Uma crônica sobre tênis coloridos, atrasos e julgamentos

Jefferson Nóbrega
Sep 6, 2018 · 2 min read

Encontrei com um amigo no shopping agora pouco, ele me contou uma história que me levou à reflexão. Ele tinha acabado de comprar um tênis. Contou-me que mais cedo levantou completamente atrasado, daquela forma zumbi, onde fazemos tudo no mais automático do desespero, pensando unicamente no monstro relógio de ponto que se alimenta de fartos pedaços de nossa vida diariamente. Vestiu-se em tempo recorde, sem sequer minutos disponíveis para comer, respirar ou olhar-se no espelho. Correu literalmente para alcançar o ônibus, pois ônibus é igual bumbum, não se pega se conquista. Desceu na rodoviária e apressou os passos até chegar ao trabalho com o mínimo de atraso possível.

Já no serviço, em busca do elixir diário feita pela simpática “tia do café”, uma mulher que trabalha no mesmo prédio e que nunca havia falado com ele, após o bom dia, soltou um “gostei do seu estilo”. Ela definitivamente é a mulher mais estilosa que ele conhece, desde as roupas ao cabelo azul, apaixonante classificou, dessa forma recebeu uma boa dose de auto-estima acompanhada da dúvida e de “qual o motivo do elogio?”, “Que estilo eu tenho?”.

Foi nesse momento que olhou para os pés e percebeu que havia saído de casa com pares de cores diferentes, um pé branco e outro vermelho. O desespero bateu! Tinha feito aquele caminho todo, passado por dezenas e dezenas de pessoas calçado daquela forma? Vergonha póstuma. Correu no shopping e comprou o par de tênis mais barato que encontrou e diga-se de passagem bem padrão. “Mas, se ninguém tinha percebido por que comprar?”. “Você acha que eu ia ficar andando com tênis de cores diferente igual um doido?”, me respondeu.

Assim veio-me a reflexão, quantas vezes deixamos de fazer coisas que queremos por ter medo do que pensarão de nós? E deixamos sem notar que as pessoas estão tão mergulhadas nesse mesmo pensamento que não sobra muito tempo para reparar ao redor. É um ciclo vicioso onde ninguém vive como quer de fato.

E lá se foi embora meu amigo, com um par de tênis completamente preto, em meio à multidão e pares igualmente padronizados.

Hoje serei o maluco do tênis colorido atraindo a atenção de quem realmente importa ou serei o padrão tentando soar bem aos olhos de quem sequer me olha? Não se trata de sair por aí inventando moda, de por um nike amarelo e um Adidas vermelho, mas sim de fazer o que deseja sem se importar com o que pensarão.

É clichê? É sim! E isso é o mais assustador.

Jefferson Nóbrega

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Escritor de ficção e fantasia e rapper. Não é uma combinação muito comum, mas é fascinante.