No jogo da imitação o preconceito venceu

“E se eu não gostar dela dessa maneira? Não conte a ninguém, é ilegal.”

Em 1939 a Inglaterra declarava estado de guerra contra a Alemanha. O exército nazista invadia a Polônia e espalhava medo e terror na Europa. Mas “O jogo da imitação”, baseado no livro “Alan Turing: o enigma”, de Andrew Hodges, não conta a história de batalhas, trincheiras, ataques, bombardeios e do cenário de destruição da Segunda Guerra Mundial. Ele mostra os bastidores e a perspectiva do que não aparecia nos jornais, do que não está nos livros de história nem em mídias em preto e branco.

Enquanto Europa Ocidental e Oriental temiam por suas fronteiras e habitantes, a Inglaterra tinha um razoável — mas não suficiente nem milagroso — resguardo contra as forças alemãs em terra, por sua posição insular. Mesmo assim, os ataques ao Reino Unido viriam por ar e mar. Assim como seria pelo ar que a Inteligência do Exército britânico contribuiria para o fim da guerra.

“Cada mensagem alemã, cada ataque surpresa, cada bombardeio e ataque submarino iminente estavam flutuando pelo ar. Sinais de rádio que qualquer estudante com rádio am poderia interceptar. O truque é que eram criptografadas.”

Alan Turing, professor da Universidade de Cambridge, era um prodigioso pesquisador na área de Matemática. Contratado pela inteligência, sua missão era derrubar os alemães por um modo muito mais abstrato do que tanques, armas e homens.

Decifrar as mensagens criptografadas trocadas entre os alemães significava o fim da guerra e a queda de Hitler. Porém, fazer homens testarem uma configuração por minuto, 24 horas por dia, 7 dias por semana demoraria 20 milhões de anos. O desafio era encontrar a solução do enigma em 159 milhões de milhões de milhões de configurações possíveis.

Contra a força bruta e a repetição, Alan Turing projetou com sua genialidade e o auxílio de sua equipe uma invenção inimaginável. Porém, tanto a construção da máquina, quanto a liderança de Turing foram processos problemáticos. A pessoa certa, com a solução perfeita no momento e situações necessários encontrou nos preconceitos da época uma barreira tão sanguinária e genocida quanto o nazismo de Hitler ou o fascismo de Mussolini.

Para mostrar a história e o drama pessoal do protagonista, o filme transita entre três tempos: o ano de 1951, o período da guerra e o começo de sua adolescência. Alan Turing teve clareza de sua homossexualidade desde cedo. Tanto quanto sua maneira peculiar de ser “arrogante” e sincero. Sua inteligência transformou-se em ferramenta de defesa psicológica, há quem possa dizer.

Vítima de bullying, o lado mais interessante de Alan — não o matemático, mas o homem — é sua subversão do senso comum, é sua crítica. Ao ver-se intimidado por seu superior, Alan recorre a ninguém menos que Churchill. Para a surpresa de todos, sua chefia é concedida pelo então primeiro ministro britânico, tornado herói da II GM posteriormente — e com ajuda do próprio Alan.

Sua estratégia para recrutar as brilhantes mentes participantes da equipe foi selecionar toda e qualquer pessoa capaz de solucionar palavras cruzadas em tempo recorde. No enredo, a única mulher da equipe de Alan mostra a posição de gênero na época e a facilidade com a qual o protagonista lidava com a questão. Quase 30 anos à frente da bandeira feminista eclodir nos Estados Unidos, Turing faz de Joan Clarke seu braço direito na solução do enigma.

“O que te faz pensar que eu não conseguiria fazer as palavras?”

Turing lutava contra o tempo e contra a revelação de sua própria homossexualidade. Ela era um risco para sua missão com o Enigma. Numa Inglaterra cujas leis condenaram 49 mil homens homossexuais por atentado ao pudor entre 1885 e 1967, as conseqüências de ser homossexual eram equivalentes à destruição da guerra, para um homem.

No entanto, foi por sua máquina que Alan ajudou os aliados a salvarem mais de 14 milhões de vidas, reduzindo a guerra por dois anos, como deduzem historiadores. A inteligência de guerra também deveria pensar em estratégias. O drama de decidir quem pode viver ou quem deve morrer era um espectro que rondava a ilha. Esta questão ética é colocada no filme através do irmão do soldado da Marinha Britânica morto por um ataque nazista, quando a equipe poderia evitar.

Com o enigma decifrado, milhões de vidas poupadas e outras milhões sacrificadas, os povos, governantes e outros protagonistas fariam sua interpretação deste triste episódio.

“Batalha épica entra civilizações, Batalha entre a Liberdade contra a Tirania, da Democracia contra o Nazismo.”

Da perspectiva de Alan, bem como de outras partes da engrenagem da guerra, o processo não se deu apenas no campo de batalha, mas em espionagem, bastidores, e o que os próprios ingleses chamariam de “blurring”, um borramento ou borrão de fronteiras. Nesse sentido, a presença de espiões russos enviados por Stálin na história do longa simboliza o quanto paradoxal era a união de forças de Moscou e Londres contra o mesmo inimigo Hitler.

Terminado o conflito, a inteligência britânica elimina registros do Enigma e dos que tiveram participação nele. O projeto permaneceria secreto por mais de 50 anos. Quase uma década depois da guerra, na cidade de Manchester, a homossexualidade de Alan Turing vem à tona publicamente e ele é sentenciado por indecência. O juiz do caso oferece duas penas alternativas para Turing: dois anos de prisão ou terapia hormonal. Para poder continuar o trabalho de aprimoramento das “máquinas de Turing”, como foi denominada a invenção depois por alguns cientistas, Alan decide pela terapia hormonal oferecida pelo governo britânico.

A castração química de Alan levou-o ao suicídio depois de um ano. As predileções homossexuais não foram “curadas”, e suas conquistas foram honradas pela Rainha Elizabeth II somente em 2013.

“O jogo da imitação” toca em temas polêmicos e revela contradições de uma época e sociedade cujas “leis” levaram ao suicídio um cidadão que salvou milhares de vidas. Faz um mea culpa um tanto quanto sutil sobre o quanto a Inglaterra puniu um homem a cuja inteligência deveria ser grato.

Prontas há mais de meio século para elaborar máquinas que podem pensar como seres humanos (os computadores), as civilizações contemporâneas até hoje não conseguem lidar com a diversidade de orientações sexuais, de identidades de gênero, ou reconhecer plena igualdade de direitos para homens e mulheres.

São Paulo, 2014.