
"Próxima estação: Japão - Liberdade". Foi no metrô, exatamente nessa estação, que eu senti vontade de escrever sobre a minha comida preferida e o que ela representa pra mim. E pode ser engraçado ter apego emocional a um alimento, mas eu acredito que é exatamente isso que está acontecendo.
Hoje mais cedo, eu comentei no trabalho que estava feliz por amanhã ser dia de Lamen com o meu melhor amigo. Eu e o Rodrigo nos conhecemos na faculdade de jornalismo, bem no início, e nunca paramos de nos falar. Ele já deve ter escutado a maioria dos meus problemas e, às vezes, eu acho que o Rodrigo é a pessoa que mais sabe o que se passa no meu coração. Enquanto eu mostrava algo nas redes sociais, ele sabia que não era bem aquilo que de fato estava acontecendo. Temos o nosso ritual de comer Lamen todos os meses, e só furamos uma vez pelo o que eu me lembro. Quando é dia de ir até a Liberdade, eu fico feliz. É como se ali eu pudesse falar sobre qualquer coisa com ele. Eu sou compreendida 100% das vezes.
Quem me mostrou o Lamen, no entanto, foi a Laurana, uma amiga minha também da faculdade. Eu lembro de todas as nossas conversas sobre o Japão e como a gente amava falar sobre isso. Acho que foi um dos nossos assuntos preferidos por algum tempo. Não à toa, os meus escritores preferidos são japoneses. E nos trabalhos da faculdade, a gente sempre dava um jeitinho de falar sobre o Japão. Fizemos até um jornal sobre o bairro da Liberdade uma vez, falando sobre lendas e tudo o que acontecia naquela época no Japão.
Era 2013, e em um desses passeios que sempre fazíamos, a Laurana me apresentou o que hoje é a minha comida preferida. Foi em um restaurante escondido, que ficava na parte de cima de outro comércio. A portinha de entrada era azul. Eu nunca me esqueci disso, mas depois dessa vez, não encontrei mais encontrei o tal restaurante. Aquele momento foi tão bom que lembro de detalhes. E foi assim que começou.
Desde então, eu levei poucas pessoas pra comer Lamen comigo nos lugares que eu gostava. A Ana, uma das minhas melhores amigas, é uma delas. Fomos na Liberdade algumas vezes e sempre foram os melhores momentos que eu poderia ter.
Em 2017, eu e meu então namorado descobrimos um Lamen em algum canto de Santo André, e acho que ali virou uma espécie de 'nosso canto’. Não ia muita gente lá, a não ser eu e ele praticamente todas as semanas, exceto nos dias em que demos com a cara na porta. Nós sempre escolhíamos a mesma mesa, e a mais escondida, e eram sempre horas e horas de conversas jogadas fora do melhor jeito e acompanhados de Lamen. Era o meu momento preferido da semana, eu gostava disso, eu esperava por isso. Eu queria sentar ali e conversar. Alguns detalhes eu acho que só a gente reparava, e algumas coisas parecia que só eu e ele fazíamos, tipo tentar adivinhar o que a filha do cozinheiro tanto assistia naquele iPad. Ou o nome da garçonete, esposa do cozinheiro, que virou Neide. Nós nunca soubemos de verdade o nome dela, mas gostávamos muito desse nome. Era um nome simpático, ela era muito simpática.
Eu também já tomei Lamen com o Kaiky, um amigo tão querido que eu não consigo colocar em palavras. Foi ele que me apresentou o Hinodê, e esse é meu segundo lugar preferido de Lamen atualmente. De todos dias que resolvemos sair juntos pra comer, um dos momentos mais legais foi quando sentamos em um banco da Liberdade e ficamos olhando pra rua. Acho que ele já me ouviu demais. As mesmas coisas, repetidas vezes. Mas ele sempre parecia disposto a me ouvir de novo.
Passando pelas mesmas estações de sempre, eu me pergunto se a questão é só o Lamen. E não é. Eu gosto mesmo é dos momentos que eu lembro, das fases que eu passei. Eu gosto de imaginar o dia em que eu vou levar meus filhos comigo, ou quando eu puder provar o Lamen de outros lugares do mundo. Será que o do Japão é realmente parecido com esses daqui? Será que todos os países tem um restaurante de Lamen? Eu não conseguiria viver em um lugar que não tivesse. Eu atribuí à uma comida as melhores memórias que eu guardo dentro de mim.
E amanhã é dia de Lamen. Eu tô feliz pra caramba.
