A arte de dar feedback

Eu resenho livros desde 1998. No início, amadorísticamente – por minha própria conta e risco. Hoje, quando eu digo ao Ruy Castro, por e-mail, que vou resenhar seu último livro, ele me responde: “Obrigado, Julio”.

Nestes 18 anos, recebi dezenas, centenas, talvez milhares de livros para resenhar. Não resenhei todos, claro. Nem sequer guardei todos. A maioria, pela primeira página, eu já sabia se ia resenhar ou não. Se ia *ler* ou não.

O André Forastieri uma vez escreveu que, de tanto produzir críticas para a Bizz, pela primeira faixa ele já sabia se um álbum valia a pena (ou não). Achei um exagero, quando li. Mas é assim. Eu também sou assim com livros.

O problema – ou a solução – é que a maioria não vale a pena. Problema porque: como é que você vai dizer isso à pessoa? E solução porque: imagina se todos fossem bons, eu passaria a vida inteira resenhando – e lendo – só os meus contemporâneos…

A arte de dar feedback é, na realidade, um dilema. Pelo bem da literatura, devemos rejeitar o que não vale a pena – para que a verdadeira literatura floresça. Só que como rejeitar o livro sem rejeitar o autor ao mesmo tempo? Sem que o autor se sinta rejeitado, eu quero dizer.

Eu recebi, agora, um livro de uma senhora que acaba de perder o marido. Ela é cronista de um jornal de um estado não tão importante da federação. Ela publicou um livro, com mais de dez anos de crônicas. Ela o manda, advertindo: “Recebi elogios, mas de parentes e amigos. Eu queria uma opinião neutra”.

Para começar que crônica é um gênero dificílimo. São poucos os verdadeiramente cronistas no Brasil. Rubem Braga, para mim, talvez seja o maior cronista. O Carlos Drummond, por exemplo, que é um dos maiores poetas do século XX, era um cronista chinfrim – eu sinto vergonha (por ele) quando me deparo com uma crônica sua.

Mas as pessoas acham que escrevem crônicas. Assim como acham que escrevem contos. Acham que escrevem romances. Até poesia, acham que escrevem. Escrever é fácil – para quase todo mundo que é alfabetizado. Escrever alguma coisa que tenha valor… essa é a arte.

O que espera uma senhora, no fim da vida, que acaba de perder o marido? Reconhecimento? Alguém que lhe diga: “A senhora passou a vida inteira vivendo para seu marido (e, provavelmente, para seus filhos) – mas a senhora, na realidade, é uma grande cronista, perdida num estado desimportante do Brasil”?

Francamente, eu não acredito. Tirando a Jane Austen, que, dizem, viveu para sua família – enquanto escrevia uma grande obra (depois, reconhecida). Jane Austen é a exceção que confirma a regra. Mas as pessoas querem ser essa exceção…

Como Rimbaud. Não existem talentos com menos de 18 anos – como Rimbaud. Um gênio poético com menos de 18 anos, como Rimbaud? Não tem. Rimbaud foi, justamente, a exceção. Mas as pessoas insistem nas crianças-prodígio. Coitadas das crianças…

O dilema persiste: o que vou dizer para a senhora que espera meu retorno? Se eu disser que as crônicas dela não valem nada, ela morre. Se eu disser que são “OK” mas “nada de mais”, talvez ela não morra, só que não vai ser a consagração que ela espera (traduzindo: ela, muito provavelmente, não vai gostar).

Adianta ser brutalmente honesto, como dizem os norte-americanos, com uma pessoa que está no fim da vida e, possivelmente, cultiva uma derradeira ilusão? Vai corrigir um “talento” que, novamente, está no fim? Ela recomeçaria (ela teria *tempo* para isso)? Ela se tornaria uma Jane Austen “da vida”?

Claro que não se tornaria. Porque, nessa altura da vida, ou ela *já é* a Jane Austen ou não. E ela *não é* a Jane Austen. Até porque Jane Austen só houve uma, lembram? Jane Austen – avisem as senhorinhas no fim da vida – é a exceção (e, não, a regra).

Então, eu vou dizer: “Continue escrevendo que, um dia, você chega lá”. Chega lá onde? Ela ainda tem *chance* de chegar? Tempo, ela não tem mais. Se ela não chegou ainda, não chegará nunca. Ela quer um veredito – na verdade. E, não, “uma opinião neutra”. Será que eu tenho vocação para ser uma versão do “juízo final” para essa pessoa? Ou um *juiz* final de sua obra?

Claro que não. Logo: eu concluo que prefiro ficar calado. Se eu disser que ela não tem a menor chance, não vai adiantar nada – e ela só vai ficar mal. E se eu disser que ela *tem* chance, vou estar mentindo, porque ela não tem chance – ela já foi (ou, melhor: ela *não foi*).

O Sérgio Rodrigues, um dos maiores resenhistas, e escritores, da nossa época, uma vez me disse que – quando se deparava com uma coisa de que não gostava – preferia ficar calado; não falar nada. Deixar passar. Ser indiferente. Fingir que nem teve contato.

Na época, achei covarde. Penso que estava numa fase mais “combativa” – e acreditava que o meu dever era apontar o dedo para o que não prestava. Eu pensava nos leitores… Eu pensava naquelas pessoas que iriam comprar o livro. Elas deveriam ser alertadas de alguma forma…

Hoje, eu penso na senhorinha. Ela não corre o risco de chegar numa editora grande. Nem de ter uma tiragem volumosa. Ela não vai enganar nenhum leitor. Nem meio, ela vai. Os que compraram… o fizeram por amizade, por consideração. Compraram pelo gesto – e, não, pelo valor.

A arte de dar feedback talvez seja, neste caso, arte de *não dar* feedback. A arte de dar feedback nenhum. “Feedback zero”, mas não por maldade. Nem porque a pessoa não mereça feedback. Mas, sim, porque não vai adiantar nada. Entre matar a pessoa do coração, com a verdade, e iludi-la mais um pouco, alguém enxerga uma terceira opção?

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