A pior das mortes

Há na morte — e na atuação por parte daqueles que ficam — sempre um enorme pesar. Um luto imenso e aparentemente inacabável.

Eu, do auge dos meus 21 anos, já me despedi de corpos físicos de almas que amava mais vezes que uma pessoa de duas décadas costuma fazer.

Com essa última frase um bom interprete da língua escrita não demora a perceber as minhas crenças. Quer dizer, não demora a perceber que acredito fielmente em reencarnação, almas infinitas, vidas passadas, reencontros de almas e tudo aquilo que o “pessoal” da espiritualidade fala por aí. O meu pessoal.

De qualquer modo, não é disto que vim tratar aqui. Não importa, neste texto, meu posicionamento ou crenças relativas à morte física. O que importa aqui é a constatação de uma morte ainda pior que a morte física: a perda dos dotes culinários daqueles que partem.

É isto.

A constatação fatal de que nunca mais (nesta encarnação) poderemos desfrutar da culinária daquele indivíduo que se despede do corpo físico. Isto porque a comida de alguém, o tempero de alguém e o modo de preparo são sempre únicos. E é, de modo geral, muito difícil reproduzir com primazia.

Cheguei a esta feliz — ou infeliz — percepção em novembro de 2013. Eu tinha 16 anos quando perdi minha madrinha, Janice Godoy. Nessa idade eu já tinha uma boa relação com a perda e, apesar da tristeza, aceitei com naturalidade a partida. O fato é, contudo, que a minha dinda era uma ótima cozinheira. Perfeccionista em vários aspectos.

Me dei conta de que a culinária de cada um é única quando minha família tentou reproduzir um doce que só ela sabia fazer. Algumas tentativas frustradas foram suficientes para perceber o que já sabíamos: nunca mais comeríamos um doce igual aquele. Por melhor que ficasse e por mais perto que chegasse do original, nunca seria o mesmo. E não há tristeza nisso, muito pelo contrário.

A perda física de um ente querido, ou nem tão querido, abre uma lacuna imensa. A pior das mortes: a morte de uma culinária e modo de cozinhar único.

Mas como dito anteriormente, não há tristeza nisso. Pois a morte, seja ela qual for, abre espaço para o novo. Se há uma lacuna após uma grande perda ou despedida, há também espaço para novas coisas. É o clichê dos clichês, mas lamento informa-los: é um ótimo clichê.

Nesta encarnação, não comerei mais o fatídico doce, nem nenhuma outra receita preparada pela minha dinda. Entretanto, levando em consideração que o universo é abundante e infinito, terei — e já tive — inúmeras oportunidades de desfrutar de novos sabores e novas experiências.

Que a pior das mortes — a perda da culinária — não seja um calvário para carregarmos indefinidamente. Seja então, já restabelecida a percepção, uma nova porta a ser aberta.

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