Zumbis de Whatsapp, Preconceito e o Ranço

Tenho dormido mal ultimamente. E por dormir mal, passo boa parte dos dias cansado, desatento, improdutivo. O desânimo às vezes vem junto, especialmente de manhã. Ao conversar com outras pessoas, percebo que não sou o único. Existe uma ansiedade e a preocupação com o futuro que são generalizadas. A causa é clara. As eleições presidenciais do Brasil de 2018. Eleições sempre geram desgaste, mas essas desse ano são claramente diferentes. Um dos candidatos (daqui para frente chamado de Ranço) é abertamente violento, anti-democrático e preconceituoso. Além disso, ele usa WhatsApp para espalhar notícias falsas sobre os candidatos adversários. E várias pessoas acreditam.

Sinto essa ansiedade porque, por esse candidato ter tanto apoio popular a ponto de ter sido o mais votado em primeiro turno e tendendo a ganhar no segundo, parece que uma proporção significativa da sociedade concorda com as ideias dele. Isso me causa a sensação de uma opressão social difusa, em que as opiniões homofóbicas, racistas e sexistas do candidato são compartilhadas por boa parte dos brasileiros. E como se sabe, uma ideia na cabeça pode se tornar um comportamento no mundo externo. Quando um candidato a presidente — um bem popular ainda por cima — sinaliza para a população que certas crenças são admissíveis, as pessoas podem colocá-las em prática. Assim, o custo social de ser preconceituoso diminui, ataques contra minorias se tornam mais frequentes do que eram antes, e atos e falas discriminatórias podem se tornar rotineiros.

Mas isso não é tudo. Pois a violência do candidato não se resume a pessoas desviantes ou membros de grupos minoritários. Ele também incita a violência contra as instituições democráticas do nosso país, que já nem tão sólidas são. Com história de ataques à democracia brasileira, ao legislativo, ao judiciário, o candidato se aproveita de um descontentamento válido que a população tem com suas instituições. O problema é que o discurso do Ranço visa descreditar essas instituições para favorecê-lo politicamente enquanto que o saudável seria propor maneiras de fazê-las desempenharem melhor seus papeis. O resultado é um clima de fúria, um desejo de destruição contra as frágeis instituições que foram criadas para servir todas as pessoas. Tudo isso para “mudar tudo o que está ai”. Como e para quê isso seria mudado não é dito. Passa-se uma carta em branco para um político — abertamente violento e autoritário — para fazer o que ele bem entender.

Há quem diga que ele pode ser parado caso comece a causar muitos danos. Mas será que podemos parar uma bola de demolição que já vem ganhando tanta velocidade? Os seguidores do Ranço já provaram ser leais crentes das fake news que ele despeja. O brasileiro se informa cada vez mais por WhatsApp e menos por outras fontes. Dada a chance de se pronunciar sobre o esquema de compra ilegal de disparos de notícias falsas com caixa 2, o Tribunal Superior Eleitoral decidiu ficar quieto, ignorar o seu papel constitucional para ver o que acontece.

Hoje a máquina de mentiras do candidato tem como alvo prioritário o Partido dos Trabalhadores, Lula e Haddad e em segundo lugar a urna eletrônica e o processo eleitoral. Mas e quando o adversário, o obstáculo do candidato violento for alguma instituição, tal como o Superior Tribunal Federal ou o Congresso Nacional? Haverá algo que possa pará-lo? Ou a reputação (já abalada) dessas instituições resistirá? Acredito que não. Bastará um chamado à ação para que a pressão popular bata à porta dos palácios onde trabalham nossas autoridades. A história nos diz que elas não suportam bem a pressão.

Dada toda essa situação, é fácil ficar preocupado, ansioso, até desesperançoso com o futuro. E de fato quem não está é porque ou não sabe das coisas ou (acha que) lucra com o caos. Mas não dá para apenas ficar acuado, ansioso e desanimado. Há que se viver. Mesmo que em um ambiente cada vez mais hostil à nossas existências. Mas é necessária uma missão, uma mensagem, uma razão para tal. Resistir o movimento da corrente e até andar contra ela requer algo. Que esperança nos faz seguir em frente?