Adeus ao relógio
Quem sou eu para acreditar que assim num piscar de olhos que as coisas melhorariam, deixariam de ser amargas para serem doces? Estou colhendo o que plantei, e pelo visto tudo que semeei foi ódio, ganancia e desejos egoístas no solo infértil de meu coração, que quase todos os dias segue me passando a razão e me arrastando ao fundo do poço.
O mundo segue a dar voltas, girando as estações como engrenagens de grandes maquinas de tear, costurando cada uma das doloridas fissuras do coração. Meus problemas continuam a me cercar, de todos os lados não encontro a saída, eles me atormentam dia e noite, fazendo-me desabar sobre o pó da minha pela castigada pela lepra do pecado. Rasgando-me por dentro, a solidão me faz alto gritar, mas ninguém está lá para me ouvir, ou talvez lamentar por meu estado de amargura profunda, e enquanto vou me partindo por dentro, por fora estou sorrindo como se tudo estivesse bem, quando na verdade nada está. Talvez seja essa a minha companheira de todos os dias, os problemas que me cercam e a finitude que me consome. Vou engolindo o choro na esperança de minha sede por não mais viver saciar; qual homem pode querer viver assim? É tudo minha culpa, tinha tudo nas mãos, mas os coloquei em lugares errados, eis aqui os resultados, rastejando como um verme em terra seca, fazendo das lagrimas o consolo para o castigo no deserto, como se nada mais importasse vou tentando de tudo isso, quem será conseguir, preferencialmente para o mais longe possível. Vou tentar respirar fundo para não perecer sem ar, sufocado pelo turbilhão de coisas que descem sobre mim, pesando mais do que meus ombros podem suportar, rolando ladeira abaixo nesse deserto onde não existe latitude e longitude ou norte e sul.
Amigos, onde estão vocês que não me procuram nesse fim? Acho que estou enganado, talvez nesse século amigos não existam, talvez sejam somente lendas, que se sustentam em promessas vãs, quem muito promete deve ser porque não pode simplesmente cumprir nada que fala. Talvez na cidade da luz não exista dor, quem sabe eu possa encontrar paz um dia. Talvez eu só esteja sonhando, mas não consiga acordar.
