Intuição

“Voltar para os Estados Unidos foi, para mim, um choque cultural muito maior do que ir para a Índia. As pessoas no interior da Índia não usam o intelecto como nós, elas usam a intuição, e sua intuição é muito mais desenvolvida do que no resto do mundo. A intuição é uma coisa muito poderosa, mais potente do que o intelecto, na minha opinião. Isso teve uma grande influência sobre meu trabalho.

O pensamento racional ocidental não é uma característica humana inata; é aprendido e é a grande conquista da civilização ocidental. Nas aldeias da Índia, eles nunca o aprenderam. Eles aprenderam outra coisa, que de certo modo é tão valiosa quanto, mas de outra maneira não é. Trata-se do poder da intuição e da sabedoria experiencial.

Ao voltar, depois de sete meses em aldeias indianas, vi a loucura do mundo ocidental, bem como sua capacidade para o pensamento racional. Se você simplesmente sentar e observar, verá como sua mente é inquieta. Se tentar acalmá-la, isso só torna as coisas piores, mas com o tempo ela se acalma, e quando isso acontece há espaço para ouvir coisas mais sutis — é quando sua intuição começa a florescer e você começa a ver as coisas com mais clareza e estar mais no presente. Sua mente simplesmente fica mais lenta, e você vê uma expansão tremenda no momento. Você vê tanta coisa que poderia ser visto antes. É uma disciplina, você tem que praticá-la.” — Steve Jobs (palavras transcritas no livro Steve Jobs por Walter Isaacson, 2011).

Sempre ouvi muitas pessoas dizerem “siga o seu coração”. E essa simples frase, para mim, queria se referir a seguir uma vontade inexplicada pela opção de algo. Mas isso que é inexplicado, na verdade, nunca morou no coração. Tampouco trata-se do tal sexto sentido. Para mim, trata-se de uma vontade criada pela concatenação de conhecimentos que você já possui e que de certa forma ainda não foram conectados uns aos outros. Isso remete a outra famosa frase de Jobs, porém relacionada a inovação: “ligue os pontos”.

No livro intitulado “Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar”, Daniel Kahneman, teórico israelense ganhador de prêmio Nobel, faz observações relevantes sobre duas possíveis formas de pensar: a rápida, relacionada a intuição e a devagar, relacionada ao pensamento laboroso. Com exemplos práticos extraídos de inúmeras experiências, Kahneman afirma que a construção do pensamento intuitivo, ou melhor, da própria intuição, está diretamente relacionada ao domínio sobre um determinado conhecimento que um sujeito possa ter e que esse conhecimento pode ser subjetivo ou não. Para melhor esclarecer, Kahneman traz em seu livro diversos exemplos, dentre os quais achei dois bastante interessantes: 1. qualquer enxadrista realmente profissional consegue antever até 3 movimentos para cada peça do tabuleiro apenas de olhar para ele, sem “parar para pensar”; 2. um certo técnico de tênis consegue prever em 100% dos casos quando um atleta irá cometer dupla falta. Nesses dois casos a intuição é construída a partir da repetição. No entanto, o enxadrista utiliza o acúmulo de pensamentos exatos e o técnico de tênis, faz uso do seu arcabouço subjetivo, já que ele não tem como medir as inúmeras variáveis que um atleta está utilizando no momento do saque, é tudo uma questão de “olho clínico”.

Talvez a intuição mencionada por Jobs não seja a mesma descria por Kahneman, o que é possível, haja vista que atualmente diversos estudiosos da psicologia dividem a intuição em 3 tipos diferentes. O tipo 1 está relacionado ao raciocínio simples, como saber, mesmo sem entrar em detalhes físicos, que não se deve comer uma pedra. O tipo 2 é o conhecimento acumulado pela prática, onde o cérebro passa a agir de forma automatizada, como dirigir um automóvel. O tipo 3 fala sobre resolver problemas complexos sem aplicar um raciocínio lógico ou complexo, de forma inexplicada. Em comparação simples, a teoria de Kahneman se aproxima dos tipos 1 e 2, já a intuição descrita por Jobs, pode se assemelhar mais com o tipo 3.

O tipo 3 de intuição não possui uma explicação lógica. É algo que tanto a ciência quanto a psicologia não consegue explicar. Por isso, muitas vezes ela é atribuída a fenômenos paranormais como premonição, por exemplo: uma pessoa pode sonhar que seu avião irá cair, por isso decide não embarcar e o avião simplesmente cai. Para Kahneman essa intuição é ilusória e seu acontecimento está relacionado a questões probabilísticas. Pois, quando uma mente apresenta medo, automaticamente ela tenta calcular os riscos, quando o risco se torna insuportável, a mente envia um alerta ao corpo sugerindo que a pessoa tome alguma decisão sobre como agir. Quando coincidentemente o risco se confirma e uma situação negativa é evitada, as pessoas atribuem esse fato ao inexplicado, a uma premonição e até mesmo, a um possível conhecimento espiritual.

Sabe-se que na Índia o nível de espiritualidade é bastante alto e se levarmos em consideração que Jobs falava precisamente do interior da Índia, podemos admitir que esse nível espiritual é ainda mais elevado. No entanto, tente considerar que o conhecimento desse povo, não exemplificado por Jobs, mas admitido por ele, possa ser fruto da intuição subjetiva descrita por Kahneman. Nesse caso, a comparação e a repetição seriam ferramentas importantes para entregar a esses povos a capacidade de compreensão sobre o meio. Entretanto, ao trazermos para esse raciocínio alguns dos conceitos descritos por Henri Bergson, filósofo francês, podemos destacar uma peça chave: o tempo uno.

De acordo com Bergson, o tempo vivido é o passado vivo no presente e aberto ao futuro que compreende o real de modo imediato. É um tempo indivisível por ser qualitativo e não quantitativo. Por um entendimento mais prático, entenda que enquanto você lê esse texto existem infinitas coisas acontecendo nesse exato instante, perto ou longe de você. Agora, se você tentasse somar o tempo físico de todas essas coisas impossível você teria um tempo astronomicamente maior em relação a fração de tempo que você usou na sua leitura.

Nesse momento, devo confessar a você que parei um pouco a escrita para pensar em como prosseguir e realizei dois exercícios práticos, o primeiro você poderá realizar com facilidade, o segundo talvez. Deixarei o segundo para um pouco mais adiante, vamos ao primeiro.

Exercício 1

Pare essa leitura e tente focar sua visão em algum objeto, mantenha o foco e abra sua percepção para tudo o que está ouvindo durante esse espaço de tempo. Ao final, tente perceber que sua visão lhe trouxe um conhecimento estritamente seu, era você e o objeto ou paisagem que você estava observando, já a audição lhe trouxe uma percepção virtual e parcial maior sobre o tempo uno, pois talvez tenha lhe permitido ouvir outras coisas acontecendo e que eram praticadas fora do seu campo de visão, como crianças brincando, carros e caminhões trafegando, operários trabalhando em reformas, portas sendo fechadas, passos e etc. Nesse caso, a audição demonstra possuir maior capacidade para absorver conhecimento dentro do tempo uno.

Agora tente imaginar o quanto você aprendeu durante toda a sua vida. Mesmo que você consiga quantificar isso, o fará de acordo com aquilo que você tem em seu consciente, no entanto, eu posso afirmar que você aprendeu muito mais coisas do que acredita ter aprendido. Isso porque certamente você leva em consideração apenas aquilo que reconhece, porém o seu inconsciente absorve, a todo tempo, tanto conhecimento quanto você consegue com a sua consciência. Para Bergson, todo esse arcabouço de conhecimento provido pelo inconsciente e que é acessado por você, faz parte da intuição. Mas, e se houvesse meios para você expandir ainda mais a sua capacidade de consciência sobre o tempo uno?

A filosofia budista prevê os cinco skandhas que são o amontoamento dos dados psicoperceptivos que compõem o mundo da “ilusão”. É muito importante aqui, entender que esse mundo da ilusão ao qual se refere essa parte do texto trata de todo conhecimento ordinário concebido pelo homem à partir da sua prática social, filosofia e descobertas tecnológicas bem como das formas físicas existentes na natureza, pois tudo isso é passageiro e vive em constante transformação. Sob essa concepção a filosofia budista determina que tudo é vazio e que deveríamos todos compreender, através da contemplação, que nada pode ser dissociado do todo. Ao prosseguir por aqui, chegaríamos em conceitos mais profundos do budismo que nos levariam a ideias que não poderiam colaborar com a nossa tentativa de entendimento da intuição, por isso, ficaremos apenas com os skandhas.

De acordo com o livro Budismo Puro e Simples de Hsign Yün, mestre budista nascido em 1927 na China, Buda disse que os cinco skandhas sucedem-se com muita rapidez. A trajetória do primeiro ao quinto requer apenas uma fração de segundo. Trata-se de momentos de cognição, agrupados em torno do fluxo de intenções que dá origem a novos pensamentos, inclusive a sensação de individualidade (egó, em grego). Os cinco skandhas são descritos da seguinte maneira por Hsing Yün:

Forma: algo que estimula ou engendra o segundo skandha: a sensação. A forma pode ser um objeto, um som, um odor, um sabor, um toque, uma lembrança, um pensamento, um sonho ou qualquer outra coisa que incentive uma posterior atividade mental.

Sensação: depois que aparece a forma, vem a sensação correlata, que pode ser agradável, desagradável ou neutra.

Percepção: responsável por seguir à sensação da forma.

Atividade mental: assim que a forma é percebida, inicia-se a atividade mental. Memórias surgem, reações iniciam-se, hábitos comportamentais põem-se em andamento. Cada unidade de atividade mental pode ser analisada como uma forma. Considerada em seu conjunto, essa miríade de formas de atividade mental compõe um todo bastante complexo sobre o qual se baseia o último skandha: a consciência individual.

Consciência individual: por ter uma formação complexa que depende de muitos elementos, o Buda disse ser ela vazia. Embora possamos acreditar que nossa consciência individual é real e duradoura, a compreensão clara dos quatro primeiros skandhas deve levar à conclusão de que ela não é uma entidade auto suficiente e permanente. Ela é uma “falsa aparência”, uma ilusão.

Antes de ir um pouco mais além, vamos relembrar um pequena parte dos parágrafos iniciais, onde são transcritas algumas palavras de Jobs: “Se você simplesmente sentar e observar, verá como sua mente é inquieta. Se tentar acalmá-la, isso só torna as coisas piores, mas com o tempo ela se acalma, e quando isso acontece há espaço para ouvir coisas mais sutis — é quando sua intuição começa a florescer e você começa a ver as coisas com mais clareza e estar mais no presente. Sua mente simplesmente fica mais lenta, e você vê uma expansão tremenda no momento. “

Temos um bocado de coisas para refletir sobre essas palavras de Jobs. Percebam que após acalmar sua mente, ele diz conseguir ouvir coisas mais sutis. Ele estaria realmente falando do sentido da audição ou da capacidade de observar e absorver coisas mais sutis? O importante é que a partir daí ele afirmou perceber sua intuição de forma mais aflorada e o tempo presente se tornou mais sensível. Jobs era praticante do Zen Budista e meditava no Tassajara Zen Mountain Center, em Camel Valley na Califórnia. Sempre que posso, também pratico a meditação, em especial no Templo Zu Lai, em Cotia no interior de São Paulo. Já tive experiências memoráveis com a meditação e posso afirmar que a narrativa de Jobs é verdadeira.

Durante a prática da meditação você relaxa o corpo e acessa a sua mente, agora mais quieta. Esse relaxamento reduz o gasto de energia com a coordenação motora, com o trabalho de alguns órgão vitais e com o processamento dos pensamentos. Esse é o momento em que se pode praticar a contemplação dita por Hsign Yün e observar os momentos de cognições através dos skandhas, seria como observar de forma consciente a ocorrência de conhecimentos que geralmente ocorrem no seu inconsciente e que podem ser utilizados pela intuição. Isso só se torna possível porque você assume o controle da mente a modifica sua relação com o tempo presente, elevando sua percepção do tempo uno.

Exercício 2

Procure uma superfície grande e escura, inicie focando essa superfície e lentamente tente desfocar sua visão, sem deixar de apontar sua visão para a superfície escolhida. Ao mesmo tempo que tenta desfocar sua visão, tente relaxar seu corpo, solte-o e respire com mais tranquilidade. Agora tente focar no que está entre seus olhos e a superfície escura, tente focar sua vista no ar, ou melhor, nas micropartículas que dançam por ele. Não é um exercício fácil para quem nunca meditou, mas eu afirmo que é possível.

Conclusão

Não há uma verdade sobre a intuição, ela simplesmente ocorre. No entanto, me sinto confortável em aceitar os estudos de Kahneman como uma forma de compreensão da intuição e a prática da meditação como estímulo. Isso porque nos meus casos particulares onde pude reconhecer a ação da intuição, sempre consegui perceber que se tratavam de ligações cognitivas de conhecimentos que de alguma forma eu já possuía, ou seja, não entendo que tenha sido “presenteado” com nenhum tipo de fenômeno de origem inexplicável. Ainda assim, também não há como duvidar que casos assim possam existir.

“The intuitive mind is a sacred gift and the rational mind is a faithful servant. We have created a society that honors the servant and has forgotten the gift.” — Albert Einstein

Artigo original em meu site pessoal: http://jeffersondevasconcelos.com/intuicao/