A armadura perfurada

Desde a minha infância que leio livros de cavaleiros, que atravessavam os campos para alcançar suas mais incríveis façanhas, hoje sou como esses cavaleiros, com uma armadura perfurada, eu reguei os jardins da vida, como toda a alegria que podia. Com minhas armas, podei as ervas daninhas que deleitavam o campo florido, por vezes cheguei a acreditar, que a armadura me protegia, cresceram meus cabelos, e a minha barba, e fiz desta, minha aparência, a única defesa.

Eu vestia minha armadura todos os dias antes da aula, carregava pesados machados nas costas, e tentava viver meus dias com honra, com sabedoria, com cavalheirismo, foram estas as virtudes que havia aprendido nos livros, li uma obra a qual me recomendaram cujo titulo é “O cavalheiro preso na armadura”, buscou o sábio na floresta, em busca de uma forma de aliviar-se de sua armadura enferrujada, antes que perdesse tudo o que amava. Assim me vi, quando comparado ao “homem de lata” dos contos do Mágico de Oz, eu só tinha que regar nosso florido jardim, mas quando me dei por conta, já não regava ao meu próprio, um campo devastado, queimado, onde nem se quer uma flor brotava, foi o que me restou, daquele, que foi o grande desastre da minha vida, havia me dedicado, a uma coisa que morreu, como uma floresta devastada.

Enquanto passava pelas fases da depressão, ou quando sentia o preço da euforia, eu me dei conta, que acabara vestindo novamente a mesma armadura, que antes usava para me proteger daqueles que pouco ligavam para os meus sentimentos. Fui levado a considerar, as coisas que eu sentia, e a forma como eu via o mundo a meu redor, cheguei a delirar, ao ver urubus, voando em circulo no céu azul, cheguei a ter sonhos lúcidos sobre o que eu queria da minha vida, e de repente aqui estou eu, em um apartamento vazio, orgulhoso do que eu faço, mas as vezes ainda tropeço, e caio de cara, na própria armadura, e as vezes estes tombos custam o melhor de mim. Que mesmo que as vezes ao notar a diferença no meu humor, mal sabem o que realmente ocorre dentro da minha cabeça, por vezes, cheia de problemas, fases, e lembranças que me voltam a mente, e que preso fico, ainda, nesta velha armadura.

Não sou muito de contar meus problemas aos outros, ainda que estes estejam me atormentando, durante o dia, eu busco distrações em musicas, series e jogos, como se conseguisse por um momento desviar meus pensamentos, esquema auto aliviador, é o que a terapia sugeriu, hoje em dia, caminho com a cabeça em outro lugar, buscando compreender, o que realmente eu queria pensar, hoje em dia ando, querendo agradar, socializar, ser simpático, mesmo quando mal consigo em mim pensar, as vezes estou sozinho em uma floresta encantada, com medo de que um dia ela vá morrer, as vezes procuro refugio onde ninguém mais vai, querendo ficar sozinho, ainda que este, seja o meu maior medo. As vezes me isolo dentro da minha cabeça e tento ver o mundo por traz dos espelhos dos meus olhos, e as pessoas notam.

As pessoas notam, por que eu uso esta armadura, querendo esconder o que eu sinto, talvez, por vergonha, talvez, por medo, talvez por que eu não queira que ela vejam o lado negro em mim, a depressão, a euforia, o medo de agir erroneamente, talvez por que eu queira “ser perfeito”, aos olhos de quem me vê, por vezes, e difícil manter, esta armadura, de um cavalheiro que eu tento ser.