Sobre a Filosofia (obrigatória) no ensino médio

Tive Filosofia no ensino médio. Professor Beto. Meus colegas de Pueri Domus devem se lembrar

Era quase um estudo de figuras da linguagem. Pegávamos um discurso qualquer (poderia ser uma notícia de jornal) e ficávamos procurando coisas como “generalização apressada”, por exemplo

Depois, no final da Poli, acompanhava as aulas do professor Roberto Bolzani Filho, que dava um curso sobre a “Metafísica”, de Aristóteles. Começava com os pré-socráticos Heráclito e Parmênides e passava, claro, por Sócrates e Platão

Por causa desse curso, prestei Filosofia, no ano em que me formava na Poli, e passei, de novo, na USP. Mas nem cheguei a fazer um semestre, porque era à noite, eu trabalhava longe, fazia o Proficiency na Cultura, começava a escrever e a publicar na internet e começava a namorar a Carol ;-)

Mas li Filosofia o resto da vida. E, algumas vezes, escrevi sobre. Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger e Wittgenstein. Cícero, Sêneca, Marco Aurélio. Maquiavel. Montaigne…

“A História da Filosofia Ocidental”, do Bertrand Russell, é um dos meus livros de cabeceira. Às vezes pego um capítulo qualquer e leio

Até na Casa do Saber, eu aprendi Filosofia. Professor Pondé, que dava um curso de Filosofia da Religião, alguém conhece? ;-)

Mas não é coisa pra adolescente. Eu sei que Machado de Assis também não é. E tantas outras coisas – que são “ensinadas” – também não são

Acontece que ensinar Filosofia na escola é como ensinar Cálculo na escola. Estou lendo um livro que diz que Cálculo exige o domínio de quase toda a Matemática da escola. E é verdade. Eu gostava de Cálculo, na Poli, mas exige que você saiba álgebra, geometria, trigonometria, logaritmos…

Filosofia pode ser Lógica, o estudo dos discursos (como eu tive no ensino médio). Mas pode ser Ética. Pode ser Estética. Pode ser Política. Pode ser Epistemologia, o estudo dos “limites” do conhecimento. Pode ser História da Filosofia. Pode ser a Antiga, a Medieval, a Moderna…

Por mais que hoje as pessoas citem Nietzsche como quem cita Clarice Lispector (quase sempre erroneamente), Filosofia não é um assunto corriqueiro

Assim como não devemos obrigar ninguém a ter Cálculo ou Teoria da Relatividade no ensino médio, não acho que a Filosofia deva ser obrigatória no ensino médio

Seria como tentar ensinar Derivativos, para quem não vai seguir carreira em Finanças. Fisiologia, para quem não vai fazer Biológicas. Ou Buracos Negros, para quem não vai ser físico…

Quem tiver interesse, vai ter na faculdade, depois. Ou vai estudar por conta própria

Eu acho a discussão sobre “currículo” fascinante – e todo mundo tem uma opinião a respeito… (É quase como futebol, política e religião)

Mas, ao mesmo tempo, acho que nunca estamos “prontos”, formados, “acabados”. Evoluímos até a hora da morte

Fora que o mundo se transforma e nenhum “currículo” – por melhor que seja – consegue acompanhar

Também acho que esperamos demais da escola, da faculdade, dos professores, até dos “treinamentos” nas empresas (eu fui “trainee” do Itaú) – só que, hoje, acho que depende muito mais de nós…

A educação que a Catarina tem em casa é tão importante quanto a que ela tem na escola. Ou mais. Ou *muito* mais

Por fim, acho que esperamos demais do governo. Uns porque querem “mais” governo. Outros porque querem “menos” governo

Estamos sempre raciocinando em termos de “governo”. O que é um problema até mais grave que o da educação – é um problema de *mentalidade*. E esta, para ser “reformada”, custa muito mais…

Subdesenvolvimento, já dizia Tom Jobim, não é coisa que se improvisa – é obra de séculos…

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.