Nome-do-pai — N° 1
com dor, cansado e com as luzes apagadas
penso que se eu lesse um pouco mais da bíblia
nada disso aqui teria acontecido e eu seria mais um
meu orgulho, de lado, junto com meu sono
e os meus defeitos adormecendo em mim
sem que percebesse os males de abandonar um sintoma
e isso me faz lembrar, duma tarde chuvosa e fria
quando o dono da mais pura verdade surgiu na minha vida
e me deu a chance de perceber o erro que seria
se eu simplesmente caminhasse sem olhar pra trás
sem ver a nuvem que me acompanhava
e ameaçava molhar meus sonhos mais vazios
mas eu recusei os seus dizeres tão antigos
lhe contei que eu já não era mais só um menino
e as coisas que pensava não tinham mais perdão
faz pouco tempo que ele sumiu da minha vida
e a uns meses ele me apareceu, contou de seus próprios problemas
se desculpou por tentar me fazer querer o que ele queria
e a culpa que eu senti até hoje não me permite o perdoar
mesmo sabendo que é possível que daqui alguns anos ele morra
e vá levar consigo o peso dessa imposição
pedi para ele ir embora de minha casa
disse que o abandono é mais forte que a volta
e o tempo dele simplesmente já não volta mais
se meu pai tivesse aqui ele me apoiaria
assim como apoiou quando disse que não faria
nenhum sentido mergulhar na água e me batizar
mas assim como o tempo do dono da verdade
o de meu pai passou e eu me arrependo
de não poder escrever sobre esse momento
e mostrar para ele as coisas que ele me dizia
quando eu era criança e não parecia que entenderia
sobre falar sozinho quando as luzes se apagam
acordar cansado, sem nenhuma perspectiva
mostrar a todos que é melhor do que se acredita
e pedir a deus que um dia isso seja verdade
_______________________________________
Continuamente negando a função simbólica da metáfora paterna e transformando o fracasso de sua autoridade em sucesso de socialização do desejo.
Recortes de escritos que me fazem lembrar quem sou, quem ele era e onde fica.
