Bel Pesce, empreendedorismo e financiamento coletivo

Não vou falar da Bel Pesce especificamente, porque não a conheço (embora tenha amigos que a conheçam)

Nem vou falar do conteúdo que ela produz, porque nunca me embrenhei a fundo nele (não teria como avaliar)

Mas vou usar o exemplo da Bel Pesce para falar de “empreendedorismo” (essa “moda” de falar de empreendedorismo, na verdade); e de “crowdfunding” (ou, em português, financiamento coletivo)

O empreendedorismo virou um assunto de uns tempos pra cá, e, como todo modismo, cansou

Dizer que todo mundo pode ser empreendedor, é como dizer que todo mundo pode ser artista, coisa com a qual eu nunca concordei

Em ambos os casos, existe o fator talento, e ele não pode ser ensinado. Ou a pessoa tem, ou não tem

Depois, existe o fator sorte (sim, eu acredito em sorte). Concordo com Maquiavel que metade é “virtù” (talento) e outra metade é “fortuna” (sorte)

Sorte, em empreendedorismo, você pode traduzir por oportunidade

Oportunidade não dá em árvore. Ela surge ou não. Não pode ser “gerada”

A oportunidade pode ser percebida, sim. Mas, mesmo percebê-la, é um dom. E eu não acho que esse “dom” – ou senso de oportunidade – pode ser ensinado

Por último, existe a execução. Você pode ter o talento, a ideia (oportunidade) pode ser ótima, mas se a sua execução for ruim, não adianta nada

“Sua ideia é melhor que a minha. Minha execução é melhor que a sua. Eu ganho”, tuitou, outro dia, o Tom Peters

E esse modismo de “financiamento coletivo” é bem isso. Muito barulho durante a captação. Uma vez captado o dinheiro, como fica a execução?

E mesmo depois de executado o projeto, quem avalia? Cumpriu com as expectativas dos financiadores?

Pergunta final para a Bel Pesce (e outros que rezam pela cartilha do “empreendedorismo serial”):

Se o projeto era tão bom assim, por que temos de financiar outro? E mais outro? E, ainda, outro?

É mais ou menos como pedir às pessoas que venham à sua festa de casamento – só que você se casa todo ano, com uma nova pessoa

Fora que vale aquela história da Lei Rouanet: vamos financiar quem precisa. Quem não precisa, não deveria pedir financiamento – não é mesmo?

Eu sei que no Brasil é tudo ao contrário e que os que mais se beneficiavam dos financiamentos do BNDES – o maior financiador do País -, eram os que menos precisavam…

Mas não deixa de ser um escândalo

E não deveríamos banalizar o uso do financiamento coletivo, que é uma boa ideia na origem

E nem o uso da palavra empreendedorismo, porque precisamos de empreendedores, no Brasil, sim

O que eu faria se fosse a Bel Pesce?

Não sei, ela se meteu numa errascada. Acabou virando bode expiatório – para essas práticas que eu listei acima, e que acabaram viciadas

Que o erro da Bel Pesce sirva, então, para refletirmos sobre uso que se faz do “financiamento coletivo” na internet – e do empreendedorismo em forma de autoajuda…

Eu sabia que essa bolha iria estourar, um dia. Vamos aproveitar para fazer uma correção de rota