O palestrante, aliás, devia ter déficit de atenção

Comecei pensando em como botar as coisas no lugar depois da turbulência… Entenda que quando digo turbulência, não digo de forma literal. Sequer já andei de avião na vida. Não aceito muito bem a ideia de estar tão longe do conforto deste chão, imagina só passar por uma turbulência real, como num filme. Só de ver uma cena de filme assim já passo mal. E olha que nem sou muito sensível para filme. Sou dos que dão risada vendo O Exorcista.

Mas, como ia dizendo, uma duradoura e figurativa turbulência andou bagunçando minhas coisas.

Não que minhas coisas já não sejam bagunçadas. Porque, gente, eu não sei o que acontece, mas eu vejo minhas coisas fora do lugar, sei que posso colocá-las de volta onde elas deveriam estar, mas sempre deixo para depois. Eu penso em começar a organizar meu quarto, me distraio com qualquer outra coisa, e, por fim, acabo não fazendo. Então, fico com a mente inquieta pensando que tem algo que eu deveria estar fazendo, mas não estou e nem mesmo me lembro o que é, devido a bagunça que já foi formada dentro da minha cabeça naquele momento, que, aliás, é justamente onde eu queria chegar.

Essas coisas que eu deveria organizar, além dos livros, papelada e diversos objetos inúteis espalhados pelo meu quarto, eram as ideias dentro da minha mente. Mente esta que está em estado de calamidade desde a turbulência metafórica que havia enfrentado nos meses anteriores.

Vocês estão conseguindo me acompanhar, né?

Estou tentando não perder o foco, pois sei que vocês estão aqui para entender os caminhos que tive que percorrer para chegar aonde de cheguei, mas já se passaram 10 minutos e eu não comecei a trilhar caminho nenhum, como se estivesse andando em círculos. Isso não acontece sempre, ok, gente?

Bom, tenho quase certeza de que a maior parte dos palestrantes que passaram por aqui lhes aconselharam a aceitar desafios, e não será muito diferente comigo.

Estejam certos de que se o seu maior desafiante é a sua mente, e o desafio for colocá-la em ordem, cada um de vocês vai ter que ser um Rocky Balboa!

Sim! Podem vestir o moletom, dar aquele shot de ovo cru e correr pra escadaria, pois a luta será pesada.

Vocês entendem as referências, né?

Dá pra sacar as metáforas numa boa?

Eu costumo fazer referências cinematográficas em minhas palestras e não sabia qual utilizar hoje, até ver que estava passando uma maratona do Rocky na TV. Veio a calhar.

Eu sei que a parte da violência é chata, mas vocês precisam ver a história de como o Stallone ralou para vender o roteiro do filme.

Opa! Acho que deu um problema na apresentação. Não to conseguindo abrir o slide certo. Não era esse agora. Ou será que era?

Com licença, pessoal do som! Já faz 20 minutos que esse microfone está falhando e eu estou tendo que gritar o tempo todo. Agora parece que pifou de vez.

Bom, como não gosto de perder o fio da meada, vou encerrar a palestra por aqui.

Agradeço a vocês 3 que ficaram até agora, desejo sorte a você aí que está dormindo! — Sim! Você mesmo! — E espero que os outros 40 que se retiraram não deixem de organizar suas mentes quando terminarem de falar mal de mim.