Por que eu quero fazer um mochilão pela América do Sul sozinho?

Um pouco sobre uma reflexão que tem tirado um pouco do meu sono nos últimos dias

Olá, seja bem-vindo, seja bem-vinda, entre, sente-se, fique à vontade. É a primeira vez que posto aqui nesta rede social chamada Medium. Não sei bem ao certo o que esperar daqui. Um amigo meu (abraço pro André) disse que este espaço é aparentemente um espaço para refletir, pensar e provocar de forma digna de modo que não gere um certo desgaste comparado ao textão na rede social ao lado, além de permitir textos mais elaborados e expressar as ideias de forma mais contundente do que no Twitter. Assim, usarei esta rede social para justamente expressar meus pensamentos, ideias e sentimentos em mais de 140 caracteres e de modo que você não sinta que é um textão daqueles que você fica cansado de ler ao ver o link ‘continuar lendo’.

Vamos lá. Começarei minha vida nesta rede falando sobre uma das coisas que eu mais gosto: viajar. Minha narrativa começa com a história sobre uma vontade que nasceu em mim sabe-se lá quando e ganhou força após a Copa de 2014 (saudades eternas): viajar pela América do Sul. Quando eu disse “sabe-se lá quando” foi porque um pouco dessa vontade surgiu quando eu, ainda adolescente (ou pré-adolescente, não lembro ao certo), estava assistindo a um desses canais educativos (Discovery Channel, Animal Planet, NatGeo etc.) e vi uma propaganda turística sobre o Chile, focando especificamente na parte sul do país: lagos, montanhas, florestas e ‘santuário de baleias’. Aquilo me fascinou e me fez dizer: “tenho que conhecer esse lugar”. Ao mesmo tempo, na minha adolescência de comprador compulsivo de revistas de videogame, leitor de mangás e espectador de animes como Yu Yu Hakusho e Samurai X, a forma como os mangás, as revistas de jogos eletrônicos e os desenhos falavam sobre o Japão despertaram em mim um interesse em conhecer a terra do sol nascente (principalmente Samurai X que retrata um pouco do Japão da segunda metade do século XIX, recomendo), o que brecou um pouco o interesse pela América do Sul. Porém passada a adolescência ‘otaku’, me embrenhei no mundo dos filmes e séries e o desejo turístico passou para duas cidades que são a inspiração para o nome do tecido ‘nylon’: Londres e Nova York. Fazia planos. Economizava dinheiros e dinheiros mas o sonho, por diversos motivos, ficava distante a cada ano. Em julho de 2011, pela primeira vez atravessei a fronteira do Brasil: fui para Foz do Iguaçu, revi meu irmão e minha cunhada, conheci minhas duas sobrinhas mais novas e visitei Puerto Iguazú, na Argentina (e as Cataratas Argentinas também, claro), a Itaipu, fiz compras no Paraguai (numa época em que o dólar estava cotado a R$1,56, saudades eternas) e outros pontos legais de Foz. Pouco tempo depois, ainda no mesmo ano, participei de um evento na Universidade LaSalle, em Niterói, intitulado Fórum Sul-Americano de Turismo e Negócios, no qual representantes de alguns dos países da América do Sul estiveram presentes e falaram sobre como o turismo estava impactando de forma positiva em suas economias, o que esses países tinham de bonito e por que deveríamos viajar para alguns deles (e por que não, todos). Para quem não entendia uma só palavra de espanhol, consegui entender tudo o que foi dito naquele evento e aquilo me deixou muito contente (e também fez com que eu me achasse O POLIGLOTA).

Imagem meramente ilustrativa.

Pulemos para junho de 2014 quando a Copa, a tão esperada Copa do Mundo, de polêmicas e contradições, voltou a ser sediada no Brasil depois de 64 anos. Ah, a Copa. O Fuleco. O ‘oeaaa’. O ‘armeration’. A Costa Rica. A Argélia. O 7 a 1 (foi pouco!). No período do evento, trabalhei para o Observatório do Turismo do Estado do Rio de Janeiro (do qual eu orgulhosamente sou pesquisador bolsista), da Faculdade de Turismo e Hotelaria da UFF (da qual orgulhosamente sou aluno). Trabalhei aplicando questionários com turistas do lado de fora do Maracanã (nos dias de alguns jogos) e em Copacabana, no FIFA Fan Fest. Nunca havia falado tanto portunhol na minha vida e fiquei abismado quando uma turista espanhola que estava respondendo o questionário me perguntou se eu era brasileiro e ficou encantada quando eu disse que era. “¡Hablas español muy bien!”, ela me disse. Ri por dentro. Além disso, o contato com sul-americanos e latinos de outras nacionalidades foi intenso durante o evento (vide os mexicanos fantasiados de Quico, Chaves e Chapolin com quem eu tirei foto nos arredores do Maracanã). Argentina x Bósnia, Espanha x Chile, Equador x França… com o portunhol aflorado e com o contato com essa gente intensificado, achei que deveria investir em uma viagem por aqui mesmo, já que são países próximos e mais baratos do que Europa e América do Norte. Começava ali o renascimento do desejo por percorrer terras sul-americanas.

Os mexicanos de que falei há pouco.

Viajei de novo para Foz assim que a Copa acabou e novamente atravessei as fronteiras com Argentina e Paraguai e fiquei mais certo de que o destino que eu queria era rodar a América do Sul. Assim feito, comecei a fazer planos, projeções financeiras, roteiros, day by day, o que visitar, quanto custa, quanto é o transporte entre as cidades etc. Planejei coisas pequenas, planejei coisas loucas, nunca sabendo ao certo qual roteiro era o definitivo. A única certeza que tinha era que acabando a faculdade eu embarcaria numa viagem pelo continente.

Hoje, com 24 anos, costumo dizer que estou pronto. Dia 2 abril de 2016 o semestre letivo termina. Junto com ele se encerra o meu ciclo na (mãe) UFF. Sem pensar duas vezes, troquei meus pontos de milhagem na Avianca por uma passagem apenas de ida para Bogotá partindo de São Paulo no dia 16 do referido mês. Por vezes desenhei e redesenhei o roteiro. Quais pontos turísticos visitar em cada cidade, quanto tempo ficar em cada lugar, em qual hostel ficar, pedir carona ou pegar busão… tudo isso planejado sabendo que uma viagem de caráter mochilão é bastante desafiadora e sempre depende de fatores que o cidadão não tem controle nenhum (desastres naturais como um terremoto, por exemplo) e com os quais pode vir a se deparar no decorrer de sua jornada, de modo que ele deve estar sempre preparado para mudar seu roteiro conforme a situação se desenha. Acabou que o plano de viagem ficou estabelecido da seguinte forma: começar em Bogotá e descer o continente passando por Equador, Peru, Bolívia, Chile até o extremo sul da Argentina, em Ushuaia, para depois subir o continente novamente até voltar para minha casa, passando pelo Uruguai e o Sul do Brasil. Sim, bem hardcore e pesado para um primeiro mochilão. Sem data para volta. E sozinho.

Apesar do caráter punk da viagem, acho o roteiro perfeitamente exequível. Entretanto, estaria tudo tranquilo e favorável se, conforme os meses que antecedem a data de embarque fossem chegando, eu ficasse mais animado, com mais tesão na viagem, quase em êxtase só de pensar em pegar o avião e pisar em solo colombiano e ter que me preparar para acostumar meus ouvidos e melhorar meu portunhol para que se transforme num castelhano quase perfeito. Não, não desanimei, não fiquei com medo e nem vou amarelar e chorar na cobrança de pênaltis. Longe disso, apenas comecei a me perguntar dia após dia: por que eu quero fazer isso? Qual é o meu motivo? O que eu busco?

Única imagem possível para ilustrar a ‘crise existencial’ que precede minha viagem.

Já parou pra pensar como uma pergunta dessa pode desgraçar completamente a cabeça de qualquer pessoa? “Por que eu aprendo a fórmula de Bhaskara?” “Por que eu aprendo o teorema de Pitágoras?” “Por que eu tenho que ler Iracema?” “Por que eu tenho que saber diferenciar parnasianismo de romantismo?” “Por que eu quero comprar um carro?” “Por que eu existo?”. Questionar é fundamental, afinal são as perguntas que movem o mundo, mas no meu caso específico, tanto podem me mover como podem me deixar estático. Pense em uma coisa que você quer muito para um futuro próximo. Pergunte-se por que você quer isso e você já encherá sua mente de dúvidas e incertezas — quiçá de insegurança. Não sou nenhum especialista em comportamento humano para afirmar que esse é um comportamento comum a todas as pessoas. Falo pela minha experiência de vida, pois sempre que me vi desejando algo sem me perguntar por que eu queria aquilo, se eu realmente queria, quando eu alcançava o objetivo o resultado nem sempre era o desejado para mim, ao contrário do que acontecia quando eu levantava esse questionamento.

Então, por que eu quero fazer isso? Reflito sobre essa questão e não encontro a resposta. Olho pra dentro de mim mas não encontro nada que me diga: “você quer fazer por isso”. Muito se fala que a maioria das pessoas que faz mochilões é porque está em busca de uma experiência de imersão na cultura do local visitado, de autoconhecimento ou autoaperfeiçoamento pessoal, de conhecer gente nova, ouvir outros idiomas, novos hábitos etc. Muito do que está aí é certo: quero ter mais contato com outras pessoas (locais ou turistas que nem eu), conhecer gente nova, aprender algo novo. Mas quando eu digo que “É ISSO”, a minha voz mental (tal qual aquele ~amigo~ escroto que conta piadas escrotas em momentos inoportunos e que só ele acha graça) logo me corta o tesão fazendo a seguinte pergunta: “É isso mesmo? Tem certeza?” E aí a certeza novamente vira dúvida. Pode ser que eu esteja querendo escapar de algo. Ou de alguém. Pode ser de mim mesmo, no caso, eu não sei. De quem eu esperava me tornar e em quem eu me tornei, talvez. Escapar da rotina que me foi imposta por mim mesmo, pela UFF, pela sociedade em geral, talvez.

Acordar cedo > banho > café > escovar dente > pegar ônibus > engarrafamento > aula > estágio > ônibus > engarrafamento > casa > fazer trabalho pro dia seguinte > dormir > repetir tudo isso no outro dia.

Como sou sempre um dos primeiros a entrar no ônibus (tanto pra ir quanto pra voltar), quando não durmo no busão, acabo sempre olhando pela janela e pensando na vida e no que essa rotina diz sobre mim para mim mesmo. Quase sempre acabo me vendo meio perdido nos pensamentos que passam pela minha mente. Vou me formar e por que não busco um emprego para garantir estabilidade financeira no setor privado e tentar um concurso público para ter um bom salário e uma garantia de estabilidade profissional? Por que eu vou, de certa forma, jogar quase tudo pro ar e embarcar numa jornada apenas com data de início?

Não acho a resposta. Recorro aos meus amigos. Quem melhor pra aconselhar em momentos de reflexão profunda como esse? Entre tantos “você podia ficar pelo menos até depois das Olimpíadas pra conseguir juntar mais dinheiro”, “se joga na viagem e vai, Jean, não pensa duas vezes” e “vai depois da formatura, porque aí você pelo menos vai ter o diploma na mão”, as palavras mais sábias que eu ouvi/li foram as do Lucas, apesar de ser um conselho difícil de se seguir. “Vá desprendido. Você quer encontrar a resposta pra essa sua fuga, mas nem sabe do que quer fugir. Vá desprendido. Não pense em trabalho, faculdade. NADA! Deixe as coisas acontecerem naturalmente (isso é um pagode, né?). Não fique grilado com algo que possa dar errado, também não queira buscar essa resposta agora. Talvez ela se revele quando você estiver lá. Talvez quando você voltar. Vai desprendido e seja feliz.” Na teoria é muito simples, na prática nem tanto, pois sabemos que a mente adora pregar peças na gente.

Talvez eu esteja alimentando meus próprios demônios, talvez esteja criando algo pra me deixar temeroso de ir para um país distante e seguir uma jornada que vai me tomar muito tempo. Ou talvez eu esteja procurando mais um motivo pra viajar esses lugares para que não sejam apenas lugares que visitei para postar fotos no Instagram, likes na rede social ao lado e muito menos pra postar avaliações pra ganhar pontos no TripAdvisor e no Multiplus. Reconheço que hoje em dia as mídias sociais são quase parte integrante das personalidades dos indivíduos e que garantem às pessoas um certo status (número de seguidores na rede, número de compartilhamentos/retweets e curtidas) e influência, além de garantirem certas regalias aos usuários (posts no TripAdvisor, por exemplo, podem ser convertidos em pontos Multiplus que podem ser trocados por passagens aéreas e outras coisas, corra atrás), mas não é isso que eu quero exatamente. Postarei no TripAdvisor para relatar minha experiência a outros consumidores e ajudá-los a tomar a decisão de conhecer os atrativos que eu conheci? Claro que sim! Mas esse não é o objetivo. O que eu quero é algo a mais, mas não sei o que esse algo a mais seja exatamente. E não é ser altamente conhecido na comunidade de mochileiros e com isso angariar mais amigos, seguidores e likes e compartilhamentos nas redes sociais, longe disso. Busco algo que dê um novo sentido à minha vida, que faça eu me sentir realizado, e não acho que um like ou ser seguido por mais de mil pessoas é algo que dê sentido à vida de alguém. Não quero ser alguém que a internet ou a sociedade que acha que querem que eu seja.

Tentarei seguir o conselho do meu amigo e me desprender esse sentimento e busca. Não tenho certeza de que encontrarei alguma resposta andando pelo mundo. As únicas certezas que possuo são de que morrerei um dia e que, se esse dia for (bem) depois de 16 de abril, após essa data começarei minha tentativa de me desprender desse sentimento de busca e, ao mesmo tempo, tentar encontrar o que quero. Pode ser que eu ache, pode ser que eu não ache — pode ser que a resposta fuja de mim para que eu sempre a busque por aí. Sei que aquele rapaz que estava sentado na televisão há mais de 10 anos provavelmente assistindo ao Discovery Channel jamais se perguntaria por que ele queria visitar o “Santuário de Baleias”, ele jamais acharia certo largar a casa dos pais sem ser pra formar a família dele ou porque arrumou emprego em outra cidade. Aquele Pokémon evoluiu e hoje quer ver um pouco do mundo e descobrir por que isso parece ser tão importante pra ele e pra descobrir também o que ele realmente quer da vida. O jeito agora é só contar os dias e esperar para que essa aventura enfim comece para que eu possa ver com meus próprios olhos as paisagens que eu tenho visto dia após dia no Google Imagens e me encantar com o que verei. Tal qual o pequeno Goku no GIF abaixo.

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