem ser compartilhados, tudo que se pode fazer é se permitir ser observado e consultado para que o seu exemplo seja estímulo.

Ninguém consegue ensinar os a caminhos da transcendência!

E o motivo é simples; somos todos filhos de uma natureza que só produz itens únicos.

Seguir gurus não nos transforma, apenas nos condiciona. Somos criaturas abastecidas por instintos, adestradas por normas de comportamento, angustiados pela percepção de nossas fraquezas e limitados por nosso receio ao julgamento alheio, logo, somos absolutamente influenciáveis aos estímulos que nos são apresentados com a devida articulação. Sendo assim, adote como ponto de partida a certeza de que ninguém pode transformar a sua essência, mesmo que consiga lapidar suas condutas e/ou adicionar uma lente fictícia entre seus olhos e o mundo real.

Dito isso, vamos ao que realmente interessa.

Estamos falando aqui de um assunto muito complexo. Tão complexo que precisaríamos de uma mentalidade no padrão de Freud para compreender melhor sobre o tema. Mas já que não somos Freud, vamos iniciar essa jornada usando caminhos mais fáceis do que a psicanálise.

Existem três pontos bastante simples que nos ajudam a compreender e reconhecer o quão influenciados estamos sendo por nossos egos de maneira negativa.

- Você não é especial.

Entenda que se colocarmos em proporção, nós somos praticamente insignificantes diante da grandeza do todo. Somos coisa alguma vivendo dentro de uma imensidão tão absurda que nossa mente e nossos equipamentos são incapazes de mensurar.

O que nos faz imaginar que somos especiais é um discurso patético de nosso ego para evitar que o desespero nos domine pela comprovação de que para o universo é indiferente se existimos ou não. Ao entender isso, ao aceitar que a sua existência só satisfaz a si mesmo, você provavelmente deixará de sofrer uma terrível pressão que é resultado da necessidade de se sentir importante. Toda essa valorização humana é algo muito recente em nossa história. Faz muito pouco tempo que começamos a nos incentivar na apreciação da vida humana, transformando inclusive, algo que no passado foi considerado pecado em algo que hoje nos é comum: a vaidade.

Em contextos bíblicos, a vaidade surge como o primeiro dos pecados, pois foi por vaidade que Lúcifer se voltou contra Deus ao se identificar como um ser independente. Foi com Lúcifer que o até então "nós" se tornou "eu". Existe uma vertente que diz que no momento em que Lúcifer se reconheceu como um, ele se tornou tão pesado que caiu dos céus.

Fora dos contextos bíblicos, a vaidade nada mais é do que uma apreciação de si mesmo, seja por ser como se é, ou por conhecer os caminhos para se fazer parecer ser o que se deseja. Nós incentivamos a vaidade sem perceber que estamos alimentando o egoísmo de cada um, criando assim um ambiente conflitivo dentro de uma sociedade que sofre para se manter.

Ou seja, nós somos seres minúsculos que acreditamos ser especiais por meros detalhes, respaldados por um discurso patético que serve apenas para disfarçar nossa insegurança e como efeito imediato, fortalecemos nosso egoísmo sabendo que este é a causa de todo o mal que já existiu.

Então, para começar trabalhe isso em você, entenda que mesmo com os discursos afetivos de sua mãe, você é só mais um ocupando um espaço que só é justificado com ações realmente significativas, mas que mesmo assim, o raio de ação da sua conduta é muito menor do que você foi treinado a considerar. Além disso, mesmo que em virtude de muito empenho e dedicação você cause algo importante, é pura vaidade esperar elogios e gracejos já que um ser racional que não exercita suas capacidades e realiza coisas notáveis é só um inútil gastando oxigênio.

- A preguiça é fruto do ego.

Preguiça é a escolha pela não-ação. A preguiça não é um sentimento, ela é uma determinação do ego que nos faz recusar a urgência das ações sempre que houver a possibilidade de retardo, ou sempre que por oportunismo possamos deixar que outros façam em nosso lugar.

A grande maioria dos comportamentos são ditados pelo ego, mas a preguiça é filha do ego. Ela é criada, elaborada, defendida e justificada para que o preguiçoso não se convença de estar cometendo um erro por não cometer coisa alguma. Uma pessoa preguiçosa, se tomada por um súbito de clareza, entenderia que é vergonhoso desistir de agir se garantindo em uma argumentação sem sentido, mesmo quando sabe que está escolhendo o não agir sem qualquer impedimento significativo. Mas vejam, todos nós sabemos quando estamos com preguiça. A preguiça não é algo que surge em silêncio e que demora para se declarar nos causando espanto, não, a preguiça é evidente, é assumida em nosso íntimo desde o momento que surge e ainda faz questão de nos informar qual o alvo de nossa moleza. Sempre que dizemos "uma preguiça boa", escolhemos o termo preguiça por sabermos que há o que fazer nos esperando para ser feito.

Trabalhe também a determinação. Saiba reconhecer a preguiça como um comportamento a ser rejeitado e use esse breve ciclo que é a vida para fazer alguma coisa.

O trabalho é necessário, o descanso é merecido, mas a preguiça é patética!

Se é de seu interesse amenizar as influências do seu ego, transforme a preguiça em um obstáculo para o seu desenvolvimento e sempre que ela surgir, crie ânimo se inspirando na certeza de que a vida é apenas um piscar de olhos dentro desse infinito que nos abriga. Assim você se desenvolve, se torna mais eficiente e evita que as pessoas conectadas a você tenham sempre que socorrer a responsabilidade que você por preguiça não resolve.

- Vitimismo é poluição.

Imagine duas pessoas discutindo; uma delas grita, gesticula, ameaça, joga coisas, fala um monte de besteiras... A outra fala baixo, sorri, questiona e ouve. Se você já passou por isso, sabe que para uma pessoa exaltada não existe nada mais ofensivo do que uma pessoa calma.

Nesse caso, a discussão ocorre entre uma pessoa emocional e uma pessoa racional. O conflito vai muito além do tema e das palavras, é o comportamento que mais afeta. Uma pessoa tomada por emoções se torna fragilizada e tudo lhe parece ofensivo, mesmo que seja o simples silêncio. Em tais circunstâncias, o ego busca proteger o indivíduo criando um sistema complexo de argumentos e memórias para transformar o indivíduo em vítima. É por isso que em discussões de casais algumas coisas são ditas de tempos muito antigos. O ego tenta transformar a pessoa em vítima para que o seu discurso cause o sentimento de pena. Mas você não gosta que sintam pena de você, não é? Mas mesmo assim se faz de vítima até que tal efeito seja alcançado.

A grande questão até aqui é que o vitimismo te impede de perceber as oportunidades de se resolver a situação de forma menos prejudicial. É por vitimismo que uma discussão rende dias e mais dias de afastamento.

Mas o vitimismo não afeta apenas casais em crise, o vitimismo tem sido uma das condutas mais aplicadas nas últimas décadas. Por exemplo, ninguém mais responde perguntas simples de forma honesta se a resposta lhe causar algum tipo de culpa infame. "Você se atrasou novamente?" resposta; "não, foi o ônibus/a chuva/o cachorro que comeu minha carteira". Por que a pessoa não diz simplesmente "sim, me atrasei!"?

Recentemente nós passamos por um período cheio de protestos e discursos de minoria, você notou alguma mudança significativa na sociedade? Você sentiu alguma melhoria nos serviços prestados pelo estado?

Se você observar com clareza todos os protestos e manifestações que houveram, perceberá que por trás de cada discurso o sentido era sempre o mesmo: vitimismo. Todas as reivindicações pendiam para alguma argumentação oportunista, regada de detalhes sensacionalistas ou opressivos transformando a classe que protestava em uma vítima de forças maiores. Tudo isso gerou uma enorme visibilidade e as pessoas, carentes de atenção plural, começaram a usar o vitimismo como ferramenta para serem notadas. Nunca se teve tanto choro, tanta depressão, tanta lamentação como nos últimos tempos. E como justificam isso? Como um reflexo inevitável de uma sociedade antiquada que não sabe acompanhar as mudanças que as novas gerações precisam para sobreviver. É ridículo!

E só por dizer isso eu seria considerado conservador, o que também é uma acusação vitimista, imagine como seria se eu desse exemplos. Mas enfim... Falar sofre o vitimismo aqui renderia páginas e páginas mais, então para resumir, entenda que existe em você uma argumentação inserida por todo tipo e informação que te atinge, que te faz ver as situações contrárias à suas opiniões como uma afronta a sua pessoa.

Não é totalmente culpa sua, mas você foi levado a acreditar que opinião é sinônimo de verdade depois que houve tanto barulho e movimentação para que toda e qualquer opinião fosse respeitada como se isso fosse um comportamento essencial. Mas opinião é apenas um ponto de vista gerado pelos filtros singulares de cada um após ter acesso a alguma informação. Opinião é um comentário simplório, só isso.

No entanto, já que por intermédio da repetição você se tornou uma pessoa vitimista, vale muito a pena que por escolha você tente voltar a ser uma pessoa consciente. O vitimismo nubla a sua capacidade de assimilar a realidade e te obriga a se colocar em uma posição fragilizada enquanto o seu ego se fortalece e te domina.

Para eliminar o vitimismo, a dica é: rejeite tudo aquilo que de agrada de imediato, pois tudo que vai a favor das suas ideias enquanto você for um vitimista, só serve para te iludir com a suposição de que você já alcançou o desenvolvimento necessário.

Comece a escolher o atrito sincero, discuta problemas sérios sem concordar o tempo inteiro e aceite que você também pode ter uma opinião pífia e sem crédito.

Se você aprender a se livrar do vitimismo, verá que as coisas estão tão simples de serem resolvidas que todo conflito te parecerá cômico e dessa forma você será sempre a pessoa racional assistindo uma pessoa emocional se descabelar por puro domínio de suas emoções.

Fim da primeira parte

    JAWs

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    JAWs

    Eu escrevo o que penso e como penso, pois as páginas em branco não me recebem com orgulho e pré-conceitos. Eu escrevo, pois conversar se tornou um drama!

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