Nas trilhas da violência simbólica

Esse não é um texto explicativo, mas uma opinião.

Nas ruas de uma cidade qualquer ou nas ruas do nosso pensamento, formas, cores e efeitos se estendem. O mundo visual nos entrega tais funções e aguarda a nossa percepção agir. Visualizar essas formas pode ser uma tarefa fácil, mas reconhecê-las e aplicá-las de maneira humanizada torna-se um dever complexo ou estou narrando ao contrário?

Foi por essas trilhas, que em uma noite de sexta, tive o primeiro contato com a teoria Gestalt, explicada pelo professor Celso Guimarães. A teoria apresenta-se necessária para a identificação de algumas formas que aparentam serem mais agradáveis para nós do que outras, além de aplicar seus princípios em nossas práticas. Antes disso, vale ressaltar que durante a palestra foi explanado que o conjunto de técnicas não descarta a nossa percepção, pois continua sendo fundamental.


Fui capaz de compreender a teoria Gestalt, a partir do meu relacionamento com o mundo, e nesse caso que vou comentar, foi com as imagens (pinturas, fotografias, criações). O princípio básico da teoria é que o inteiro é interpretado de maneira diferente que a soma de suas partes. Dentro dessa perspectiva analisei a obra ‘Mulher Chorando’ de Pablo Picasso com a teoria.

‘Mulher Chorando’, Pablo Picasso, 1937.

Alguns princípios da teoria estão continuamente nas nossas relações que se tornam imperceptíveis na vida cotidiana, é o caso do quadro ‘Mulher Chorando’. No texto “A imagem como violência” que faz parte do livro “Lendo imagens”, de Alberto Manguel, o texto apresenta as identidades e histórias presente na pintura que oferecem a explicação da imagem.

Dora Maar

A mulher retratada no quadro de Picasso, chama-se Dora Maar, fotógrafa e companheira do pintor durante nove anos. Alberto Manguel relata no seu texto, as violência simbólicas e psicológicas sofrida por Dora. Picasso usou sua agressão contínua na construção de uma identidade de Dora. Aparentemente, um indivíduo que não conheça a história do quadro, vai interpretar de diferentes maneiras a imagem. Na teoria Gestalt, esse ponto é marcado no que diz respeito à imagem racional, o porquê de estar fazendo tal imagem. Nós, no papel de observador, temos o dever de identificar a natureza da imagem.

Por não termos conhecimento do fundamento de tal imagem e por ser seres únicos, estabelecemos pré-conceitos, julgamos e tentamos adequar o outro as nossas características, na teoria Gestalt esse pensamento faz parte do conceito de unidade. Isso é a nossa relação com o mundo, nossos princípios, ideias e visões de mundo, tendem a estabelecer o que enxergamos e o que queremos enxergar.

No entanto, levanto uma questão que enfraquece em vários pontos a teoria Gestalt, no momento em que ela não leva em conta as experiências das pessoas, ou seja, defende que as leis nascem com o ser humano ao invés de serem apreendidas com o passar dos anos. Comparando ao quadro ‘Mulher Chorando’, Picasso não nasceu com tais ideias, obteve durante sua vida, a cultura machista, misógina e covarde consigo mesmo, sendo aplicado em formas, cores e nuances.


Dora Maar não está sozinha, sua imagem desfigurada e construída pela voz de outra pessoa, ainda é realidade na vida de inúmeras mulheres. Seja em Dandara, Luana, Dilma e tantas outras, com histórias interrompidas e silenciadas por outros que se dizem dominar a arte da forma, em mais uma trilha da violência simbólica.