Sobre como iniciou nossa história

Em qual Brasil você vive? Faço-lhe esta pergunta porque sei que existem vários. Há uma diferença abissal entre as realidades existentes em nosso país tupiniquim. Espero que não veja a última palavra do trecho anterior como pejorativa, utilizei-a por ter origem de uma nação de índios que estava aqui antes dos portugueses “descobrirem” a Terra da Santa Cruz e é sobre isso que quero versar aqui.

Olhem essa foto, é de um reduto quase intocado do litoral sul paulista:

Praia do Una, Peruíbe — SP

Imaginem as naus portuguesas chegando por esse oceano que chamamos de Atlântico e ancorando nesta praia. É um cenário bem parecido com o que eles realmente encontraram por aqui quando ancoraram os primeiros navios em nossas terras e viram os primeiros indígenas, nus e armados de arco e flecha.

Agora leiam um pedaço da carta que Pero Vaz de Caminha encaminhou para a Vossa Alteza Dom Manuel sobre suas primeiras impressões daqui:

“Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.
Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.
Porém o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.”

Parafraseando-o: em se plantando tudo dá; porém, o melhor a se produzir nesta terra é salvar esta gente.

E aqui estamos, preocupados em salvaguardar os preceitos do neoliberalismo, um conceito de desenvolvimento que não pensa e nem respeita a Natureza como deveria, apenas a quem devemos explorar. Os nativos da Barra do Una vivem da pesca e nos feriados e temporada de férias de uma renda do “aluguel” do espaço dos campings. Nem eles nem nós fomos salvos pelos portugueses ou por quaisquer outros povos que aqui vieram tirar proveitos de nossas riquezas e impor o seu modelo de enriquecimento, porém, eles ainda respeitam a Natureza e dela sobrevivem, e quanto a nós, urbanitas, temos condições de fazer o mesmo?

Ainda temos regiões belíssimas e produtivas como essa, que podem ser fonte de renda tanto no turismo quanto da própria terra ou de suas águas. Uma relação de simbiose do ser humano com a Natureza. O Brasil tem esse enorme potencial que não é explorado da devida forma, acredito eu. Quantas Barras do Una existem nessa vastidão de limites etno-geográficos que chamamos de República Federativa do Brasil?

A reflexão que quero deixar aqui é de que não fomos salvos de forma alguma, sempre nos foi imposto o que fazer, isso envolve tudo na nossa história, desde os escravos (indígenas e negros); a exploração do Pau-Brasil, dos minérios; até um modelo econômico insustentável. Eu vejo potencial nesse país de mudar os rumos desse porvir, estancar a ferida das “veias abertas” e começar a vivermos das nossas próprias riquezas e não do que nos dizem que é bom de se viver.