UM NOVO EXÉRCITO DE BRANCALEONE OU SIMPLESMENTE UMA PARCELA DE IGNORANTES TENTANDO FAZER ALGO?

Em Itália de 1965, Mario Monicelli roda o filme L’ Incredible Armata Brancaleone (O Incrível Exército de Brancaleone), inspirado em “El ingenioso hidalgo Don Quixote de La Mancha” (Dom Quixote) de Miguel de Cervantes, publicado em 1605, satirizando o romance de cavalaria e a política de sua época.

Diante de uma grande crise histórica na Idade Média os brancaleone combatiam as mazelas que se deparavam (!). Eram bem intencionados, mas totalmente atrapalhados, ignorantes e oportunistas. O que lhes interessava era a vida particular de um reino que teriam direito por possuírem um título roubado de outra pessoa que assassinaram. O grande líder, o cavaleiro Brancaleone da Nórcia, nem mesmo era grande, tampouco um líder eficaz: era um trapalhão. Fora escolhido pelos oportunistas, pois o título que roubaram exigia que o portador, para ter direito ao reino deveria ser um cavaleiro, e, assim, o atrapalhado da Nórcia seria seu passaporte para a boa vida, diante de tantas desgraças como a peste, a guerra e a fome.

O cavaleiro inicialmente se nega a formar a armada e assim comandar o exército de oportunistas. Mas diante da derrota concreta de seus objetivos de ganhar a mão de uma nobre (Lucrécia) em duelo, aceita desesperadamente a proposta dos ladrões. Estava assim formado o exército de Brancaleone! E pelo visto a armada de Brancaleone jamais se desfez até os nossos dias, pois diante da política é muito fácil e razoável afirmar que eles estão vivos como nunca: um novo exército de Brancaleone.

Sobre o ignorante empregado no título, me refiro aqui àqueles que simplesmente ignoram, que desconhecem, portanto, agem como ignorantes sem maiores problematizações, sobre a política por exemplo. Desta forma, ignorante no sentido latino “ignorantia”, aquele que não sabe (…), que não se sabe (…), que não tem conhecimento.

Nas últimas semanas fora dada a largada oficial para o período eleitoral. Os candidatos passam a se apresentarem nas mais diversas atividades, com destaque para propaganda eleitoral na tevê e rádio. O espetáculo não é diferente dos períodos anteriores, mas quero chamar atenção aqui ao exército de brancaleones que observamos.

Muitos candidatos, com destaque à uma parcela de jovens, se lançam à representação política com a intenção de mudanças, visando uma sociedade mais justa e sem corrupção.

Considerando os ascensos de 2013 e 2014, não surpreende que muitos desejassem participar da política para melhorá-la, para fazerem a diferença. Não desconsidero outra parcela que repudia a política, mas não falarei aqui do analfabeto político, mas dos semi alfabetizados, dos brancaleones.

Não foram poucos aqueles que gritaram “sem partido” em 2013 e 2014, até mesmo ameaçando os militantes de esquerda, com suas bandeiras vermelhas.

Hoje, é outro dia. Agora muitos destes se lançam como futuros vereadores e prefeitos, em todos os estados do Brasil. Para isso é necessário um partido político. E aqui está nossa tela, pois o brancaleone deve alistar-se nas fileiras de uma armada, de um exercito: do partido político reconhecido pelo TSE que tanto negara!

Sem choro, nem vela, se filiaram e se apresentam como a melhor alternativa para mudar a sociedade através da política, para acabarem com a corrupção, preocupados com saúde, educação, transporte, habitação, etc.

Meu caro leitor deve se perguntar: “mas onde está o problema até ai?”

A questão central é: como mudar se se busca os partidos conservadores e reacionários?

Muitos se apresentam como uma alternativa diante dos problemas sociais, mas não passam de brancaleones nas mãos dos políticos tradicionais e conservadores. Como efetivar uma proposta de mudança se os instrumentos são os mais velhos que podemos imaginar? Como lutar contra as privatizações se o seu partido é o PSDB? Como melhorar as condições de vida das mulheres se seu partido é machista-cristão?! De que forma o novo brancaleone terá autonomia de ação se sua campanha é financiada pelas grandes empresas?!?

É razoável afirmar que muitos desta “Armada de brancaleone” irão se frustrar com a política ao observarem que não conseguirão fazer nada daquilo que desejavam, ao menos, nestes partidos tradicionais. Ou ainda, que outros irão se acomodar perfeitamente a corrupção, mentiras e acordos espúrios… viverão sua vida privada tirando proveito do público.

Mas qual será o motivo que leva a existência destes brancaleones? Dissemos: ignorância. E não o fazemos de forma a atacar o pobre brancaleone, pois muitos deles são realmente bem intencionados, todavia, ignoram o chão da política que pisa. Movidos, em alguns casos, por um ideal franciscano, querem ajudar as pessoas, mas ao final podem acabar engolidos pela própria “igreja” de Francisco ou dragados pelo “diabo”.

Os motivos são muitos e estruturais, mas acredito que um emblemático deve ser citado aos nossos leitores: A democracia dos ricos e poderosos.

A democracia burguesa, predominantemente, organiza o Estado de forma que garanta a hegemonia dos mais poderosos no poder. Garantindo-lhes o maior espaço de propaganda eleitoral. Somos educados para naturalizarmos a apresentação dos partidos políticos determinadas pelo TSE e crescermos educados na existência de apenas alguns partidos que ficam guardados durante nossa trajetória. Salvo exceções, a maioria absoluta dos brancaleones, acreditam na existência de partido independente de seus programas políticos. Ignoram o caráter de classe que este esta assentado… e, na maioria das cidades, se associam ao personalismo dos líderes políticos, acreditando serem honestos defensores de causas nobres.

É verdade que em grande parte das cidades, sobretudo do interior do país, as representações político-partidárias sejam esmagadoramente de partidos reacionários e conservadores. Outros partidos, com perspectivas radicais (como os trotskystas e comunista), sequer são mencionados… em muitos casos são absolutamente ignorados! Salvo as divergências entre estas organizações, existe uma convergência: defendem uma transformação radical da sociedade. Entretanto, os brancaleones mal sabem da existência destas outras referências de organizações partidárias, estejam elas certas ou erradas em suas políticas para o tempo presente.

Os partidos negados de outrora passam a se firmarem como o espaço político da salvação do tempo presente. Mesmo se tratando de partidos contrários até mesmo a crença dos brancaleones… talvez movidos por um individualismo kantiano, onde a razão se manifesta na vontade individual, acreditam ser possível mudar o mundo apenas com sua boa vontade. Para além de Immanuel Kant, a razão também está para além do indivíduo! Mas o brancaleone não se importa com isso. Nem sabe ele dessa existência, por isso: ignorante.

Assim mesmo, o exército de brancaleone está pronto (…). Estufam o peito e lotam seus pulmões do idealismo mais barato e a passos largos, cirurgicamente guiados, por aquilo que há de mais nefasto no Reino da Dinamarca, embora parta da Nórcia!

Assim, a “Armada de brancaleone” deve seguir a sua jornada política, lutando por causas nobres, junto aos saltimbancos, oportunistas e vigaristas. Junto aos traidores de classes, conciliadores e aos seus golpistas!

É verdade que é preciso fazer algo (…). Não aos senhores.

Avante cavaleiro da Nórcia!