Cheiro de Brasília no Morfeu Night Club

(Pestilence of Federal District at Morfeu Night Club)

Texto de Jeison Karnal
Ilustra de Emerson wiskow

Lima Souto afunda uma garoupa no bolso esquerdo. Sobrara pouco da rescisão, o suficiente para aliviar-se num inferninho. Morfeu Night Club. De terno preto, o segurança entrega-lhe uma consumação. Luzes estroboscópicas engolem a pista de dança. O garçom leva-o ao andar de cima, depois desaparece. Escada caracol, rangidos nos degraus. Corredor estreito, carpete fedorento, bolor de mofo no teto. Gemidos pelo vão das portas e móveis fremindo. Cheiro de Glade misturado com merda, “intestino tropical”. A fumaça espessa do cigarro engancha-se às narinas de Lima Souto. 
Um careca, rouco e atarracado, discursa pelo umbral escuro:

Em Brasília, todos são canalhas! Mas eu tô limpo! Prazer… Eliseu (saindo do quarto).

Ah… Prazer… Seu Eliseu… mas… o senhor sabe dizer onde fica o gabinete 204?

Está procurando o Vampiro, o Tamanduá ou o Leitãozinho?

Ein? … Eu só quero dar uma transada, seu Eliseu… Sabe onde é?

Mas, garoto, é quarto ou gabinete?

Quarto, claro!

Por que chamou de gabinete então?

Chamei? Puxa, desculpe nem percebi… Onde fica o 204?

Ninguém da suposta quadrilha está aqui, garoto! Tu é da Federal, não é?

Que Federal, pô? Só quero dar uma aliviada!

Garoto, o Tamanduá nunca viu helicóptero nenhum!

Tá louco? Só quero achar a minha japonesinha!

O Vampiro, o Tamanduá e o Leitãozinho não receberam dinheiro, garoto!

— (Nervoso e cansado, entra no jogo) Tá bom, seu Eliseu… Vai pra parede então (finge que revista)… o senhor está preso por formação de quadrilha…

Que que eu falei, garoto! Eu sinto o cheiro! Isso é abuso de autoridade!

Eliseu com a cara na parede. Lima Souto apalpa o próprio bolso da calça. Os cem reais que sobraram da rescisão sumiram. Fica irritado. Eliseu nega tudo, finge estar algemado, pede advogado para os amigos. Lima Souto fica cada vez mais nervoso. Olha para o chão sonhando com garoupa. Um cheiro de papel queimado vem do umbral. Vampiro, Tamanduá e Leitãozinho apagam os rastros imaginários de um crime que Lima Souto não faz ideia. Ele só pensa na japonesinha do 204.

(Publicado no jornal Diário de Canoas em 19 de maio de 2017)

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