A Mente Assombrada

Jeff Venancius
Jan 31 · 7 min read

Tradução do conto The Haunted Mind de Nathaniel Hawthorne.

Quão singular é o primeiro momento, quando se começa a reencontrar-se, após o inicio do crepúsculo sonolento! Ao desatar os olhos tão repentinamente que faz parecer com que você tenha surpreendido os personagens dos seu sonhos em total convocação envolta do seu leito, e tenha se aproveitado de um largo olhar neles antes que se deslizassem na obscuridade. Ou, para variar a metáfora, você se encontra em um singular instante completamente desperto naquele reino de ilusões onde o sono tenha sido o passaporte, e contempla seus espectrais habitantes e o cenário maravilhoso com a percepção do estranhamento tal que você jamais alcançaria enquanto o sonho não sofre distúrbios. O som distante do relógio de uma igreja nasce fragilmente no vento. Você se questiona, meio seriamente, se foi furtado do seu ouvido desperto de alguma torre cinzenta que permeava nos recintos do seu sonho. Enquanto ainda em suspense outro relógio lança seu som pesado sobre a cidade adormecida com tão cheio e distante som. E tão longo murmúrio no ar da vizinhança, que você tem certeza que deve proceder do campanário na esquina mais próxima; você conta as batidas — uma, duas; e ali elas cessam em um som estrondoso com a reunião da terceira batida dentro do sino.

Se você pudesse escolher uma hora de vigília entre toda a noite, seria essa hora. Desde a sóbria hora de dormir, as onze, você tem descansado o bastante para se ver livre da pressão da fadiga de ontem, enquanto por perto, até o sol vir do “longínquo Carthay” para iluminar sua janela, há quase o espaço de uma noite de verão — uma hora a ser gasta em pensamentos com os olhos da mente meio fechados, e duas horas em sonhos agradáveis, e duas horas naquele mais estranho dos prazeres, que é o esquecimento tanto da alegria quanto da angustia. O momento do amanhecer pertence a outro período de tempo, e parece tão distante que o desmergulho de uma cama quente para o ar gelado não pode ainda ser antecipado com desanimo. O ontem já se foi por entre as sombras do passado; o amanhã ainda não emergiu no futuro. Você se encontra no espaço intermediário onde os afazeres da vida não se intrometem, onde o momento passageiro permanece e se torna verdadeiramente o presente; um ponto onde o paterno tempo, quando acredita que ninguém o está observando, se senta no caminho para tomar folego. Onde ele quase cai no sono e deixa os mortais viverem sem envelhecer!

Até agora você ficou perfeitamente imóvel, porque qualquer mínimo movimento dissiparia os fragmentos de seu sono. Agora, tendo irrevogavelmente acordado, você espia pela cortina meio fechada, e observa que o vidro é ornamentado com fantásticos ornamentos em gelo, e que cada painel apresenta algo como um sonho gelado. Haverá tempo o bastante para traçar as analogias enquanto espera pelo raiar do sol para tomar o café da manhã. Vê através da parte limpa do vidro onde os picos de montanha prateadas no cenário de gelo não sobem, o objeto mais conspicuoso é o campanário, o pináculo branqueado que o leva ao brilho invernal do firmamento. Você pode quase distinguir as figuras do relógio que acabou de lhe dizer as horas. Céu tão gelado e telhados cobertos de neve e a longa vista da rua invernal, toda branca, e a água distante petrificada na pedra, pode fazer você tremer mesmo entre quatro cobertores e um cachecol de lã. Ainda assim veja está gloriosa estrela! Seus raios são distinguíveis de todo o resto, e até mesmo sombreia o batente da cama com o radiante mais profundo que a luz da lua, embora em não tão preciso esboço.

Você afunda e cobre a cabeça nas cobertas, tremendo o tempo inteiro, nem tanto pelo frio corporal mas pela mera ideia da atmosfera polar. Está muito frio para que mesmo os pensamentos se aventurem ao exterior. Você especula sobre o luxo de viver toda a existência na cama como uma ostra em sua concha, satisfeito com o lento êxtase da inação, e sonolentamente consciente de nada além de tão delicioso calor quanto o que sente agora. Ah! Esta ideia trouxe algo hediondo ao trem. Você pensa em como os mortos estão deitados em suas frias mortalhas e caixões estreitos através do sombrio inverno da sepultura, e não consegue persuadir sua imaginação de que eles nem tremem nem se encolhem quando a neve está caindo sobre seus pequenos amontoados de terra e a forte friagem uiva sobre as portas das tumbas. Esse pensamento tenebroso irá ajuntar tenebrosas multitudes e arremessará sua compleição sobre a hora da vigília.

Nas profundezas de todo coração há uma tumba e uma masmorra, Apesar das luzes, da música e folias no exterior poderem nos fazer esquecer sua existência e os enterrados ou prisioneiros que escondem. Mas por vezes, principalmente a meia-noite, esses obscuros receptáculos se escancaram. Em horas como essa, quando a mente possui uma sensibilidade passiva, mas nenhuma força de ação — Então ore para que suas aflições possam adormecer e a irmandade do remorso não quebre suas correntes. É tarde demais. Um trem funerário vem deslizando pela sua cama onde a paixão e o sentimento assumem formato corpóreo e as coisas da mente se tornam obscuros espectros para o olho. Ali está seu mais antigo sofrer, uma pálida jovem enlutada usando vestimentas de freira em seu primeiro amor, tristemente bela, com uma doçura sagrada em suas feições melancólicas e graça no fluxo de seu manto de zibelina. Em seguida aparece o véu do amor arruinado com o pó entre o cabelo dourado e suas vestes brilhantes, todas desbotadas e desfiguradas, tomando de sua vista com a cabeça cadente, com medo de reprovação: Ela era sua maior esperança, mas uma ilusória, então chame-a desilusão agora. Uma forma mais severa sucede, com uma testa enrugada, um olhar ou gesto de autoridade de ferro; não há nome para ele que não seja fatalidade — um emblema da má influencia que governa sua sorte, um demônio a quem você se submeteu por algum equivoco no inicio de sua vida, e foi escravizado por ele para sempre por obedecê-lo uma vez. Veja esses lineamentos maldosos esculpidos nas trevas, o lábio contorcido de escárnio, a zombaria daquele olho vivo, o dedo apontado tocando o lugar dolorido em seu coração! Você se lembra de qualquer ato de enorme insensatez onde você teria corado mesmo na mais remota caverna da terra? Então reconheça sua vergonha.

Passe, banda miserável! Bom para o desperto é se, revoltamente miserável, uma tribo feroz não o rodear — os demônios de um coração culpado que segura o inferno dentro de si. E se o remorso assumir as características de um amigo ferido? E se o demônio vier em trajes de mulher com uma pálida beleza em meio ao pecado e a desolação, e deitar-se ao seu lado? E se ele ficar no pé da sua cama na forma de um cadáver com uma sangrenta mancha no sudário? Suficiente sem tal culpa é este pesadelo da alma, este peso tal afundando os espíritos, essa escuridão invernal sobre o coração, este indistinto horror da mente misturando-se com a escuridão da câmara.

Por um esforço desesperado você começa a se erguer, saindo de uma espécie de sono consciente e olhando descontroladamente ao redor da cama, como se os demônios estivessem por todo lugar em sua mente assombrada. No mesmo momento as brasas adormecidas no coração enviam adiante um brilho que ilumina palidamente toda a sala externa e cintila na porta do quarto, mas não consegue ainda dissipar sua obscuridade. Seu olho procura por qualquer coisa que possa trazê-lo ao mundo dos vivos. Com minuciosa observação você nota a mesa próxima a lareira, o livro com a faca de marfim entre as folhas, a carta aberta, o chapéu e a luva caída. Logo a chama extingue-se, e com ela toda a cena desaparece, embora sua imagem permaneça um instante nos olhos da sua mente quando as trevas engole a realidade. Por toda a câmara há a mesma obscuridade de antes, mas não a mesma melancolia em seu peito.

Assim que sua cabeça volta ao travesseiro você pensa — Em um sussurro que vem — quão prazeroso nestas noites solitárias seria o ascender e descender de um respiro mais leve que o seu, a leve pressão de um peito mais sensível, o pulsar silencioso de um coração mais puro, transmitindo sua tranquilidade a sua aflição, como se a dorminhoca apaixonada estivesse envolvendo você em seu sonho. Sua influencia sobre você, embora ela não exista a não ser nessa imagem momentânea. Você afunda afunda em um ponto florido nas bordas do sono e da vigília, enquanto seus pensamentos se elevam ante as fotografias, todas desconexas, ainda assim todas assimiladas por uma alegria e beleza permeáveis. A roda de esplendorosos esquadrões que brilham ao sol é substituída pela alegria das crianças ao redor da porta de uma escola sob a sombra cintilante de velhas arvores na esquina de uma rustica alameda. Você fica na chuva ensolarada de um banho de verão, e vagueia entre as arvores ensolaradas de um bosque outonal, e olha para cima para o mais brilhante de todos os arco-íris cobrindo a camada ininterrupta de neve ao lado americano do Niágara. Sua mente luta agradavelmente entre a radiança dançante em volta do coração de um jovem homem e sua recente esposa e o voo dos pássaros que cantam no verão em seu ninho recém-construído. Você sente a alegre conexão entre um navio ante uma brisa, e observa os pés melodiosos de garotas róseas enquanto elas praticam sua ultima e mais alegre dança em um esplendido salão de baile, e você se encontra em um brilhante circulo de um teatro lotado quando as cortinas caem sobre uma cena leve e arejada.

Com um inicio involuntário você aproveita o apego a consciência, e prova a si mesmo, mas meio acordado, por fazer um paralelo duvidoso entre a vida humana e a hora que agora se passou. Em ambos você emerge de um mistério, passa pela vicissitude que você pode imperfeitamente controlar, e é encaminhado para outro mistério. Agora vem o bater estrondoso do relógio distante com golpes mais e mais fracos enquanto você mergulha mais na selva do sono. É a sentença de uma morte temporária. Seu espirito partiu, e se desgarrou como um cidadão livre entre as pessoas de um mundo sombrio, observando estranhas visões, ainda assim sem curiosidade ou consternação. Tão calmo, talvez, será a mudança final — Tão imperturbada, como se entre coisas familiares, a entrada da alma ao seu eterno lar.

Original: https://americanliterature.com/author/nathaniel-hawthorne/short-story/the-haunted-mind

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