Cultura: apenas um som de fundo
Após um bom tempo sem ir no popular Sarau de Segunda — evento que, como o nome indica, ocorre todas as segundas-feiras na Praça dos Imigrantes, no centro de Campo Grande —, resolvi dar uma passada para verificar como anda. Para a minha surpresa, a praça estava lotada de forma como jamais vi. Havia uma pluralidade de pessoas impar, de bebês a idosos, passando por uma enorme onda de jovens. Contudo, não levou muito tempo para eu perceber que aquilo o que poderia ser algo bom para o evento — a grande quantidade de pessoas — fosse, na verdade, algo prejudicial para o mesmo.

O sarau, para aqueles que não conhece, existe há 5 anos. Nele, artistas de todos os tipos realizam apresentações, artesões vendem seus produtos e algumas pessoas tiram um dinheirinho extra com a venda de lanches, bebidas, discos e até mesmo roupas — tem espaço pra todo mundo!
De forma gradual, o público foi aumentando com o tempo, surgindo até mesmo embates entre aqueles que moram nos arredores com aqueles que frequentam a praça por conta do barulho. Se antes o sarau ficava restrito pela velha guarda, hoje podemos notar um grande número de jovens apresentando seu talento musical e poético — sim, não há lugar apenas para a música, a poesia tomou conta do microfone, seja como forma de protesto ao governo, seja como forma de externar aquilo o que está no fundo do coração. E eis onde começa a problemática.
No início do ano, quando eu era mais frequente no sarau, era possível ouvir claramente cada nuance das palavras externadas pelos poetas e cada nota dos músicos. Após um período, solicitando silêncio e respeito daqueles que estavam no local, também era possível prestigiar os artistas. Ocorre que, com o grande aumento no número de frequentadores, tornou-se impossível prestigiá-los. A cultura, mais uma vez tornou-se num som de fundo, o que, infelizmente, é comum na cidade.
Costumeiramente ouve-se de um campo-grandense que na cidade não tem muito o que fazer, não há muita opção de lazer e as poucas opções que existem vão fechando/acabando, aos poucos. Todavia, muitas vezes a responsabilidade disso cabe aos próprios “frequentadores” — se é que assim podem ser chamados.
A tradição campo-grandense com relação a eventos é ir e ficar na frente do local bebendo —lembrem-se da Brava, do Resista (que não resistiu), do Holandês e tantos outros bares que fecharam as portas. Não há a cultura de prestigiar a cultura.
Com base nessa cultura de desprestigio, nota-se artistas esgueirarem-se de eventos do tipo e locais fechando suas portas pelo mesmo motivo: o público não prestigia, não ajuda sequer consumindo do local, ou pagando entrada ou ajudando no chapéu colaborativo. Esquecem que a arte muitas vezes não é apenas a maneira pela qual alguém manifesta sua mensagem, torna-se na própria maneira da pessoa tirar um sustento.
Obviamente há aqueles que não possuem cacife para contribuírem monetariamente, entretanto a contribuição não necessariamente precisa ser financeira, o próprio prestígio do público para com o artista enuncia um valor que é inestimável a qualquer ser humano, o que não ocorre sem a presença ou a atenção daquele para com este.
Retomando ao Sarau. Embora a minha grande surpresa pelo número do público, proporcionalmente foi a minha tristeza pelos artistas que tornaram-se inaudíveis por esse público que outrora embora menor, deixava evidente a apreciação. Com base no histórico local, não consigo ver um futuro onde o sarau, como era conhecido, dure. Assim como ocorreu com tantos outros locais e eventos, observo que essa saturação fará com que o evento seja extinto caso a postura campo-grandense frente à cena cultural não mude.
