RESENHA: Cara Gente Branca — Netflix

Com a estreia da nova série da Netflix, Cara Gente Branca, no dia 28 do mês passado, uma pergunta surge: será que as pessoas estão mesmo com um problemão para ler — no caso, ver — e interpretar uma mensagem? Afinal, o que será que acontece quando elas veem uma série que diz “olha, vamos mostrar alguns fatos infelizmente verdadeiros que acontecem com os negros” e entendem isto “olha, fizemos uma série para mostrar como os negros são vitimistas e culpam o branco por tudo, sendo que é esse que realmente sofre racismo nessa sociedade desigual” ou “olha, fizemos uma série esquerdista-marxista-leninista-beyoncenista”.

E, caso você esteja pensando “não seja exagerada, Jéssica”, os sites especializados em críticas estão aí para provar que estou certa: no Rotten Tomates, Cara Gente Branca tem aprovação de 100% dos críticos que assistiram a série, mas 59% do público; no Metacritic, a crítica atribuiu uma nota 84 de 100, sendo que para o público, a série mereceu apenas 4.2 de 10; por último, no IMDb a votação é aberta para todos e a nota remetida foi de 5.4 em um total de 10.

Se compararmos as notas do público, por exemplo, com outras séries da Netflix que possuem problemas técnicos graves, como enredo fraco e direção duvidosa, a questão se torna mais grave: Os 13 porquês — série que teve grande adesão do público e inúmeros textões nas redes sociais explicando o porquê você também é um porquê — tem pelo Rotten Tomates e IMDb, respectivamente, aprovação de 86% e nota de 8,8/10; já Punho de Ferro tem 79% de aprovação e nota de 7,2/10.

Ainda fazendo um paralelo com as séries da Netflix, durante a campanha de preservação da imagem de Os 13 porquês, ficou claro que machismo e homofobia podem desencadear crises depressivas violentas e, dessa forma, terem um final trágico. Todavia, textos que explicitavam também as consequências do racismo para jovens negros sequer foram trazidos para discussão. Em 2014, a socióloga Trenette Clark apresentou um estudo que mostra que pessoas negras estão mais predispostas a terem ansiedade e depressão por causa do racismo.

Cara Gente Branca — A SÉRIE

Para aqueles que ainda não sabem, a série da Netflix foi inspirada no filme Dear White People (2014), do mesmo diretor, Justin Simien (você pode ler a resenha dele aqui). Ao contrário do que se imaginava, Cara Gente Branca não é nem uma continuação e nem uma expansão da história do filme, mas uma mistura dos dois, então você pode assistir a série sem se preocupar se está perdendo algo de importante para o desenrolar da trama, que se inicia expondo os efeitos de uma festa de Halloween organizada por estudantes brancos da University Winchester com a temática “afro-americana”, no maior estilo blackface.

Assim, se no filme tínhamos quatro protagonistas que desencadeavam as ações do enredo, no seriado temos cinco: Samantha “Sam” White, Lionel Higgins, Troy Fairbanks, Colandrea “Coco” Conners e Reggie Green. Reggie não é uma personagem nova, pois já fazia parte do filme, mas tem grande importância na série e, por isso, ao meu ver, é um dos protagonistas.

O roteiro peca em alguns pontos, como o não desenvolvimento das personagens Sam e Troy, já que Samantha é mostrada do começo até o final da série como uma garota militante e encrenqueira, que não pensa nas consequências de suas ações, enquanto Troy continua sendo um cara mimado que vive sob o olhar vigilante de seu pai, reitor dos estudantes, Dean Fairbanks. Talvez essas personagens possam evoluir em uma segunda temporada, já que os pontos soltos da primeira temporada estão intrinsecamente envolvidos com as duas.

Em contrapartida, Coco é a que mais se desenvolve no decorrer dos capítulos, mostrando um lado sensível. Se no filme esse lado aparecia em raras ocasiões, no seriado ele prevalece, explicitando o porquê da personagem se distanciar de movimentos militantes negros. Para ela, a autopreservação é algo mais importante do que se expor, como faz Sam, em uma luta coletiva que pode gerar desgastes emocionais. Lionel também cresce no desenrolar dos episódios, entretanto, a timidez na qual a personagem está envolvida se torna um embate para que ela possa sair da bolha em que se encontra, o que as vezes da a sensação de que ela não sai do lugar.

Há ainda duas personagens que foram inseridas na trama: Joelle Brooks e o queniano Rashid Bakr. Joelle é a melhor amiga de Sam e também faz parte da militância negra dentro da Universidade Winchester, além disso é legal perceber que Joelle contribui muito para a personagem de Sam, pois se no filme tínhamos a impressão de que Sam era uma garota cercada de pessoas, mas sem ter uma amizade profunda e verdadeira com alguém, na série Sam tem alguém com quem contar. Já Rashid é traz a trama outra questão pouco discutida: ser um negro americano não é o mesmo que ser um negro africano.

Vale muito ver a série como uma comédia, que é o que ela é na verdade, não lhe atribuindo caráter de manifesto. Talvez porque é o riso se torne amargo e fique numa linha tênue entre o mal-estar e o perigo de se identificar com os acontecimentos mostrados, seja como agente seja como receptor.

Por fim, vale ressaltar que o quinto episódio foi dirigido por ninguém mais que Barry Jenkins, diretor de Moonlight, vencedor da categoria no Oscar de 2017 de Melhor Filme.