Drag Race, Pabllo Vittar e como o homem gay trata entretenimento de forma truculenta

Uma participante de RuPaul’s Drag Race foi eliminada por um deslize pessoal e desde então o apresentador do programa vem recebendo uma enxurrada de mensagens de ódio. Isso tá certo?

A drag Valentina, após uma sucessão de vitórias no jogo, não decorou a letra de “Greedy” da Ariana Grande e usou uma máscara para tentar esconder sua dublagem

Uma das melhores coisas que nós, homens gays, sabemos fazer é denunciar com humor a exclusão que convenções heteronormativas causam a quem destoa de seus padrões. Também apontamos frequentemente como ambientes heterossexuais são exclusivos e hostis.

Mas parece que ao mecanizarmos essa demanda esquecemos de fazer a autocrítica necessária para não repetirmos comportamentos contra os quais lutamos.

Por exemplo, Pabllo Vittar sofreu um susto enorme em Brasília no último fim de semana. Fãs invadiram o palco e um deles a derrubou violentamente. Visivelmente desestabilizada, a performer retomou o show aos prantos.

Algumas pessoas podem argumentar que essa situação aconteceu porque nós, brasileiros, somos um povo afetivamente caloroso e isso até faz lá seu sentido de forma isolada.

Mas, quanto gays — vivendo numa sociedade que nos massacra de formas física e moral diariamente e nos limita direitos básicos — criamos uma cultura própria que deveria ser baseada em tolerância e respeito. Nos agruparmos pela necessidade de criar lugares seguros da violência destinada a nossa experiência. Dentro desse contexto, comportamentos violentos, mesmo que bem intencionados em principio, não se tornam contraditórios?

Dezenas de comentários de ódio em postagem de RuPaul no Instagram após eliminação de Valentina

A drag queen Valentina, uma das favoritas de parte do público, foi eliminada por não ter estudado a música que a produção entrega as participantes para que dublem em caso de disputa pela permanência no programa. Segundo as regras que existem há nove temporadas, a participante que se sai melhor na performance continua no jogo.

RuPaul apenas seguiu o script do programa, porém nas redes sociais dezenas de emojis de cobra são comentados incansavelmente em todas as suas postagens, além de xingamentos pessoais como “vai se foder, sua bicha velha”.

Estamos bem próximos de estar tratando nossos poucos espaços de entretenimento do mesmo jeito que os homens héteros tratam os deles. Isso é saudável?

Quando paramos para refletir sobre o assunto percebemos que não é de hoje que alguns elementos do comportamento heteronormativo são reproduzidos em ambientes ocupados maioritariamente por homens gays.

Madonna e Lady Gaga em esquete do Saturday Night Live ironizando boatos de rivalidade criados por fãs e imprensa

É o caso da música pop feita por artistas mulheres, que é consumida massivamente por homens gays por causa da liberdade de gênero que essas cantoras impõem em suas personagens e performances, além da sonoridade e letras de empoderamento propícias a boates — que funcionam historicamente como lugares de acolhimento para a comunidade LGBT.

Uma grande parte dos homens gays tem relações problemáticas com esse tipo de entretenimento. Provocando rivalidade entre essas artistas como forma complementar de diversão e, consequentemente, abastecendo engrenagens machistas ao incitar competitividade entre mulheres — um velho artifício para desunião e enfraquecimento do grupo.

Por esses motivos precisamos com urgência reavaliar nossa relação com diversão e como tratamos as figuras conectadas a isso. Temos tendência a nos libertar de auto julgamento em momentos de descontração mas é necessário construirmos novos parâmetros baseados em carinho, gentileza e sobretudo respeito. Assim estaremos propagando a verdade do que queremos para nós mesmos e o caminho para alcançar nossos direitos quanto seres humanos com características não-padrão se tornarão mais claros universalmente.

Acredito que nos mantermos abertos a novas compreensões, experiências e perspectivas alheias as nossas funcione como um estudo para encontrar soluções pacíficas para essas diferenças. Então sejamos humanos e empáticos em todos os campos da nossa vida e — clichê porque clichês funcionam — a transformação que sonhamos só dependerá de nós.

Se nos esforçarmos para nos tornarmos homens melhores que os homens que nos odeiam, o ódio deles fará ainda menos sentido. Melhoremos!