Sentidos

Que dom é o de respirar sem que a alma repouse eternamente ao faltar seu cheiro. Belisco-me e não sinto, à sede resisto e meu corpo, frágil sem muito dormir, descansa, com paz e com cãibras, na poltrona da sala.

Sem imagens, nem sonhos só as notas musicais me restam. As frases quem diz é Mozart, com sua Laudate Dominum para lembrar-me que para mim, já sem nada, ainda resta tudo, visto que a benignidade do Senhor é inesgotável.

Olho o céu e ele está sem cor. Observo as plantas e elas estão na escala do cinza e sem odor. Atento aos pássaros e ruídos me invadem, fazendo-me lembrar que o Universo é uma música caótica para ouvidos hora não treinados, que talvez nunca estarão.

Quando se está só, em silêncio e em meditação, é possível ouvir não apenas o machucado coração. Nas veias correm sangue feito rio a desaguar em qualquer canto ou extremo. O dilatar e o contrair dos nossos vasos lembram-nos que somos constante revolução, pois trocamos de pele sem sentir, negociamos amores por paixão.

Bem de noite veio a mim um anjo, sei que ele é qualquer ser. Antes de uma classe de iguais, os malachim são quem ou o que nos trás, da parte de cima, as mensagens envelopadas escritas com letras tão lindas e trabalhadas que quase nem dão para entender. As linhas são tortas e nosso discernimento difuso.

“Filho, sem precisar vir a mim, pois faço parte de ti, arrebata-te deste buraco profundo em que sentas, cujo molde seu corpo estampou, e vais até lá para ela. Aviso que serás triste, visto que a marcha é atlética e sem imediatas premiações. Contudo, se tu resistires saibas, tamanha a potência e grandeza do plano dos Céus, que a recompensa é tão doce e abundante que vós precisareis de um par de vidas para deleitar”.

Aceito. Punir-me, expor-me, aborrecer-te. Sigo o conselho que meu Velho ditou e colho lágrimas. Cada vez que estamos a discutir vem a mim sopro forte e som de trovão. O borrão é sangue seco, vermelho escuro quase, mas ainda não preto: marca de guerra. Observo o dilatar dos seus olhos em ataque de raiva. Odeia-me mais que tudo. Seus punhos cerram, o corpo todo enrijece. Diz que não me quer e diz para que eu não esquarteje a flor, tirando uma por uma de suas pétalas para saber, só na última, se me quer bem ou mal.

Ele é tolo! Manda-me ao deserto sem água para que eu desidrate até virar pó. Triste fim é perecer não na terra mas na areia que corre, nem base para flor poderei ser. Oh, carniceiros e higienizadores, nunca se esqueçam de mim, haja vista que enquanto vivo preservei meu corpo, não fumei, nem bebi.

Outra vez estamos ali. Nada será como antes. Não poderá ela ser o que foi antes de nos ferirmos. Seu escudo é campo de força, ao não vê-lo fico sem meios para desarmá-la, só esborrachar-me-ei causando em mim dor.

Tento. O bom maratonista sabe que muitas dores é prenúncio do fim da jornada. Choro. Ao sentir o relógio anunciar a contagem final sem que os objetivos sejam táteis, o sentimento é o da desistência. Acalmo-me. Estando o final logo ali, se fracassei foi porque tentei, bravo e insistente fui para chegar até aqui.

Enfim, estando serenos e maduros e com cicatrizes talhadas pela longa estrada, nos confessamos. Meus receios e medos foram meus algozes e tu viras todos eles como se fossem a mim. Nem desconfiava que estivesse ali sim, de fundo, perdido em mim mesmo, pedindo socorro por colecionar erros, sua repulsão e indiferença.

Resolvemos. Sem peso e com tudo clarificado pela luz do sol nos enxergamos como somos: imperfeitos, erráticos, confusos. Somos adoráveis aos olhos um do outro. Acostumamo-nos em parecer estranhos, mutantes mal-acabados, os exóticos de então.

Hoje sou capaz de afogar-me em seus olhos terra. Distingo o assobio de sua voz tão meiga e melodiosa. Posso perceber que rouxinol é diferente de avestruz. Seus cabelos hora negros, noutra vermelhos, castanhos sempre me induzem ao encanto. Seus lábios, por um tempo tão ressecados, voltam a ter encontros com batons. Suas roupas com decotes encabulados, de jovem mulher internamente rebelde e exteriormente charmosa e recatada, me acendem. Seu riso não é mais só isso, invade-me, faz meu coração entrar em ressonância com o seu e pulsar juntos.

Foi o fim que eu reclamei ao Velho, mas que não pedi com consciência. Do nada ganhei tudo. Do meu vegetativo mundo despertei para desbravar a vida real com a parceira ideal. Para nós não há muros, oceanos ou longos percursos: há muita espera, respeito e compreensão.

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