Como SKAM revolucionou os limites das séries adolescentes para sempre

O programa norueguês — que durou apenas quatro temporadas — rompeu definitivamente as barreiras tradicionais de linguagem audiovisual sobre temas adolescentes e inquietações de jovens adultos. Como isso aconteceu?

Julie no cenário do quarto de Isak, um dos protagonistas de SKAM

Skam é uma série filmada em Oslo, capital na Noruega. Idealizada, escrita e dirigida por uma única mulher, Julie Andem (35), o programa se tornou um sucesso sem precedentes na Escandinávia abrindo todo um novo rumo para o segmento. Ainda em 2016 teve os direitos comprados por Simon Fuller (American Idol) para produção de uma versão em língua inglesa que se chamará “Shame” e tem previsão de estreia para 2018.

Mas o que SKAM tem de tão diferente assim de outras séries adolescentes atuais?
Chris, Vilde, Eva, Noora e Sana, respectivamente, são o fio condutor da trama e estão conectadas a todos os outros personagens da série

Vamos começar com a semelhança: Julie se inspirou em Skins (2007, E4) para definir que cada personagem protagonizaria uma temporada. Mas as coincidências com a série inglesa começam e terminam nesse único ponto. Diferente do que se supõe pela sonoridade dos títulos, o termo “skam” em norueguês significa “vergonha”. É esse sentimento que cada protagonista traz a tona em sua temporada.

Todo tema é longamente conversado

Ansiedade, depressão, sexualidade, estupro, religião, feminismo, uso de drogas, racismo, crimes virtuais, imigração. Não existe assunto em SKAM que não seja escancarado da forma mais cotidiana possível. O programa levanta diversos debates atuais de forma crua, sem romantizá-los ou subestimar o público, fornecendo várias alternativas de pensamento — já que dificilmente os personagens concordam em uníssono. Uma das características principais da narrativa são os longos diálogos. Em todas as temporadas existem diálogos únicos de quatro a seis minutos — o que era considerado “cansativo” para audiências jovens até pouco tempo atrás.

Trechos de algumas discussões de Noora na segunda temporada

Nade de ostentação

Julie assumiu o porte de baixo orçamento do programa como um ponto a favor. Os cenários são casas e prédios reais, os atores usam suas próprias roupas e a direção de arte é toda pensada com itens comuns e pessoais da equipe. Não é difícil ver atores repetindo casacos e revezando sobreposições em diversos episódios. Isso imprime tal realidade na tela que, somados outros fatores, em alguns momentos fica difícil distinguir (ou se importar com) o que é ficção e realidade.

Os fãs podem visitar a maioria das locações

Os cenários serem de acesso público causou uma reação inesperada e o show acabou impulsionando o turismo em Oslo. A Escola Hartvig Nissen, um dos prédios mais visitados, recebe dezenas de expectadores por mês. Existe até um mapa das locações no site oficial da divisão de turismo da cidade.

Mapa das locações de SKAM atualizado constantemente disponível no site www.visitoslo.com

Apesar de produzido por uma emissora, SKAM não depende da tv e acontece em tempo real na internet sem necessidade de assinatura

O programa foi encomendado como um experimento. O propósito da NRK era tentar fazer os jovens noruegueses interagirem com as plataformas online do canal. Julie viajou por toda Noruega ouvindo meninas e meninos de 17 a 22 anos para criar cada detalhe de acordo com as necessidades do que/como elas e eles queriam assistir. Descobriu que poucos deles gostavam da ideia de esperar uma semana inteira por novo conteúdo. Então ela construiu um cronograma semanal de episódios que funciona da seguinte maneira:

  • De sábado a quinta são liberados clipes com trechos do episódio da semana. Não necessariamente na ordem correta;
  • No mesmo site são revelados, de surpresa em horários que tem a ver com a cronologia das cenas liberadas, material extra como: chat dos personagens, ligações via facetime, fotos e convites para eventos;
  • Toda sexta-feira a NRK exibe na televisão todos os clipes da semana compilados em ordem cronológica e algumas cenas inéditas, formando episódios completos.

Ou seja, todos os dias a emissora publica trechos inéditos do programa que podem ser acompanhados por qualquer pessoa de qualquer lugar pelo computador ou dispositivo móvel.

Avisos durante os episódios mostram em que dia da semana e horário os fatos aconteceram

O silêncio é bem vindo

A trilha sonora do programa é um apanhado de favoritas da diretora, equipe e elenco. A diferença de gerações causa uma seleção eclética que conta com músicas de dez anos atrás, como “Je Veux Te Voir” da cantora francesa Yelle lançada em 2007, até hits recentes de Selena Gomes e Lana Del Rey. Artistas noruegueses também tocam constantemente nas cenas. Uma delas, Gabrielle, até se tornou meme global na terceira temporada. Mas a trilha nem sempre está presente, o programa abusa de momentos de completo silêncio que talvez sejam até mais frequentes do que os clipes musicais.

Os personagens tem contas no Instagram

Essa parte é assustadoramente legal. A NRK também administra as contas dos personagens no Instagram com fotos exclusivas sempre feitas com celular de acordo com a rotina individual de cada um. Alguns atores mantém contas pessoais, outros não. O que torna ainda mais tênue a linha entre vida real e ficção. Tarjei, que interpreta Isak — o protagonista da temporada mais popular — , não tem conta em nenhuma rede social. O único jeito de acompanhar qualquer coisa sobre ele é seguindo o perfil do personagem.

O perfil do personagem Isak (@isakyaki) tem quase 1 milhão de seguidores

Cada episódio em média dura 20 minutos mas isso não é uma regra. Aliás, não existem regras.

Com raras exceções em ocasiões comemorativas ou finais de temporada, a maioria dos episódios de SKAM são bem curtinhos. E não existem regras sobre a quantidade de cenas. Alguns tem muitas informações e personagens, outros podem ser apenas duas ou três conversas longas do protagonista.

A audiência tem acesso a todos os chats

Quando um personagem usa o celular ou computador em SKAM, a tela do dispositivo é revelada e vemos tudo que está sendo lido, escrito ou até escrito e apagado antes do envio. As versões das conversas na íntegra são liberadas semanalmente no site oficial como conteúdo extra.

Sana lendo as mensagens de um grupo

Todos os papeis foram escritos especificamente para os atores que os interpretam

O elenco foi selecionado antes do roteiro existir. Julie auditou 1.200 atores, escreveu perfis para os que mais se enquadravam no que ela pretendia e depois os convidou para o projeto.

Existem muitas referências a cultura norueguesa que eram totalmente desconhecidas pela maioria das pessoas de outros lugares do mundo antes do programa

Logo na primeira temporada expectadores que não sejam nativos precisam se dedicar um pouco para entender o conceito “russ bus”, um ritual de formatura escandinavo. Existem também informações sobre a história e dados socioeconômicos da Noruega espalhados pelas temporadas. Obviamente a série é completamente falada em norueguês.

SKAM trouxe incontestavelmente uma renovação sobre o tom com que se deve falar com jovens. Criou novos conceitos universais sobre como o audiovisual nesse nicho pode ser mais real, tanto em níveis de produção quanto em discurso e até esteticamente. O frescor da série provoca esperança de um futuro com conteúdos menos engessados e lotados de clichês sobre comportamentos que não condizem com a realidade— e que são apenas projeções do que adultos acham sobre essa fase da vida ou ganchos robóticos para venda de produtos dos anunciantes.

Para assistir todas as temporadas legendadas pelo Portal SKAM clique aqui.

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