Uma rotina de tardes enlouquecidas

Aquela tarde que não pede boa tarde.

Aquela tarde inconclusa e introvertida. Tarde de lembranças e decepções por atitudes precipitadas e não pensadas. Era aquela tarde de quarta-feira. Estranho uma tarde de domingo em plena quarta-feira, mas era o que estava acontecendo.
As cabulosidades da mente embriagada e doentia de Dave sucumbiam seu raciocínio lógico, e lá estava ele, dentro do ônibus tentando disfarçar sua paranóia novamente.
Começa a procurar pela cartela de calmantes na sua bolsa marrom e desbotada, estava começando a ficar desesperado. Um senhor ao lado percebe, mas finge que não vê para não se dar o trabalho de tentar ajudar o confuso e atrapalhado rapaz.
Então Dave percebe que esqueceu sua cartela de calmantes, decepcionado e um pouco eufórico, ele desce do ônibus, alguns pontos antes do seu. Respira fundo e acende um cigarro. Mais calmo, começa a caminhar devagar.
Seu andar torto não esconde a embriaguez e sua feição não esconde sua expressão de tristeza.
Pois já fazia algum tempo que tinha perdido alguém.
Seu pai era seu melhor amigo, não se comunicavam muito, mal tinha troca de olhares entre os dois, mas um sabia que podia contar com o outro, ou talvez nem tanto.
Dave, um sociopata com um belíssimo poder persuasivo, conseguia o que queria dos outros sempre, mas nunca o que queria de si mesmo. Moldava as situações exatamente do seu jeito, conseguia contornar qualquer condição adversa, mas estava longe de ter a chave pra sua inteligência emocional.
Dave não era altruísta e muito menos empático, a não ser que fosse para conseguir coisas de seu próprio interesse. Era difícil entender como funcionava sua mente.
Tinha mania de pegar o carro de seu pai escondido às madrugadas para correr, dizia ele que acalmava seu estado ansioso, evitando uma crise de pânico.
 — “Mentira! Balela! Ele só faz isso pra correr bêbado de madrugada!”
Dizia seu pai inconformado com a rebelde atitude do jovem.
Era um garoto de muitos defeitos, mas também tinha suas maravilhosas qualidades. 
Eu podia enxergar esse garoto desde o dia em que você me deixou na maternidade, não te culpo pela saudade, sei que seu pequeno pulmão era fraco pra aguentar aquela pneumonia. Na verdade, me culpo. Eu podia ter feito mais, sei que podia.

Eu sinto sua falta Dave, e essa história não foi sobre você, e sim sobre mim, seu enlouquecido pai.

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