Sobre a censura de Santander

Aviso: esse não é um texto acadêmico, muito menos formal

A exposição Queermuseu foi censurada. Pode não ter sido censurada pela força coercitiva da lei, mas foi censurada por uma sociedade conservadora que viu em suas obras expostas algo que violava a sua moral e violentava seu gosto estético, mas antes que comecemos a atacar o Movimento Brasil Livre por sua posição reacionária e nada liberal, como oportunisticamente diversos membros da esquerda estão fazendo, devemos pensar sobre a natureza dessa censura. A questão é que a censura é mais comum do que se imagina, e ademais, se depender de nós, seria plenamente vigente.

Claro que você pode estar se sentindo incomodado com a última declaração, mas pense bem quantas vezes reprovou uma obra de arte, ou achou que uma música era tão ruim que deveria ser proibida de tocar. Se você pender para um lado mais liberal vai citar aquela clássica frase atribuída a Voltaire (“Posso não concordar…”) e se pender para o outro lado da moeda vai citar passagens de Trotsky em seus escritos sobre Literatura e Revolução ou qualquer outra vertente da Escola de Frankfurt com pingos de pós-colonialismo. Se você pender para algo fora desses dois, não se preocupe, todos nós sabemos que você não é muito favorável à liberdade de expressão. Mas, veja bem, essas formas de censura não são necessariamente danosas, são apenas expressões de você como indivíduo, no entanto quando ventiladas ao debate público podem ser danosas in extremis.

A mentalidade ocidental se vê como dividida entre razão e sensação, logos e aisthesis. Essa diarquia é chata e um tanto quanto batida, mas desde Platão usando Sócrates, o grande leitmotiv da filosofia ocidental foi tentar resolver o problema de distância entre essas duas partes vistas como contrapostas, desde o embate entre empirismo e racionalismo a Kant e até filósofos como Kierkegaard, Nietzsche, Foucault e afins. O ponto que usarei nesse texto é que, na realidade, ambos se confundem para fins dramáticos.

Na realidade, dando um spoiler do meu argumento central no texto é que a moral muitas vezes está mais próxima da aisthesis do que da logos, e isso vai irritar muitos que vem justamente dessa tradição Platão-Kant-filhotes. Explico melhor, a moral muitas vezes é uma forma de “racionalização” do furor causado pelo choque (e o choque é fundamental para a estética, pelo menos na minha interpretação dos conceitos ontológicos do sublime e do grotesco). Esse furor, não é uma questão de dionisíaco ou de apolíneo, mas um literal choque com os seus valores mais básicos e fundamentais.

Cabe aqui uma referência a Terror e Tremor de Søren Kierkegaard. Existe uma divisão implícita em estádios de desenvolvimento do homem nessa obra entre estado estético, estado ético e estado religioso; naturalmente, a transição mais estudada é a do segundo para o terceiro, especialmente com a questão do Sacrifício de Isaac, mas para fins desse texto vou focar na primeira. De forma bastante simplificada, o estágio estético é aquele em que o homem se entrega plenamente aos prazeres das sensações, seja eles a sensualidade, o desespero ou até a angústia, ao passo que o estádio ético é aquele em que o homem se controla e vira o senhor de si mesmo, dado que se pauta pela moral.

No entanto, minha interpretação é que, quando se trata de arte e outras questões que fogem do escopo desse texto, a fronteira entre esses estágios não é tão clara, justamente porque razão e estética se confundem, e se confundem perigosamente, às vezes pela moral. Isso, na realidade, é bastante comum e transvestido de racionalidade… se por um lado o MBL apresenta uma questão de investimento público à arte (erronemanete, na minha opinião, como explico mais abaixo) a esquerda constantemente se posta contra obras de arte, desde ilustrações do Milo Manara para a Mulher Aranha, ao protesto contra o filme do Olavo de Carvalho, a anacronismos em relação a Nabokov e Monteiro Lobato (apesar de muitas vezes concordar com eles, me incomoda naturalmente em relação à minha visão de arte e minha visão de liberdade, afinal, não é porque eu penso sobre o assunto que não estou submetido às questões aqui tratadas).

Outrossim, essa própria questão afeta o que é a “boa arte” por parte de filósofos mui respeitáveis. Se Platão propôs a teoria mimética porque adorava a arte hagiográfica, de influência egípcia, do período arcaico, “hoje” temos Roger Scruton com suas velhacarias sobre o belo clássico europeu contra as hordas pós-modernas com seu relativismo cultural e o sacrossanto Adorno e seu ódio pelo jazz. No fim, quanto desse pensamento não é derivado da moral? Quanto dessa moral na realidade não é só reflexo de seu gosto? Na realidade creio que a pergunta “O que é a boa arte?” deriva em si da pergunta “O que é arte para mim?” e por fim da pergunta que realmente importa: O que é arte?

Comecemos com um pequeno conceito, que é um tanto esquecido porque boa parte da filosofia ocidental crê que Kant saiu vencedor de uma batalha que nunca de fato existiu: a Lei de Hume. Em essência Hume condena a atitude costumeira de confundir o verbo é com o verbo deveria ser (eu sei que é uma locução verbal), o que está expresso exatamente no primeira parte do terceiro livro do terceiro livro do Tratado Sobre a Natureza e na citação ultra batida logo abaixo.

“Em todo sistema de moral que até hoje encontrei, sempre notei que o autor segue durante algum tempo o modo comum de raciocinar, estabelecendo a existência de Deus, ou fazendo observações a respeito dos assuntos humanos, quando, de repente, surpreendo-me ao ver que, em vez das cópulas proposicionais usuais, como é e não é, não encontro uma só proposição que não esteja conectada a outra por um deve ou não deve. Essa mudança é imperceptível, porém da maior importância. Pois como esse deve ou não deve expressa uma nova relação ou afirmação, esta precisaria ser notada e explicada; ao mesmo tempo, seria preciso que se desse uma razão para algo que parece totalmente inconcebível, ou seja, como essa nova relação pode ser deduzida de outras inteiramente diferentes.” HUME, David. Tratado da Natureza Humana. Tradução de Débora Danowiski. Livro III, Parte I, Seção II. São Paulo, Editora UNESP, 2000, p. 509 (copiado da wikipedia)

Ou seja, basicamente, Hume alerta para termos cuidado com afirmações, proposições, elocubrações, etc… que sejam baseadas na moral em sua gênese por serem vazias muitas vezes, afinal são baseados em verbos de possibilidade e ao mesmo temo deterministas como deve ser (eu ainda sei que isso é uma locução verbal), o que acaba meio que corroborando meu argumento. Claro que qualquer aluno de ensino médio que goste de filosofia pode apontar para a resposta de Kant que inventou um imperativo categórico da moral advinda da razão pura- que aliás, se você ainda não percebeu, não concordo muito, mas há um conjuto de razões para eu ter utilizado a Lei de Hume.

Em primeiro lugar, Hume é um filósofo essencial para a ciência como um todo e em especial para a economia que é minha área, essa Lei um tanto quanto cética acaba sendo uma das bases para o empirismo que é a base da ciência moderna- esse é o espaço ideal para os que tem como santíssima trindade Michel Foucault, Jacques Derrida e Giles Deleuze criticarem o meu texto, tudo bem, em geral essa vertente da teoria crítica não sobrevive a um simples “E daí?”- o que é bem legal. Em segundo lugar, o argumento central até agora não costuma ser muito bem aceito, e como se aprende em qualquer curso de redação, isso exige um argumento de autoridade. Em terceiro lugar, eventualmente, é possível que esse texto bata de frente com algum conservador transvestido de liberal e em geral ao topar com Hume, esse tipo de leitor tende a fazer reverências e acaba se perdendo.

Mas, em especial, é porque a pergunta que eu me propus a responder- e ela tem a ver com o tema, eu asseguro- é “O que é arte?” e não “O que arte deveria ser?”. Veja bem, calha pontuar que boa parte da teoria estética se baseia na segunda questão, de Platão com sua mimética presente nos diálogos de Sócrates com Glauco no Livro X de A República a qualquer compêndio de reclamações que o Roger Scruton chama de livro… Quem fala sobre o que é arte é Arthur Coleman Danto (joga na wikipedia para pegar a biografia dele, recomendo).

Pois bem, Danto formulou sua teoria sobre arte, que depois influenciaria toda a Teoria Institucional da Arte, após ver em primeira mão a Brillo Box de Andy Warhol. Aquela caixa de sabão o intrigou, porque, afinal, o que a diferenciaria de uma caixa de sabão brillo normal? Isso levou a outras perguntas como, por exemplo, se a obra em questão seria aceita em outros momentos históricos por, digamos, Picasso, Monet, Goya e por aí vai. Na realidade, Warhol é um artista interessante porque ele é o pináculo junto talvez com Pollock e Picasso do grupo de artistas que os conservadores chamam de arte moderna de forma depreciativa, sem entender muito bem do que falam. Além disso há a questão do Fim da Arte, que merece um texto à parte de tão genial que é.

Para Danto o que difere um objeto corriqueiro de uma obra de arte, é uma aura concedida a ele por uma série de instituições. Ela exige uma teoria da arte que a comprove, um conhecimento de história da arte, um Artworld por trás dele. Esse mundo da arte é o conjunto de críticos, especialistas, museus, marchands, etc… a série de instituições que nos voltamos para perguntar sobre arte.

Isto, em primeira impressão, pode parecer banal “Arte é arte porque alguém disse que o é”, mas isso é mais complexo e assustadoramente verdadeiro que nunca. Pense no seu primeiro contato com uma obra de arte, digamos a Mona Lisa, nunca uma obra foi tão vista, estudada e admirada quanto ela, agora pense no porquê de você pagar tanto para vê-la, pense no porquê de você pensar na mona lisa quando falam em artes plásticas, especialmente considerando as dimensões de fato dela e de hoje em dia as pessoas tirarem selfies até com os sinais de direção para ela no Louvre.

What in the end makes the difference between a Brillo box and a work of art consisting of a Brillo box is a certain theory of art. It is theory that takes it up into the world of art, and keeps it from collapsing into the real object which it is. [Warhol’s Brillo boxes] could not have been art fifty years ago. The world has to be ready for certain things, the artworld no less than the real one. It is the role of artistic theories, these days as always, to make the artworld, and art, possible.

Essa questão da “teoria” da arte é fundamental. Para Danto qualquer um que não participe ativamente das vanguardas ou do Mundo da Arte precisa absorver de alguma forma a “teoria” do movimento em que a obra em questão está inserida, em geral por meio de livros, aulas, ou críticas. Isso se dá porque a teoria de Danto é dependente da história da arte, dentro de um ponto de vista hegeliano, mas falaremos sobre isso mais abaixo. Tal questão de compreender a teoria se mostrou fundamental no final do século XIX e século XX quando a arte ocidental adiquiriu uma velocidade de transformação, evolução e exeperimentação nunca antes vista. Se a passagem do Maneirismo para o Barroco não parece tão radical é porque os artistas impressionistas conviveram com cubistas e surrealistas.

Ou seja, uma das razões para as pessoas torcerem o nariz para a “arte moderna” se dá pelo fato de elas não compreenderem a teoria que a acompanha ou o processo histórico que levou a ela. Isso é bastante útil porque se é fácil se maravilhar com uma pintura de paisagem, não é tão fácil apreciar as Madevoiselles de Avignon ou a Autumn Rhythm: №30 sem entender de onde elas vêm, qual a intenção de Picasso e de Pollock ao pinta-las, etc… ou seja a arte se torna mais complexa refletindo uma sociedade mais complexa (não vou aqui discorrer sobre modernismo e história da arte, evolução da percepção subjetiva, grandes disputas da estética, etc… se não isso aqui vira uma bagunça maior que já está, ou pior, um livro). E o pior, em geral, quando as pessoas não se prostram a fazer todo esse processo, elas acabam considerando aquilo que não entendem como não arte (essa construção frasal confusa deixaria qualquer filósofo analista feliz).

Outra questão fundamental para Danto é como a obra se insere na grande sequência da história da arte, que para a infelicidade dos conservadores de plantão, deixou de ser linear há uns 130 anos. É óbvio que a capa do Velvet Underground & Nico do Warhol não faria tanto sentido para Toulouse Lautrec, e pior, seja La Maja Desnuda (ou a vestida, por que não?) de Goya, seja A Capela Sistina ou a A Vitória de Samotrácia que tanto atiçam o desejo de Roger Scruton e aqueles que dizem que devemos voltar aos braços do “belo” não fariam o menor sentido para Platão, que as odiaria. Não só pela questão do parágrafo anterior, mas porque essas obras tem um papel na linha do tempo que compõe o cânone ocidental. O problema é que com o Fim da Arte (conceito que eu disse que talvez, um dia, faça um texto sobre, mas nada impede que você deixe de ser preguiçoso e jogue no google, ou acesse o link que eu vou deixar abaixo) muitas pessoas simplesmente ficaram perdidas ou presas em determinados pontos dessa linha, arrisco dizer que em 1886 ou por aí que é quando se inicia o pós-imprecionismo.

Em essência, tudo isso mostra que a definição do que é arte para o indivíduo depende da sua educação e das instituições que o cercam. Se por um lado o discurso moralista reflete os gostos pessoais como explicado anteriormente, reflete também as restrições face à arte que todos temos porque fomos criados e educados assim. Há portanto dois grandes pontos que quero levantar nesse final, o primeiro é que as limitações de preconceito que surgem da racionalização da aisthesis limitam a…estética; e que a censura feita de forma “democrática” é mais perniciosa e perigosa que a autoritária.

Se a racionalização e a mistura de conceitos morais e semi-políticos levam a esses embates banais, tanto à esquerda, quanto à esquerda, eles também levam a uma aproveitação longe de ser ótima da arte. Se o objetivo da arte, high art quero dizer, é provocar, então a exposição atingiu ao seu propósito artístico, mesmo que a qualidade técnica das obras que foram expostas seja duvidável. Por outro lado, Lolita provoca a ira em ambos os lados, ergo, ponto para o velho Nabokov, Sítio do Pica Pau Amarelo é interessantíssimo como obra infantil, mesmo que com todos os problemas da década de 1920 e o Milo Manara conseguiu colocar sua arte (que é erótica) dentro de um contexto massificado e, não tão polêmico assim. Ou seja, eles venceram, o MBL e a militância boçal perdeu. O problema é que essas reclamações limitam o aprendizado e apreciação dos queixosos, o que se você é um tanto quanto rabugento não importa tanto, mas há a questão da censura.

Chegamos enfim à questão da censura. A censura “democrática”, no sentido de que é perfeitamente cabível dentro dos adoráveis e sacrossantos limites dessa nossa herança grega, digo americana (ou inglesa? Quem sabe em outro texto…) é muito mais perigosa que a autoritária, porque é mais difícil de conter. Ora pois, para acabar com a censura de um regime autoritário, dado que seja impopular, é relativamente simples, basta acabar com o regime de todas as formas violentas ou não que você queira, às vezes é fácil de burlar enquanto o próprio sistema ou lei está em vigor. O outro tipo que me machuca chamar de democrático, porque na realidade é extremamente antidemocrático (ou antiliberal, mas detalhes são apenas detalhes), é mais perigoso porque não é algo que você consegue argumentar na realidade, a única solução é apostar numa educação artística para as próximas gerações com todas as instituições vigentes.

Por outro lado, arguivelmente o grande facilitador da censura foi a sociedade como um todo manifestado no Santander como instituição, que usa o museu por acreditar na arte ou para fins fiscais, não importa. Ao aceitar a pressão, e não culpo eles, eles mataram um pequeno pedaço da liberdade artística e credibilidade mercadológica que nosso adorado paraíso tropical pode ter, porque na realidade eles fizeram a coisa certa para maioria esmagadora dos brasileiros que, no fim, não conseguem esconder sua velhacaria e autoritarismo quando apertados, e de novo, falo de todos os lados do espectro político. A grande verdade é que o MBL é o reflexo da sociedade brasileira e sua relação com a arte contemporânea, e nada indica que isso vai mudar.

PS: Sobre o investimento público que o MBL odeia. Eu concordo com Adam Smith que uma das poucas atividades que o Estado deve ter por princípio é formentar a cultura. A Lei Rouanet com todos os seus problemas não é a culpada pela escolha da famigerada “arte degenerada” que viola a tão adorada e idolatrada moral da família tradicional brasileira, porque o museu tem autonomia em tese para escolher as obras que vão ser expostas. A discussão do MBL se perde portanto, pois convencer a sociedade brasileira que o Estado não deve financiar a cultura é muito mais difícil que convecer que não deve financiar a exposição em questão.


Um pequeno adendo, esse texto foi escrito com uma certa preguiça e tempo. O que permitiu comprovar empiricamente minhas pobres teses. Se você quiser ver a questão moral vigorando, basta procurar o post do Pondé no facebook sobre o assunto e ler os comentários. Sobre as acusações de que a exposição não apresentava nada perto de arte, basta ler as declarações de lideranças do MBL que dizem que aquilo não é arte ou textos de pessoas que muito respeito, como esse. É aquela velha história, de vez em quando odiamos quando estamos certos.

Decidi firmemente em não colocar nenhuma imagem nesse texto assim como nenhuma citação bem feita, justamente porque seria interessante, apesar da maioria delas ser bem conhecida, que as pessoas procurassem, se dessem ao trabalho. Há razões também para o estilo de escrita e linguagem utilizado, mas prefiro guarda-las para mim. Sobre referências, além da Wikipedia e dos supracitados livros, recomendo esse link abaixo para aprender um pouco mais da obra de Arthur Danto.

https://hyperallergic.com/191329/an-illustrated-guide-to-arthur-dantos-the-end-of-art/