Feridas


Ele se surpreendera ao ver aquele anúncio perdido no meio dos classificados de empregos. Naquele quadrado pequeno, letras lhe falavam de uma dona de uns sessenta e poucos anos que tinha um desejo mórbido de ter suas feridas beijadas por um homem. Não havia no anúncio espaço para explicações e os motivos do desejo, apenas um telefone de contato com o código de área da região e o valor da recompensa, 100 mil em dinheiro vivo.

Pensou por alguns instantes naquela façanha, e sentiu que poderia fazer qualquer coisa pela grana. Dar um atraque em uma velhaca leprosa era fichinha para quem comia os restos mantidos na geladeira desligada de seu apartamento, que sofria com a falta de fornecimento de energia já há alguns meses. Pegou o que restara dos créditos de um cartão telefônico com estampa do natal passado e ligou para o número do anúncio. Um homem com voz rouca e penetrante atendeu do outro lado da linha. Fez algumas perguntas rispidamente e informou o local onde seria realizado o encontro.

Na hora marcada, em uma mansão de um dos bairros mais nobres da cidade, lá estava ele. Estralava o dedo mindinho e baforava seu cigarro como se fosse o último. Esperava no portão, ao olhar furioso do segurança de terno azul marinho com seu walktalk gigante, que pelo tamanho parecia muito antigo. Aliás, a mansão em si tinha esse ar obsoleto e decadente. Tudo parecia ter passado por dias melhores naquele lugar, que agora se encontrava mergulhado entre árvores mal cortadas e folhas secas a deriva em uma piscina de água verde e escura.

Emergindo da porta frontal da mansão surge um senhor de idade avançada e corpo curvado. Logo se percebe que é o mesmo homem do telefone, embora parecesse muito mais enigmático. Este conduz o impetuoso pretendente pelas entranhas da casa, onde o mofo e a poeira irritam o nariz tornando os espirros inevitáveis. As cortinas grossas de veludo cor de sangue fazem bem o trabalho de não deixarem o sol entrar nos cômodos, e à medida que vão avançando casa adentro, um odor enjoado vai tomando espaço.

Ambos chegam ao pé de uma grande escada com um corrimão já gasto, adornado por uma carranca esculpida na madeira antiga. Ao longo do percurso vertical se ouvem rangidos na casa, ao mesmo tempo em que o odor percebido no andar de baixo aumenta com a chegada do próximo nível. Uma porta entreaberta parece ser o esconderijo daquele cheiro pestilento. Ele torce para que lá não sejam os aposentos da tal senhora, mas sua súplica interior não é atendida. O homem curvado o conduz para dentro deste quarto, um tanto mal iluminado e com um cheiro ainda mais insuportável.

Porém, antes de dar o próximo passo rumo à cama, o homem curvado o alerta que muitos já foram ali com o intuito de ganhar dinheiro facilmente, mas julga que de fácil esta tarefa não tinha nada. Ele concorda com as palavras do velho senhor, mas diz que está disposto a fazer tudo pelo dinheiro. Este então acena com a cabeça, e o leva para o fundo do cômodo, onde uma cama com ares de tumba se aquece na fresta de uma janela banhada pelo pouco sol que restara do dia.

Ao se aproximar da cama, consegue visualizar uma forma humanóide e retorcida por entre os véus que parecem formar um escudo protetor. Ele tenta esboçar uma saudação, um tímido “boa tarde”, mas é interrompido pelo carrancudo senhor. Este o repassa todas as instruções para como se portar, enquanto a criatura dentro dos véus parece ficar cada vez mais agitada, fazendo com que o ar do quarto se torne aos poucos mais denso.

Encerrada as explicações o véu se abre revelando uma senhora de rosto meigo e corpo largo, espalhando suas carnes em uma camisola com manchas amareladas. Ela parece sorrir, mas sua fascinação pelo estranho a deixa com um olhar perdido. Ela insiste que ele se sente na cama e pegue em sua mão gorducha e cheia de manchas.

Tudo parecia encaminhar-se para um desfecho amigável e caloroso, quando de súbito as troncudas pernas da senhora se abrem e surge ali, em meio ao tecido adiposo esbranquiçado, uma horrenda imagem pútrida e mal cheirosa. O órgão genital daquela senhora se mostrava em avançado estado de putrefação. Pelo menos era o que aparentava. O cheiro da carne podre invadia os sentidos colocando a sala em um estado de náusea total.

Neste meio tempo de espanto e vulnerabilidade, a velha senhora agarra a cabeça do estranho homem que viera predestinado a saciar seu desejo, e enterra sua cabeça por entre as pernas roliças. Ele grita, esperneia, mas ela consegue mantê-lo preso naquele alicate humano. Não satisfeita, esfrega o rosto do pobre homem em sua vagina fétida. Ela passa a gritar em seguida uma oração em latim. Ele regurgita e clama para que o soltem.

Em instantes surge o velho homem curvado, que acalma sua patroa e retira o rosto daquele que se encorajou a beijar as chagas deixadas por um marido infiel. Como ela se tratava de uma mulher católica, não conseguia conceber a idéia de que possuía uma doença venérea, afinal de contas era uma mulher casada, uma mulher direita, e não uma puta. Pelo menos era assim que gostava de repetir aos empregados. Nunca mais saiu de casa. Manteve-se enclausurada por anos. Apenas esperando o dia em que um homem novamente estivesse entre suas pernas.

Após uma breve passada no toalete central, limpando o rosto e expulsando o mau cheiro de suas vestes, ele sai revigorado e pronto a receber sua recompensa. O homem curvado entrega uma sacola de couro velha e quebradiça, contendo diversas notas enroladas em borrachas alaranjadas. Pergunta se no mês que vem estará disponível para mais uma sessão. Sua patroa havia gostado do olhar de agonia que ele havia emitido durante os gritos. Imaginava que aqueles gritos eram de seu falecido marido, aquele desgraçado traidor. 200 mil por uma segunda sessão era a proposta.

Semana que vem ele prometera estar de volta. Espera juntar uma boa grana em seus encontros com a velhota. Embora não consiga dormir tranquilamente devido aos pesadelos, ainda acredita que faria tudo novamente pelo dinheiro. Tudo. Até mesmo beijar aquelas feridas mais uma vez. Ele sente uma ardência na mucosa nasal. Acredita que ainda seja a poeira da casa. Causa-lhe náuseas relembrar onde sua boca estivera. Vai se matar hoje à noite. Mas ainda não sabe como. Pelo menos sabe o porquê.