O cheiro do baú

Sinto cheiro de morte ao abrir o baú. “E como é que é esse tal cheiro?” — Você me pergunta. Que merda de pergunta. Nunca viu uma morte de perto, não? Falo morte, morte mesmo! Não gente morta. Gente morta é quando a morte já aconteceu. Não gente pra morrer, também. Gente pra morrer é quando a morte tá pra acontecer. Tô falando do momento da morte.

Eu quero dizer, imagine que há um bolo no forno e em determinado momento sobe aquele cheiro que faz a gente deduzir que o bolo está pronto. O momento em que sobe o cheiro da morte é parecido. O momento, não o cheiro. O cheiro tá mais pr’aquele que sobe no momento em que você abre aquele baú. “Que baú?” -O MEU baú, porra!

Eu preparava a mudança e as coisas iam bem. Altas expectativas de que tudo ia caminhar dali em diante. Eu sentia cheiro de avanço. “E como é esse tal cheiro de avanço?” — Não me lembro. O cheiro de morte me fez esquecer.

Entre uma pilha e outra de roupas velhas, o armário ia esvaziando e a mala ia enchendo, eis que ele estava ali, esquecido em um dos compartimentos daquele guarda-roupa que eu nem me lembrava da última vez que havia arrumado.

Então eu, que até aquele instante acreditava que passaria a ser um ‘eu’ diferente com aquele passo que estava dando, me senti tentado a pegar aquele baú e escancará-lo mesmo sabendo que seu efeito seria fatal para o tal ‘eu’ que eu almejava. Naquele momento eu só jogava na minha própria cara o tamanho da minha burrice.

“Agora vai!” — NÃO! “Hora de desapegar” -NÃO! “Eu devia ter enterrado essa merda!” — Talvez!

Eu escondi uma vida naquele baú e chamei de morte. Ao abri-lo, nem mesmo desviei da poeira e do cheiro que subiu. Eu me lembrava que o cheiro de dentro do baú não era tão ruim quando eu ainda chamava aquilo de vida.